El Niño soma 100 dias de calor extremo, bate 3,05°C no Pacífico e pode marcar o clima de 2027

El Niño soma 100 dias de calor extremo, bate 3,05°C no Pacífico e pode marcar o clima de 2027
Foto: acervo

O fenômeno já está entre os mais intensos registrados e deve atingir seu maior impacto sobre a atmosfera no próximo ano.

Durante 100 dias seguidos, os oceanos fora das regiões polares registraram temperaturas diárias acima de qualquer marca anterior para a mesma data desde 1982. A sequência, encerrada em 10 de setembro de 2026, ocorre enquanto um El Niño excepcionalmente intenso avança pelo Pacífico e se aproxima de um possível recorde histórico.

O sinal mais forte está concentrado no Pacífico equatorial, região usada pelos meteorologistas como referência para medir o fenômeno. Em 19 de setembro, a temperatura da área alcançou uma anomalia de 3,05°C em relação à média de 1991 a 2020, o maior valor diário observado em 150 anos de medições modernas.

Segundo a Climate Reanalyzer, a anomalia de 3,05°C foi registrada no Pacífico em 19 de setembro de 2026, superando a máxima diária anterior, de 3,02°C, observada em novembro de 2015.

Um recorde que chegou antes do pico

A antecipação é uma das características que mais chamam atenção dos pesquisadores. O valor atual apareceu cerca de dois meses antes do pico alcançado pelo El Niño de 2015, até então considerado o episódio mais intenso da série moderna.

Outra forma de cálculo, o Índice Oceânico do Niño, conhecido pela sigla ONI, coloca o fenômeno atual apenas um centésimo de grau abaixo do recorde de 2015. Esse indicador utiliza uma média móvel de 30 anos e incorpora o efeito do aquecimento provocado pelas atividades humanas.

A comparação fica ainda mais expressiva quando se observa a média mensal. Em agosto, a anomalia na região Niño 3.4 chegou a 2,45°C. O número só ficou abaixo dos valores atribuídos ao El Niño de 2015 e 2016, que atingiu 2,75°C, e de um episódio reconstruído de 1877 e 1878, estimado em 2,7°C com base em registros navais esparsos.

O que os modelos projetam para o fim do ano

Na classificação usada por cientistas, um El Niño é considerado fraco a partir de 0,5°C de anomalia na região Niño 3.4, moderado acima de 1°C, forte acima de 1,5°C e muito forte quando ultrapassa 2°C. O episódio de 2026 já está, portanto, muito acima do patamar usado para definir um evento de grande intensidade.

Uma análise reunindo 14 modelos sazonais projetou um pico próximo de 4,1°C ainda neste ano. Se a estimativa se confirmar, a marca ficará aproximadamente 1,3°C acima do recorde associado ao episódio de 2015 e 2016.

Os 674 cenários individuais analisados apontaram para um novo recorde. A ressalva é que nenhum sistema de previsão havia sido testado diante de um El Niño dessa escala, porque não havia ocorrido antes um evento comparável dentro do período coberto pelos modelos.

O fenômeno começou a se desenvolver em junho de 2026 e deve persistir até o próximo ano. A velocidade de formação também é considerada fora do padrão histórico, segundo a avaliação do cientista climático Zeke Hausfather.

El Niño soma 100 dias de calor extremo, bate 3,05°C no Pacífico e pode marcar o clima de 2027
Foto: Divulgação

Por que o oceano muda o clima em terra

El Niño é a fase quente do ciclo natural chamado El Niño Oscilação Sul. Em condições normais, os ventos alísios empurram águas quentes para o oeste do Pacífico tropical. Quando esses ventos enfraquecem, parte desse volume se desloca para leste e sobe à superfície.

O resultado é o aquecimento anormal do oceano e, depois de alguns meses, o aumento das temperaturas do ar em escala global. Essa defasagem ajuda a explicar por que o maior impacto do episódio de 2026 pode ser sentido em 2027, e não necessariamente durante o período em que os recordes oceânicos estão sendo registrados.

A mudança não produz o mesmo resultado em todos os lugares. Em algumas regiões, o El Niño favorece mais chuva; em outras, cria condições semelhantes à seca. A resposta depende da localização, da estação do ano e da interação entre o fenômeno e outros padrões atmosféricos.

O calor acumulado não fica apenas na superfície

As medições globais ajudam a dimensionar o cenário. O maior valor diário de temperatura média da superfície oceânica, fora das áreas polares, foi de 21,1°C em 22 de agosto. Nos dias seguintes, a Climate Reanalyzer calculou uma média semanal ainda maior, de 21,18°C.

O serviço europeu Copernicus também acompanha o aquecimento, enquanto os indicadores usados para medir o El Niño têm como base dados de agências meteorológicas, incluindo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA.

Para Zachary Labe, cientista climático da organização Climate Central, a mudança do clima ajuda a explicar o nível recorde de calor acumulado no oceano. Mais de 90% do excesso de energia associado à queima de combustíveis fósseis e às emissões de gases de efeito estufa é absorvido pelos mares, em vez de permanecer na atmosfera.

Esse calor também alcança centenas de metros de profundidade. O efeito pode alterar cadeias alimentares marinhas, pressionar a atividade pesqueira e afetar o turismo, além de fornecer energia adicional a sistemas meteorológicos como furacões.

O que o alerta representa para a Amazônia

Para quem vive nos estados da Amazônia, a importância do episódio está no alcance global do fenômeno. Como o El Niño reorganiza padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões, suas previsões são acompanhadas por setores que dependem do clima, como agricultura, navegação, abastecimento e combate a incêndios.

Isso não significa que todos os estados amazônicos terão a mesma resposta ou que um impacto específico possa ser determinado apenas pelo recorde do Pacífico. A distribuição regional depende de novas atualizações dos modelos e da combinação com outros sistemas atmosféricos. O dado mais seguro, neste momento, é que o oceano está acumulando energia em uma escala capaz de influenciar o clima mundial por vários meses.

O episódio ocorre em um planeta que já está mais quente por causa das emissões humanas. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente avaliou que a temperatura média global pode ultrapassar o limite de 1,5°C previsto no Acordo de Paris nos próximos anos, patamar considerado crítico para evitar os efeitos mais perigosos da crise climática.

Como o El Niño deve permanecer ativo até 2027, os próximos meses serão decisivos para confirmar se a projeção de 4,1°C se realizará e como o aquecimento do Pacífico se traduzirá em efeitos regionais.

Com informações de Climate Reanalyzer, NOAA, Copernicus Climate Change Service, Climate Central e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

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