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A 3 mil metros, crustáceos pegam carona em aranhas-do-mar gigantes e repetem viagem a 225 km

A 3 mil metros, crustáceos pegam carona em aranhas-do-mar gigantes e repetem viagem a 225 km
Foto: <i>Ecology</i> (2026). DOI: 10.1002/ecy.70443

Registro feito no Pacífico chileno indica que a associação pode ser mais comum do que parecia nas profundezas.

Imagine atravessar centenas de quilômetros no fundo do oceano sem nadar. Foi algo parecido que pesquisadores observaram quando pequenos crustáceos apareceram agarrados a aranhas-do-mar gigantes em imagens feitas a mais de 2,6 mil metros de profundidade, no Chile. O comportamento foi registrado duas vezes, em pontos separados por cerca de 225 quilômetros, o que sugere uma relação mais frequente do que um encontro casual.

Os passageiros são anfípodes da espécie Mesopleustes abyssorum, animais semelhantes a pequenos camarões. Os veículos são exemplares de Colossendeis colossea, um tipo de picnogonídeo conhecido como aranha-do-mar gigante. Apesar do nome, esses animais não são aranhas terrestres. Eles pertencem a outro grupo de invertebrados marinhos e caminham sobre o leito oceânico usando longas pernas.

As duas viagens aconteceram no mesmo trecho do Pacífico

A primeira observação ocorreu em um cânion submarino íngreme e rochoso, a 3.155 metros abaixo da superfície, na margem chilena. As câmeras mostraram dois anfípodes maiores presos a estruturas sensoriais e reprodutivas da aranha-do-mar. Uma fêmea menor estava posicionada mais atrás, sobre uma das pernas usadas pelo hospedeiro para caminhar.

Quatro dias depois, a equipe encontrou uma cena semelhante a aproximadamente 225 quilômetros dali, em uma área com 2.698 metros de profundidade. Dessa vez, dois anfípodes estavam firmemente presos a outro picnogonídeo. Para não perder a carona, os crustáceos usavam uma estrutura longa e parecida com uma garra na extremidade de seus próprios membros.

Segundo o estudo publicado na revista Ecology, anfípodes da espécie Mesopleustes abyssorum foram observados agarrados a aranhas-do-mar gigantes em dois pontos da margem chilena, entre 2.698 e 3.155 metros de profundidade, em setembro de 2026.

Por que um crustáceo escolheria esse transporte?

A resposta ainda não está definida. Uma possibilidade é que os anfípodes estejam usando as aranhas-do-mar como meio de deslocamento. Em um ambiente onde a luz solar não chega e as correntes podem dificultar a movimentação, viajar sobre um animal maior pode economizar energia e permitir alcançar áreas distantes.

Os anfípodes também podem estar aproveitando o hospedeiro como ponto de encontro. Em regiões profundas, encontrar um parceiro pode ser difícil porque os animais vivem espalhados por grandes extensões do fundo do mar. Uma aranha-do-mar em movimento poderia funcionar como uma espécie de plataforma móvel para aproximar indivíduos.

Outra hipótese envolve proteção e alimentação. A altura do hospedeiro em relação ao sedimento pode ajudar o crustáceo a evitar predadores ou alcançar partículas orgânicas carregadas pela água. No mar profundo, restos de organismos e material que desce das camadas superiores são fontes importantes de energia, mas chegam de forma irregular.

A 3 mil metros, crustáceos pegam carona em aranhas-do-mar gigantes e repetem viagem a 225 km
Foto: <i>Ecology</i> (2026). DOI: 10.1002/ecy.70443

O que as imagens revelam e o que ainda falta descobrir

Os registros foram feitos pelo veículo operado remotamente SuBastian, durante uma expedição do navio de pesquisa Falkor, também identificado no estudo como Falkor(too). A equipe era liderada por Jorge Pérez-Schultheiss, do Museu Nacional de História Natural do Chile, e utilizava o submersível para investigar organismos que vivem no fundo da margem chilena.

A repetição do comportamento em localidades diferentes é o principal elemento da descoberta. Um único anfípode agarrado a uma aranha-do-mar poderia ser resultado de um contato acidental. Duas ocorrências, com vários crustáceos envolvidos e a centenas de quilômetros de distância, abrem a possibilidade de que a associação seja comum e ampla naquela região.

Isso não significa, porém, que os cientistas já tenham comprovado uma relação permanente entre as duas espécies. As câmeras registraram apenas o momento em que os animais estavam juntos. Ainda não se sabe quanto tempo os anfípodes permanecem sobre as aranhas, se escolhem ativamente determinados indivíduos ou se recebem algum benefício direto em troca.

Para responder a essas perguntas, os autores defendem novas observações feitas diretamente no ambiente, estudos de genética populacional e análises da alimentação dos animais. A genética pode mostrar se grupos encontrados em áreas distantes estão conectados pelo transporte. Já a ecologia alimentar pode indicar se os crustáceos encontram mais partículas ou presas quando estão sobre o hospedeiro.

Uma descoberta distante, mas útil para entender os oceanos

O registro ocorreu no Pacífico sudeste e não demonstra que o mesmo comportamento exista na costa brasileira ou no Atlântico. Essa diferença é importante para leitores da Amazônia, porque a região também reúne extensas áreas costeiras e ambientes pouco observados em profundidade, especialmente diante do Amapá e do Pará. Ainda assim, não é possível transferir automaticamente as conclusões chilenas para esses ecossistemas.

O ponto em comum está no tamanho do desconhecimento. Mesmo com navios oceanográficos, sonares e veículos robóticos, grande parte do fundo marinho continua sem observação direta. Cada expedição pode registrar uma nova associação entre espécies, revelar uma rota de alimentação ou mostrar que um animal aparentemente isolado depende de outro para se deslocar.

Esse tipo de descoberta também ajuda a lembrar que a vida marinha não se organiza apenas pela relação entre predador e presa. Em ambientes extremos, animais podem dividir espaço, usar o corpo de outra espécie como abrigo ou transformar um vizinho em meio de transporte. No caso dos anfípodes e das aranhas-do-mar, o próximo passo será descobrir se a carona é oportunista ou parte regular da vida no abismo.

O estudo foi publicado em 17 de setembro de 2026 na revista Ecology, e novas observações de campo deverão determinar se o comportamento se repete em outras áreas da margem chilena e em diferentes populações dos animais.

Com informações de Ecology.

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