
No Equador, lideranças apresentaram soluções comunitárias, cobraram poder sobre recursos e levaram o debate amazônico ao Brasil.
Em uma comunidade Kichwa no Equador, a guayusa deixou de ser apenas o chá preparado pelos mais velhos para se tornar uma alternativa de renda ligada à conservação da floresta. A agroindústria criada pela família de Esthela Noteno já envolve 12 famílias e produz de 3 mil a 5 mil garrafas de extrato por mês. A experiência foi um dos exemplos apresentados por mulheres indígenas durante o TEDxAmazônia, realizado entre 27 e 31 de agosto nas cidades de Baños e Puyo.
O encontro ocorreu pela primeira vez fora do Brasil, na região de transição entre os Andes e a Amazônia. Ao longo da programação, lideranças de diferentes povos defenderam que as comunidades não sejam tratadas somente como beneficiárias de projetos ambientais, mas como responsáveis pela criação, execução e fiscalização das políticas destinadas à floresta.
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Cerâmicas arqueológicas de Santarém aparecem em quatro cidades, duas delas fora do Brasil, e a dispersão reabre o debate sobre acesso localSegundo a organização do TEDxAmazônia, o evento reuniu 30 palestrantes indígenas e não indígenas no Equador entre 27 e 31 de agosto de 2026. A próxima edição está prevista para junho de 2027, em Belém, no Pará.
De chá tradicional a negócio comunitário
Esthela contou que cresceu em uma área de Sucumbíos marcada pela abundância de recursos naturais. Com o tempo, porém, a contaminação ambiental associada principalmente à atividade petroleira reduziu essa disponibilidade e agravou a pobreza local. Sem serviços básicos e alternativas de trabalho, moradores arrendaram terras para empresas agrícolas que cultivavam taro, um tubérculo estrangeiro da família do inhame.
A escolha, segundo ela, não representava rejeição ao território. Era uma resposta à falta de renda para sustentar as famílias. O resultado, contudo, foi mais pressão sobre a biodiversidade e sobre os modos tradicionais de uso da terra.
A mudança começou durante a pandemia de covid-19, quando Esthela passou a observar novamente o papel da guayusa na própria família. O pai preparava a bebida e explicava suas propriedades antioxidantes e reequilibrantes. As chamadas guayusadas reuniam idosos para compartilhar conhecimentos, sonhos e ensinamentos sobre a relação com a terra.
As folhas utilizadas na produção são compradas de outras mulheres indígenas, que cultivam a planta em sistemas agroflorestais com mais de 150 espécies nativas. A escala cresceu de 150 garrafas no início para até 5 mil unidades mensais, mas o caminho incluiu dificuldades para obter apoio público, compreender as normas sanitárias e registrar os produtos.
“A guayusa representa o espírito da mulher, por isso respeitamos a sabedoria delas. Tendo um mercado justo para a guayusa, elas têm um incentivo real para manter a floresta em pé”, afirmou Esthela Noteno.
Direito da natureza precisa sair do papel
A experiência econômica foi apresentada ao lado de uma reivindicação jurídica e política mais ampla. Para Patricia Gualinga, líder Kichwa e integrante do Fórum Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas, a natureza deve ser reconhecida como sujeito de direitos, e não como uma fonte passiva de matérias-primas.
Ela usou a expressão “selva viva” para descrever uma floresta com memória, alma e direitos próprios. A proposta tem um precedente no país que sediou o evento. Em 2008, o Equador se tornou o primeiro país a incluir em sua Constituição direitos equivalentes para a natureza. Em 2024, esse entendimento foi aplicado para proibir a mineração na Floresta Los Cedros.
Outras decisões reconheceram direitos de corpos d’água, como o Rio Atrato, na Colômbia, e o Rio Maranhão, no Peru. Patricia defendeu, porém, que a proteção avance de pontos isolados, como rios e florestas específicas, para territórios inteiros.

O reconhecimento legal, na avaliação da liderança, não resolve sozinho os danos ambientais. “Uma constituição não vai regenerar por si mesma uma floresta, uma sentença não vai sanear um rio. Nós precisamos de políticas públicas, de transformações profundas na economia global, de instituições firmes”, disse.
Financiamento climático ainda decide de cima para baixo
O controle sobre os recursos foi outro eixo das falas. Diana Chavez, diretora de Comunas, Povos e Nacionalidades do Fundo do Biocorredor Amazônico, afirmou que a participação indígena não pode se limitar a consultas ou reuniões depois que os projetos já foram desenhados.
Ela citou o caso de um fundo equatoriano abastecido por receitas da mineração e do petróleo. Embora tenha sido criado há seis anos para apoiar povos indígenas, o mecanismo ainda não permite acesso direto das comunidades aos recursos, segundo Diana. Entre os obstáculos mencionados estão a burocracia, as exigências excessivas e as mudanças administrativas e normativas.
“A consulta te coloca na sala de espera, a governança te coloca na mesa de decisão”, afirmou Diana Chavez.
A reivindicação ganha dimensão internacional porque, de acordo com a diretora, menos de 1% do financiamento global destinado ao controle das mudanças climáticas chega diretamente aos povos indígenas. A defesa apresentada no evento foi por mecanismos desenhados com as comunidades, com menos barreiras e participação indígena na definição dos gastos.
Violência e proteção caminham juntas
O protagonismo defendido pelas palestrantes também está ligado ao risco enfrentado por quem protege os territórios. Na abertura do encontro, o líder Shuar Domingos Peas pediu um minuto de silêncio em memória de defensoras e defensores da natureza assassinados em razão de seu trabalho.
O relatório mais recente da organização Global Witness, citado durante o evento, aponta a América Latina como o continente onde mais defensores ambientais são mortos. Líderes indígenas aparecem entre os grupos mais atingidos.
O encerramento foi conduzido por 13 mulheres indígenas de diferentes povos amazônicos. A anciã Shuar Catalina Chumpi pediu às águas das cachoeiras que fortalecessem suas “netas” na defesa dos territórios. O manifesto final reivindicou proteção aos corpos e às terras indígenas.
A discussão tem impacto direto no Brasil, especialmente porque Belém será a sede da próxima edição do TEDxAmazônia. A escolha aproxima o debate das comunidades amazônicas brasileiras e ocorre em uma região onde a proteção territorial, o financiamento climático e a participação de povos indígenas também estão no centro das decisões sobre o futuro da floresta.
Uma Amazônia que atravessa fronteiras
A realização do encontro no Equador reforçou uma definição geográfica que costuma ficar fora do debate público. Segundo a coorganizadora Verônica Reed, 40% do território amazônico está distribuído por oito países fora do Brasil. Para ela, a floresta começa nos glaciares andinos, que alimentam os rios, e não nas fronteiras políticas criadas posteriormente.
Essa conexão ajuda a entender por que uma planta cultivada no Equador, uma decisão constitucional sobre a natureza e a proteção de territórios indígenas fazem parte da mesma conversa. A conservação depende de renda, direitos, instituições e segurança para quem vive na região.
O organizador Rodrigo Cunha classificou o momento como urgente, diante do aumento das emissões de carbono e da violência contra povos indígenas. O revezamento entre países deve continuar, com Belém recebendo a edição de junho de 2027 e o Equador com expectativa de sediar o evento novamente em 2028.
Com informações de Agência Brasil.
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