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Fêmeas de krill antártico descem a fontes hidrotermais e podem usar o calor para proteger seus ovos

Fêmeas de krill antártico descem a fontes hidrotermais e podem usar o calor para proteger seus ovos
Foto: <i>Communications Biology</i> (2026). DOI: 10.10

Registro inédito perto de vulcões submarinos indica que áreas profundas podem fazer parte da reprodução do crustáceo.

Em vez de permanecer apenas nas águas iluminadas do Oceano Austral, fêmeas adultas de krill antártico foram registradas em enxames junto a chaminés de fontes hidrotermais no fundo do mar. Os animais estavam carregando ovos e foram observados em 2024 nos campos vulcânicos de Hook Ridge e Quest Caldera, em uma descoberta que pode mudar a compreensão sobre os locais usados pela espécie durante a reprodução.

O krill é um pequeno crustáceo parecido com um camarão, mas seu papel ecológico está longe de ser pequeno. Baleias, focas, pinguins, albatrozes e outros animais dependem dele direta ou indiretamente. A espécie também participa da reciclagem de nutrientes e do transporte de carbono para as camadas profundas do oceano.

Um comportamento registrado no fundo do oceano

A descoberta ocorreu durante expedições com um veículo operado remotamente, conhecido pela sigla ROV. O equipamento permitiu filmar as áreas de emissão de água quente e capturar alguns exemplares sem a necessidade de mergulhadores.

Em Hook Ridge, os quatro krills recolhidos eram fêmeas maduras, recentemente acasaladas e com ovos. Durante quase nove horas de observação, as câmeras também registraram outras fêmeas grávidas ao redor das estruturas hidrotermais, sem identificar machos naquele período.

Em Quest Caldera, a equipe encontrou novamente muitas fêmeas carregando ovos. As imagens mostraram concentrações densas de krill próximas a uma área de atividade hidrotermal. Para comparação, os pesquisadores coletaram animais em uma região do Antarctic Sound sem fontes hidrotermais. Nesse segundo local havia juvenis, machos e fêmeas, uma composição mais variada.

O que os pesquisadores encontraram nos animais

A equipe não se baseou apenas nas imagens. Os exemplares de Hook Ridge foram comparados com o grupo de referência por meio da análise dos microrganismos presentes no intestino, das assinaturas químicas dos tecidos e da quantidade de metais acumulados no organismo.

Os microrganismos identificados no intestino incluíam grupos associados a ambientes hidrotermais. Esse resultado indica que as fêmeas haviam consumido recentemente micróbios produzidos por processos químicos do próprio sistema vulcânico, em vez de depender exclusivamente de algas que vivem na superfície.

A composição química dos tecidos também apontou exposição repetida à água rica em minerais liberada pelas fontes. Esses dados não provam que as fêmeas permaneçam todo o tempo nesses locais, mas reforçam a hipótese de que elas visitam as profundezas e utilizam recursos disponíveis junto às chaminés.

Por que o calor pode ser útil para ovos

Fontes hidrotermais são conhecidas por lançar água aquecida e carregada de compostos minerais no fundo do mar. Apesar das temperaturas extremas que podem existir no centro dessas estruturas, os autores avaliam que as áreas ao redor podem apresentar condições compatíveis com a tolerância térmica do krill antártico e de seus embriões.

Fêmeas de krill antártico descem a fontes hidrotermais e podem usar o calor para proteger seus ovos
Foto: <i>Communications Biology</i> (2026). DOI: 10.10

Uma temperatura um pouco mais elevada, dentro do limite suportado pelos animais, poderia acelerar o desenvolvimento dos ovos. O estudo também lembra que outros organismos marinhos usam ambientes aquecidos para incubação, como algumas espécies de polvo. No caso do krill, porém, essa possibilidade ainda não foi testada diretamente.

As fontes também oferecem zinco, manganês e outros elementos importantes para o metabolismo. Além disso, comunidades de microrganismos que vivem sem luz solar podem complementar a dieta baseada em fitoplâncton. Esses micróbios produzem compostos que, segundo os pesquisadores, podem fornecer lipídios envolvidos na formação das membranas dos ovários e dos embriões.

Segundo a revista Communications Biology, fêmeas grávidas de krill antártico foram observadas em Hook Ridge e Quest Caldera, no Oceano Austral, durante expedições analisadas no estudo publicado em 17 de setembro de 2026.

A dúvida central ainda não foi respondida

O registro não revela se os ovos são liberados no fundo do mar ou se as fêmeas retornam às águas próximas da superfície para desovar. As duas possibilidades exigiriam deslocamentos verticais consideráveis durante uma fase em que a energia dos animais está concentrada na reprodução.

Essa migração tem custo metabólico. Por isso, os autores levantam a hipótese de que as fontes hidrotermais ofereçam alguma vantagem capaz de compensar o esforço, seja por meio de alimento, calor, minerais ou condições favoráveis ao desenvolvimento embrionário. A pesquisa sugere uma explicação, mas não demonstra qual desses fatores seria decisivo.

Uma espécie essencial sob pressão

O krill antártico pode representar cerca de meio bilhão de toneladas de biomassa, uma das maiores concentrações atribuídas a uma espécie animal selvagem. Aproximadamente um terço desse volume está entre a Península Antártica e o Mar de Scotia, área que está entre as regiões de aquecimento mais rápido do planeta.

A pesca comercial e as mudanças climáticas acrescentam pressão sobre essa população. Como baleias, focas e aves marinhas dependem do crustáceo, qualquer redução significativa pode afetar vários níveis da cadeia alimentar. Saber onde ficam os locais usados por fêmeas reprodutivas é, portanto, uma etapa importante para definir áreas prioritárias de conservação.

O alerta também interessa ao debate sobre mineração em águas profundas. A exploração de minerais no leito oceânico pode alterar estruturas hidrotermais e comunidades que ainda são pouco conhecidas. Para quem acompanha a Amazônia, a conexão está no avanço da discussão sobre proteção do oceano profundo e sobre atividades econômicas em áreas marinhas próximas às costas do Pará e do Amapá. O estudo não encontrou krill antártico na região amazônica, mas mostra como habitats distantes da superfície podem ter funções ecológicas que não aparecem em levantamentos comuns.

Os próximos estudos terão de acompanhar o deslocamento das fêmeas, verificar se ocorre desova nas profundezas e medir diretamente a velocidade de desenvolvimento dos embriões perto das fontes hidrotermais.

Com informações de Communications Biology.

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