Pnuma admite que o mundo vai passar de 1,5°C em poucos anos, com 1,37°C já medidos e 130 bilhões de toneladas de CO2 restantes

Pnuma admite que o mundo vai passar de 1,5°C em poucos anos, com 1,37°C já medidos e 130 bilhões de toneladas de CO2 restantes
Foto: Divulgação

Relatório do Pnuma muda o foco global: o objetivo agora é encurtar o período acima do limite e voltar a 1,5°C o quanto antes.

Com o planeta já 1,37°C mais quente do que no período pré-industrial e um orçamento de carbono que se esgotaria em poucos anos, a ONU deixou de tratar o limite de 1,5°C como algo ainda evitável. Em relatório divulgado nesta semana, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) reconhece, pela primeira vez, que o limite do Acordo de Paris será ultrapassado nos próximos anos e que a estratégia global precisa mudar.

De "evitar" a "retornar": a mudança de postura

O documento trata do chamado "overshooting", o estouro de uma meta de temperatura. Desde 2015, quando o Acordo de Paris foi firmado, a postura era evitar passar de 1,5°C. Agora, a intenção deve ser retornar a 1,5°C o mais rápido possível.

O Acordo de Paris fixa 1,5°C como limite ideal e 2°C como teto máximo consensuado neste século. Segundo os cientistas, ficar em 1,5°C evitaria os impactos mais catastróficos da crise climática.

O relatório se chama "Limiting overshoot: navigating exceedance of 1,5°C and pathways towards return". A capa mostra cinco pessoas em um cabo de guerra, puxando temperaturas quentes para um espectro mais frio, contra um cenário sombrio e desconhecido.

A diretora-executiva do Pnuma, Inger Andersen, resumiu o diagnóstico a jornalistas de vários países:

“Este relatório nos diz que o aumento da temperatura global deve ultrapassar 1,5°C em poucos anos. E em todo o planeta, os impactos da mudança climática vão se manifestar mais rápido, serão mais intensos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”

Ela completou: “A meta continua sendo 1,5°C, mas agora precisamos abordá-la de forma diferente”.

A conta que não fecha

A brasileira Thelma Krug, ex-vice-presidente do IPCC e atual presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima da Organização Meteorológica Mundial, destaca um dado novo: a temperatura média global já subiu 1,37°C. O último relatório do IPCC, de 2023, indicava 1,1°C.

"No ritmo atual temos um aumento de 0,25°C a cada década. Então, se continuarmos assim, nos próximos dez anos superaríamos o limite de 1,5°C", afirma Thelma.

O orçamento de carbono é outro ponto crítico. Segundo Thelma, o espaço para manter o aquecimento em 1,5°C seria de 130 bilhões de toneladas de CO2 a partir de 2026. Em 2024, só a queima de combustíveis fósseis e a indústria emitiram 40 bilhões de toneladas.

"Teríamos 3 a 4 anos para chegar ao limite, só com estas emissões", calcula ela. Em 2024, o planeta já registrou um ano com média acima de 1,5°C, mas o "overshoot" se refere a uma média de longo prazo, não a um único ano.

O que o relatório propõe

No cenário mais otimista, a temperatura global deve atingir um pico de 1,8°C neste século. Quanto mais o aquecimento se aproxima e passa de 1,5°C, mais perigosos ficam os riscos, e a chance de cruzar pontos de não retorno ("tipping points") aumenta a cada fração de grau.

O texto pede redução imediata e sustentada das emissões, incluindo o metano. Para baixar a temperatura depois do pico, será preciso ter emissões líquidas negativas, ou seja, absorver mais gases-estufa do que se emite. O relatório cita a remoção de dióxido de carbono (CDR), cuidadosamente regulamentada, como parte do conjunto de medidas.

A professora Debra Roberts, uma das autoras, descreve o caminho em quatro estágios: a ultrapassagem, o pico, o platô e o declínio. "Ainda não sabemos em que ponto poderemos atingir o pico ou quanto tempo permaneceremos neste platô", explicou.

Para ela, a boa notícia é que o excesso decorre de ação política e social insuficiente. "Ainda podemos agir para limitar a magnitude do ‘overshoot’", disse.

O que dizem os especialistas brasileiros

Para Sérgio Margulis, pesquisador do Ipea e professor da PUC-Rio, o relatório é "uma sacudida". "Agora estamos em outro mundo. Temos de tratar de trazer o pico das emissões no nível mais baixo possível e o mais rápido possível", afirma.

O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, vê no termo um símbolo da urgência e da lentidão na implementação. Ele lembra que a Decisão Mutirão, aprovada na conferência de Belém, mencionou o "overshoot" pela primeira vez em um documento multilateral. O texto reconhece que limitar o aquecimento a 1,5°C sem ultrapassagem, ou com ultrapassagem limitada, exige cortes de 43% até 2030 e de 60% até 2035 em relação a 2019.

Roberto Kishinami, do Instituto Clima e Sociedade (iCS), afirma que o mundo entrou em um novo estágio da crise e que "esta ultrapassagem está contratada". Para ele, a outra urgência é implementar já medidas de adaptação a um mundo mais quente.

As lacunas apontadas

Há críticas às soluções do relatório, consideradas limitadas e alinhadas à visão europeia. A ênfase recai na redução absoluta das emissões, sem destaque a soluções baseadas na natureza, mercados de carbono ou reflorestamento.

Uma fonte ouvida pelo Valor argumenta que a única forma de remover carbono da atmosfera é por meio de florestas, e que tecnologias como o CCS apenas enterram o carbono, o que "não é remoção". O texto também não destaca a vantagem comparativa do Brasil na recuperação de terras degradadas.

O que isso significa para a Amazônia

Para a região amazônica, o debate é direto. A maior floresta tropical do planeta é peça central em qualquer cenário de remoção de carbono por meio de florestas, e é também uma das áreas mais expostas a eventos extremos, como secas e queimadas, que se intensificam com cada fração de grau a mais. Conter o desmatamento e restaurar áreas degradadas nos estados amazônicos entra, assim, tanto na mitigação quanto na adaptação.

Segundo o Pnuma, em relatório divulgado em setembro de 2026, o mundo precisa agora reduzir emissões de forma imediata e persistente para limitar a magnitude e a duração da ultrapassagem. As decisões dos próximos anos, e a próxima rodada de metas climáticas nacionais, dirão se haverá chance de voltar a 1,5°C.

Com informações de Pnuma.

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