
Disputa entre países ricos, emergentes e pobres trava o calendário de três relatórios decisivos para metas e financiamento climático.
Para os países que precisarão definir novas metas de corte de emissões em 2028, a dúvida deixou de ser apenas científica: o próximo diagnóstico global sobre o clima poderá não estar pronto a tempo. O impasse no IPCC, principal autoridade internacional em ciência climática, impede há quase três anos que seus 195 países-membros aprovem o calendário dos próximos relatórios.
A decisão será discutida em uma plenária em Addis Ababa, capital da Etiópia. O encontro é visto por muitos participantes como a última oportunidade de estabelecer datas anteriores à conferência climática da Organização das Nações Unidas prevista para novembro de 2028. Nesse momento, os governos deverão avaliar o avanço das metas do Acordo de Paris, firmado em 2015.
O calendário virou uma disputa sobre poder e responsabilidade
O IPCC prepara três documentos centrais. O primeiro examinará a extensão e as causas do aquecimento global. O segundo tratará da vulnerabilidade das sociedades e das estratégias de adaptação. O terceiro reunirá alternativas para impedir que o aumento da temperatura avance ainda mais.
Os presidentes dos grupos de trabalho propuseram que os três textos sejam aprovados até setembro de 2028. O plano, segundo o francês Robert Vautard, foi calculado a partir do volume de trabalho esperado, e não para atender diretamente à agenda da cúpula da ONU.
O grupo contrário considera o prazo apertado. Índia, Quênia, Arábia Saudita, Rússia e China estão entre os países que defendem mais tempo para examinar milhares de estudos, negociar a redação e concluir as revisões feitas por especialistas e governos. A proposta é empurrar os dois últimos relatórios para 2029.
Por que pesquisadores de países pobres pedem mais tempo
Por trás da discussão sobre datas está uma desigualdade antiga na produção científica. Pesquisadores de países com menos recursos enfrentam mais dificuldades para publicar estudos em revistas especializadas e, muitas vezes, precisam conciliar o trabalho no IPCC com empregos regulares. A participação no painel é voluntária e não substitui suas atividades profissionais.
Joyce Kimutai, cientista climática que representa o Quênia no IPCC, resumiu o argumento em defesa de um processo mais lento: “Se você tem um processo que acontece muito rapidamente, ele não seria inclusivo”. Para os países em desenvolvimento, acelerar a revisão pode significar reduzir a presença de evidências e especialistas de regiões que já enfrentam alguns dos impactos mais severos da crise climática.
O cientista indiano Thiagarajan Jayaraman afirma que os relatórios ainda deixam em segundo plano questões de equidade. Entre elas estão a responsabilidade histórica dos países ricos pelo acúmulo de gases de efeito estufa e o direito de nações mais pobres ampliarem o acesso à energia para se desenvolver.
A conta que os relatórios precisam atualizar
O problema do prazo também está relacionado à velocidade com que o cenário climático mudou desde a publicação dos últimos grandes relatórios, entre 2021 e 2022. Em 2024, a temperatura média global ficou mais de 1,5 grau Celsius acima do período pré-industrial pela primeira vez em um ano completo.
Os próximos documentos deverão avançar sobre o chamado overshoot, situação em que o aquecimento ultrapassa temporariamente um limite antes de uma eventual redução. A análise inclui as consequências e os limites de técnicas destinadas a retirar dióxido de carbono da atmosfera, uma área ainda cercada por incertezas e disputas políticas.
Segundo o IPCC, seus representantes dos 195 países-membros discutem o calendário dos próximos relatórios em Addis Ababa, na Etiópia, em outubro. A organização não produz pesquisas originais. Sua influência vem da revisão sistemática do conhecimento já publicado, feita por centenas de especialistas e aprovada pelos governos participantes.
O risco de uma decisão baseada em relatórios antigos
Os países que defendem a publicação antes de 2028 afirmam que a ausência de uma nova avaliação deixaria os negociadores dependentes de documentos produzidos antes de mudanças recentes no clima e na política energética. Isso pode ampliar a margem para que governos selecionem apenas os dados convenientes, em vez de trabalhar com uma síntese comum.
Jozef Pecho, climatologista da GoSpace Labs, na Eslováquia, teme que aumente o espaço para a escolha seletiva e a distorção da ciência. A preocupação é especialmente relevante porque os relatórios do IPCC já serviram de base para decisões governamentais, políticas de adaptação e julgamentos em tribunais internacionais.
Uma coalizão de mais de 30 países, formada por nações europeias, latino-americanas e pequenos Estados insulares, defende que o acesso à ciência mais recente é necessário para orientar uma resposta justa e baseada em evidências. O grupo avalia que atrasar os documentos pode enfraquecer as discussões sobre financiamento climático e novas metas de redução de emissões.
O outro lado acusa pressão política
O conflito se agravou em um momento de maior resistência a políticas climáticas. Governos produtores de petróleo e países emergentes argumentam que cortes rápidos podem prejudicar a competitividade industrial ou limitar o uso de combustíveis mais baratos para atender necessidades de desenvolvimento.
Lisa Schipper, editora do IPCC pela Suécia, afirmou que a política é “o elefante na sala” e acusou alguns governos de usar o debate como estratégia para adiar decisões. A Rússia rejeitou essa interpretação e classificou como deturpação deliberada a tentativa de apresentar a divergência como um confronto com países produtores de petróleo.
O ministério russo responsável pela economia também advertiu que sincronizar o ciclo científico com as negociações da ONU pode ameaçar a independência do IPCC. Na avaliação do governo, os relatórios poderiam ser usados para promover uma agenda climática previamente definida.
A saída dos Estados Unidos, maior financiador do IPCC, em janeiro acrescentou pressão institucional ao processo. Ao mesmo tempo, a organização tenta responder às críticas: pouco mais da metade dos autores principais e editores escolhidos para a próxima avaliação vem de economias em desenvolvimento ou em transição.
O que está em jogo para a Amazônia
Para a Amazônia, a disputa não é abstrata. Governos e comunidades dos nove países da região dependem de avaliações internacionais para justificar políticas de adaptação, proteger florestas, planejar cidades expostas a extremos climáticos e negociar recursos para reduzir riscos. Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa também estão inseridos em uma região onde decisões sobre uso da terra e emissões têm impacto além das fronteiras nacionais.
Os próximos relatórios deverão incluir, pela primeira vez, capítulos específicos sobre financiamento climático e sobre danos irreversíveis sofridos por alguns países. Esses temas interessam diretamente às nações amazônicas, que enfrentam pressão simultânea por conservação ambiental, geração de renda, infraestrutura e adaptação das populações vulneráveis.
A indefinição pode terminar na plenária da Etiópia. Se os países não chegarem a um acordo, os relatórios de adaptação e de opções para conter o aquecimento poderão ficar para 2029, deixando a conferência climática de 2028 sem a atualização científica que muitos governos consideram necessária. As datas aprovadas definirão os próximos anos de trabalho do IPCC.
Com informações de Reuters.
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