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Da eletrificação ao lixo, COP31 reúne 10 frentes e fixa metas para transformar promessas climáticas até 2035

Da eletrificação ao lixo, COP31 reúne 10 frentes e fixa metas para transformar promessas climáticas até 2035
Foto: acervo

Agenda apresentada em Bonn tenta aproximar negociações internacionais de ações práticas em energia, cidades, resíduos e saúde.

O próximo ciclo da diplomacia climática internacional será organizado em torno de metas que tentam sair do campo das promessas e chegar à execução. A Presidência da COP31 apresentou, durante as sessões dos órgãos subsidiários da Convenção do Clima da ONU em Bonn, uma agenda de ação com dez temas prioritários e objetivos para 2035, incluindo ampliar a participação da eletricidade no consumo final de energia, conter o crescimento dos resíduos urbanos e reduzir o gasto energético dos edifícios.

A proposta será levada para Antalya, na Turquia, sede da COP31. O documento foi construído em parceria com a Austrália, dentro do modelo de cooperação entre as duas presidências, e pretende conectar as negociações oficiais a iniciativas voluntárias de governos, empresas, instituições financeiras, universidades e organizações da sociedade civil.

Uma agenda com dez caminhos para a implementação

A plataforma está dividida em dez frentes: Transição Energética Limpa e Eletrificação; Lixo Zero e Redução do Metano; Cidades Resilientes ao Clima; Industrialização Verde; Juventude e Educação; Segurança Alimentar; Oceanos e Mares; Sistemas de Saúde Dinâmicos e Resilientes; Sinergias do Rio; e Ponte para a Implementação Climática.

Financiamento, tecnologia e desenvolvimento de capacidades aparecem como condições transversais. Na prática, isso significa que a Presidência pretende tratar os temas não apenas como compromissos políticos, mas como áreas que precisam de investimento, conhecimento técnico, infraestrutura e cooperação para produzir resultados mensuráveis.

Segundo a Presidência da COP31, a Agenda de Ação foi lançada durante as sessões SB64, em Bonn, como parte de uma tentativa de ampliar a participação dos países na definição das prioridades antes da conferência de Antalya.

Energia e edifícios concentram metas numéricas

Uma das metas mais objetivas é elevar a participação da eletricidade no consumo final global de energia para 35% até 2035. A agenda parte de um cenário em que a eletricidade representa cerca de 23% desse consumo, enquanto 666 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à energia elétrica e quase 2 bilhões não dispõem de formas limpas de cozinhar.

O documento também considera a previsão de crescimento médio de 3,6% ao ano na demanda mundial por eletricidade entre 2026 e 2030. Esse aumento está associado à expansão econômica, à digitalização e à eletrificação de setores como transporte, indústria e edificações. Para a Presidência da COP31, ampliar fontes renováveis, modernizar redes e melhorar a eficiência energética precisa ocorrer de forma simultânea.

Nas cidades, a meta proposta é reduzir em pelo menos 25% a intensidade do uso de energia nos edifícios até 2035. O setor de construção responde por mais de um terço das emissões globais de dióxido de carbono, segundo o relatório citado na agenda. O texto também alerta que a capacidade mundial de refrigeração poderá passar de 22 terawatts, em 2022, para 68 terawatts em 2050, pressionando os sistemas elétricos.

Resíduos e metano entram no centro da estratégia

Outra frente busca reduzir em pelo menos 50% o aumento projetado da geração anual de resíduos sólidos urbanos até 2035. A lógica proposta combina prevenção, reciclagem, reaproveitamento de materiais e melhor tratamento dos resíduos orgânicos, com possibilidade de produção de biogás e biometano.

A prioridade também tem relação direta com o metano, gás responsável por aproximadamente 30% do aquecimento global atual, de acordo com a Avaliação Global do Metano, citada no documento. A redução das emissões em aterros e lixões é apresentada como uma das medidas capazes de produzir efeitos climáticos mais rápidos, além de diminuir a poluição e o desperdício de recursos.

Para países e cidades amazônicas, esse eixo tem aplicação concreta. A expansão urbana, a dificuldade de destinação adequada de resíduos e a necessidade de reduzir a dependência de soluções lineares fazem da gestão de lixo uma questão ambiental, sanitária e de infraestrutura. A agenda internacional não substitui políticas locais, mas pode orientar financiamento, tecnologia e cooperação para municípios da Amazônia.

O vínculo com Belém e os desafios amazônicos

A COP31 pretende dar continuidade à visão de cinco anos para a Agenda Global de Ação Climática lançada na COP30, em Belém. Essa conexão coloca a Amazônia dentro de uma sequência política que reúne transição energética, cidades, segurança alimentar, saúde, oceanos e redução de resíduos, temas que atravessam a realidade dos estados amazônicos, embora exijam soluções adaptadas a cada território.

Em Belém e em outras cidades da região, por exemplo, eficiência energética precisa considerar calor intenso, expansão urbana e acesso desigual a serviços. A segurança alimentar depende da proteção dos ecossistemas e das cadeias produtivas locais. Já a saúde pública é afetada por eventos climáticos extremos, fumaça, doenças relacionadas à água e condições precárias de infraestrutura. Esses vínculos ajudam a explicar por que a agenda não foi limitada à redução de emissões.

Da negociação para coalizões e investimentos

A Presidência da COP31 afirma que os dez temas foram escolhidos a partir de evidências científicas e de uma avaliação dos pontos em que a ação coletiva pode gerar maior impacto. A proposta é estabelecer objetivos globais de implementação e estimular coalizões entre governos, setor privado, finanças, academia e sociedade civil.

O processo também procura preservar o papel das negociações formais. A Agenda de Ação deverá complementar os acordos entre as Partes, sem substituí-los, e manter ligação com os seis eixos da Agenda Global de Ação Climática e com os trabalhos da Parceria de Marraquexe.

O modelo foi apresentado como uma inovação porque os países foram convidados a participar desde o início da definição das prioridades e da forma de execução. A Presidência turca e os parceiros australianos ainda deverão aperfeiçoar o documento em consultas com governos e demais setores até a realização da COP31 em Antalya.

Com informações da Presidência da COP31.

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