
Dois estudos na Nature Health apontam o pior verão urbano já registrado na Europa e reacendem o debate sobre adaptação ao calor extremo.
Mais de 50 mil pessoas morreram por causa do calor extremo em cidades europeias entre junho e agosto de 2026, o maior número já estimado para uma estação na região. Dois estudos publicados na revista Nature Health, conduzidos por pesquisadores do Imperial College e da London School of Hygiene & Tropical Medicine, ambos no Reino Unido, calculam que cerca de dois terços dessas mortes podem ser atribuídas às mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis.
O alerta chega de um continente temperado, mas dialoga com uma região que convive com calor intenso o ano inteiro: a Amazônia.
Como os pesquisadores chegaram ao número
A equipe analisou 854 áreas urbanas em 30 países: os 27 da União Europeia, o Reino Unido, a Noruega e a Suíça. Em vez de contar atestados de óbito, os autores combinaram as temperaturas observadas com modelos epidemiológicos que relacionam calor e mortalidade, e compararam cenários com e sem o aquecimento causado pela ação humana.
É essa comparação que permite dizer quanto das mortes teria ocorrido mesmo sem a mudança climática e quanto seria adicional. Segundo os estudos publicados na Nature Health em outubro de 2026, a fatia atribuída ao aquecimento global é de dois terços do total.
Quem foi mais atingido
Os cinco países com mais mortes estimadas foram, nesta ordem, Itália, França, Espanha, Alemanha e Reino Unido. Na Espanha, a estimativa é de 6.824 mortes ligadas ao calor, das quais 77% atribuíveis ao aquecimento de origem humana. O cálculo cobre cerca de 22 milhões de pessoas em 90 cidades espanholas.
Segundo a Sociedade Espanhola de Epidemiologia, o excesso de mortes superou a soma das ondas de calor de 2003 e 2022, e o impacto atingiu não só idosos, mas também adultos jovens. O grupo cita um aumento de temperatura de 2,6 °C no sul da Europa, acima do limite de 1,5 °C do Acordo de Paris.
Por que junho pesou tanto
Em vários países, o episódio mais extremo ocorreu em junho. Óscar Zurriaga, pesquisador emérito da Fundação FISABIO, de Valência, e integrante da sociedade, explica que os autores atribuem o fenômeno ao início da temporada, quando a população está menos aclimatada ao calor extremo.
Os estudos apontam ainda dois fatores: umidade muito alta e noites com temperaturas incomuns para a época. Para Zurriaga, esses achados devem orientar recomendações à população, a adaptação das moradias e a criação de abrigos climáticos.

As ressalvas dos especialistas
David García García, pesquisador do sistema de monitoramento de mortalidade (MoMo) do Centro Nacional de Epidemiologia do Instituto de Saúde Carlos III, destaca o valor de usar um mesmo método em tantas cidades, o que permite comparar regiões. Mas faz uma ressalva importante.
“Trata-se de estimativas baseadas em temperaturas observadas e modelos epidemiológicos, que não incorporam dados reais de mortes ocorridas no verão de 2026.”
García também observa que o método parte da temperatura associada à menor mortalidade como referência, o que pode resultar em estimativas altas. Na saúde pública, costuma-se usar limiares de temperatura a partir dos quais o risco sobe de forma significativa. Por isso, segundo ele, os números devem ser distinguidos dos dados oficiais de mortalidade observada.
Zurriaga lembra que os estudos cobrem apenas as 854 cidades, que reúnem 40% da população dos 30 países, sem informação sobre os 60% que vivem fora de áreas urbanas. Ele considera confiável a tendência apontada e observa que os próprios autores descrevem sua estimativa como conservadora.
Números oficiais na Espanha
Para comparação, o MoMo atribuiu ao calor 4.744 mortes em 2022, 3.009 em 2023, 3.832 em 2025 e 5.807 em 2026, sempre no período de 15 de maio a 30 de setembro, segundo a Sociedade Espanhola de Epidemiologia. A diferença entre o dado oficial de 2026 e a estimativa dos estudos, de 6.824, ilustra como o método influencia o resultado.
O que isso significa para a Amazônia
Os estudos tratam apenas da Europa e não fazem projeções para o Brasil. Ainda assim, o recado metodológico vale para cidades amazônicas como Manaus, Belém e Porto Velho: noites quentes, umidade alta e população pouco preparada para picos de temperatura são fatores que os autores associam a mais mortes. Planos locais de adaptação, como áreas de sombra, arborização urbana e alertas de calor, entram na mesma discussão.
Os pesquisadores esperam que novas pesquisas examinem o efeito do calor sobre causas específicas de morte ao longo de todo o ano. A expectativa é que, com dados oficiais consolidados, as estimativas de 2026 possam ser comparadas com a mortalidade efetivamente registrada.
Os estudos completos estão disponíveis na Nature Health.
Com informações de Science Media Centre Spain.
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