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Mar Mediterrâneo aquece e fica mais salgado até 4 mil metros, com aceleração que já muda sua circulação

Mar Mediterrâneo aquece e fica mais salgado até 4 mil metros, com aceleração que já muda sua circulação
Foto: acervo

Estudo publicado em 16 de setembro de 2026 mostra que a transformação alcança o fundo do Adriático e ameaça reduzir refúgios para a vida marinha.

Uma mudança que antes parecia restrita à superfície agora aparece no fundo do mar: o Mediterrâneo está ficando mais quente e mais salgado até profundidades de 3 mil a 4 mil metros, e o ritmo dessa transformação também aumentou. O resultado foi identificado em um estudo publicado em 16 de setembro de 2026 na revista Geophysical Research Letters, com base em medições feitas entre 1950 e 2025.

A alteração é mais forte no centro e no leste do Mediterrâneo, mas nenhum setor analisado ficou completamente fora do sinal. O ponto mais sensível está no Adriático, onde a água formada no inverno desce para o fundo e distribui oxigênio pela circulação profunda. Agora, essa água afunda mais quente e mais salgada do que no passado.

O fundo do mar também entrou na mudança

Os pesquisadores Elena Terzić e Ivica Vilibić, do Instituto Ruđer Bošković, na Croácia, reuniram registros de cruzeiros oceanográficos e dados de boias robóticas para comparar diferentes partes do Mediterrâneo. A análise permitiu observar não apenas a elevação da temperatura e da salinidade, mas também a velocidade com que esses indicadores se alteraram ao longo das décadas.

Segundo a American Geophysical Union, o Mediterrâneo registrou aquecimento e aumento da salinidade estatisticamente significativos até 3 mil ou 4 mil metros de profundidade entre 1950 e 2025, enquanto a aceleração das mudanças alcançou cerca de 2.500 metros.

Na superfície, a diferença é ainda mais evidente. Desde 2000, a água mediterrânea aqueceu cerca de 0,5 grau Celsius por década, ritmo duas a três vezes maior que o observado na superfície média dos oceanos globais. Na maior parte da segunda metade do século 20, o aquecimento em grande parte da bacia era inferior a 0,1 grau por década.

Por que o Adriático concentra o maior risco

A circulação profunda depende de uma propriedade pouco visível para quem observa o mar: a densidade. A água aquecida tende a ficar mais leve, enquanto o sal adicional aumenta seu peso. Quando esses dois efeitos acontecem ao mesmo tempo, um pode compensar parcialmente o outro.

Na maior parte do Mediterrâneo, o aquecimento está predominando. A superfície fica mais leve e se mistura com mais dificuldade com as camadas inferiores. No Adriático, porém, ventos frios de inverno ainda conseguem tornar a água superficial densa o suficiente para afundar. Esse processo leva oxigênio para o mar profundo e sustenta organismos que vivem longe da luz.

O problema é que a água que desce já não tem as mesmas características de antes. Desde 2000, as águas profundas do sul do Adriático aqueceram aproximadamente seis vezes mais rápido que as de uma bacia mediterrânea típica. O sal ainda ajuda a manter a densidade necessária para o afundamento, mas os pesquisadores querem saber por quanto tempo esse equilíbrio permanecerá.

“O que é realmente surpreendente é que vemos mudanças significativas em todas as regiões, alcançando grandes profundidades”, afirmou Elena Terzić, autora principal do estudo.

Mais calor também significa menos oxigênio

O estudo não mediu diretamente o oxigênio nas águas profundas. Ainda assim, a relação física é conhecida: água mais quente consegue armazenar menos oxigênio. Além disso, os autores lembram que reduções de oxigênio já foram registradas em algumas partes do Mediterrâneo.

Essa combinação reduz as áreas de refúgio disponíveis para espécies que tentam escapar do calor. Ao norte, o Mediterrâneo é limitado pelo continente europeu. Para baixo, a própria água profunda está aquecendo. A salinização também pode alterar a maneira como as camadas se misturam e como nutrientes e oxigênio são transportados.

Os resultados não significam que a circulação profunda tenha parado. O que o trabalho mostra é que ela está funcionando em condições diferentes, com água mais quente e mais salgada chegando às profundezas. A consequência futura dependerá de o aumento da salinidade continuar compensando o efeito de leveza provocado pelo aquecimento.

Um alerta que chega ao Atlântico e à Amazônia

O Mediterrâneo é uma bacia menor e mais confinada que os grandes oceanos, mas sua água circula entre a superfície e o fundo cerca de dez vezes mais rapidamente que no oceano aberto. Por isso, os autores consideram a região uma espécie de observatório natural para acompanhar como o mar responde ao excesso de calor acumulado pela atmosfera.

A conexão com a Amazônia precisa ser entendida sem atalhos. O estudo não analisou o Atlântico brasileiro, os rios amazônicos ou as águas costeiras dos estados da região. Ainda assim, ele ajuda a explicar por que o monitoramento de temperatura, salinidade e circulação é importante para países amazônicos banhados pelo Atlântico, como Amapá, Pará e Maranhão, além de orientar a leitura de mudanças oceânicas que podem afetar cadeias pesqueiras, clima e ecossistemas costeiros.

O oceano absorveu mais de um quarto do dióxido de carbono emitido pela humanidade e mais de 90% do excesso de calor retido pelos gases de efeito estufa. A velocidade observada no Mediterrâneo reforça que essas mudanças não precisam ocorrer de modo uniforme ou linear.

O que os pesquisadores ainda vão investigar

A próxima etapa será separar a contribuição de diferentes fatores. Entre eles estão as condições da atmosfera, a evaporação, a chuva, a descarga dos rios e a entrada de água do Atlântico pelo estreito de Gibraltar. Os cientistas também pretendem verificar se os modelos climáticos reproduzem corretamente a aceleração observada.

Essa comparação é decisiva porque projeções que pressupõem uma mudança constante podem subestimar a rapidez com que uma bacia marinha se transforma. O artigo completo está disponível na publicação da Geophysical Research Letters.

Os próximos estudos deverão esclarecer se o Adriático continuará formando água densa capaz de transportar oxigênio para o fundo e quais áreas do Mediterrâneo serão mais vulneráveis à perda de circulação e à redução de oxigênio.

Com informações de American Geophysical Union.

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