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Polvo pega carona nas costas de golfinho e coincide com…

Polvos dormem em dois estados e podem ter sonhos de segundos, revela estudo feito no litoral do Brasil

Polvos dormem em dois estados e podem ter sonhos de segundos, revela estudo feito no litoral do Brasil
Foto: Alexandra Schnell

Mudanças de cor, movimentos dos olhos e contrações dos braços indicam uma fase de sono parecida com o REM.

Por alguns segundos, a pele de um polvo adormecido pode mudar de cor, os braços podem se contrair e os olhos podem se mover. A cena parece uma versão submarina de um sonho, mas foi justamente essa possibilidade que pesquisadores investigaram ao acompanhar quatro polvos selvagens da espécie Octopus insularis em laboratório no Brasil, em um estudo publicado em 2021.

Os animais foram coletados em águas tropicais do norte brasileiro e observados pela equipe liderada pela neurocientista Sylvia Medeiros, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O resultado não prova que os polvos sonham, porque eles não podem relatar o que acontece durante o sono. Ainda assim, revelou um padrão organizado, com duas fases que se alternam em ciclos.

Quando a pele muda, o polvo não está necessariamente acordado

A maior parte do descanso ocorreu em um estado chamado sono quieto. Nessa fase, os polvos permaneciam praticamente imóveis, com a pele clara e os olhos reduzidos a fendas fechadas. O corpo apresentava pouca reação, uma imagem bem diferente da atividade intensa pela qual esses moluscos são conhecidos.

Depois de períodos geralmente superiores a seis minutos nesse estado, surgiam episódios curtos de sono ativo. A pele mudava de cor e textura, os olhos apresentavam movimentos rápidos, as ventosas dos braços se contraíam e pequenos músculos do corpo se mexiam. Os dois estados voltavam a aparecer em sequência, em intervalos de aproximadamente 30 a 40 minutos.

Segundo o estudo publicado em 2021, polvos da espécie Octopus insularis alternam períodos de sono quieto e sono ativo, com mudanças de cor e movimentos corporais concentrados na segunda fase.

Os testes indicaram que os animais estavam dormindo

Para separar o sono de uma simples pausa ou de uma reação discreta ao ambiente, os pesquisadores mediram quanto estímulo era necessário para despertar os animais. Em alguns testes, um caranguejo vivo aparecia em uma tela. Em outros, a parede do aquário recebia batidas feitas com um martelo de borracha, produzindo vibrações na água.

Quando estavam em estado de alerta, os polvos reagiam aos estímulos. Durante os períodos de descanso, porém, respondiam pouco ou não respondiam. Essa diferença reforçou a interpretação de que os animais estavam realmente dormindo, e não apenas parados enquanto monitoravam o ambiente.

A pesquisa ajuda a interpretar um vídeo que se tornou viral alguns anos atrás. Nas imagens, uma polvo chamada Heidi muda rapidamente de branco para amarelo, depois para um tom vinho e, em seguida, para um padrão manchado. A narração sugeria que ela poderia estar caçando um caranguejo em um sonho. O novo estudo não confirma essa história, mas mostra que transformações semelhantes podem ocorrer durante uma fase específica do sono.

Um possível sonho que dura menos que um vídeo curto

Em seres humanos, os sonhos mais vívidos costumam ser associados ao sono REM, período marcado por movimentos rápidos dos olhos, alterações nos batimentos cardíacos e respiração irregular. A fase ativa dos polvos guarda algumas semelhanças, embora tenha uma duração muito menor, de poucos segundos a cerca de um minuto.

Por isso, caso os polvos realmente sonhem, a experiência provavelmente não teria uma narrativa longa, com cenas encadeadas como nos sonhos humanos. Seria mais parecida com uma imagem rápida, um lampejo ou um pequeno trecho de vídeo. A comparação é uma hipótese baseada no comportamento observado, não uma conclusão comprovada.

O interesse científico está justamente nessa distância evolutiva. Polvos e vertebrados seguiram caminhos separados há mais de 550 milhões de anos. O ancestral comum entre os dois grupos tinha um sistema nervoso simples, semelhante ao de um verme achatado. Mesmo assim, os padrões de sono apresentam características parecidas.

O que o sono dos polvos revela sobre a evolução

Durante muito tempo, estados de sono bem definidos foram associados principalmente a mamíferos e aves. Evidências posteriores também apareceram em répteis, peixes e sépias, parentes dos polvos. A presença de uma fase ativa em animais tão diferentes pode indicar que mecanismos semelhantes evoluíram de forma independente, em um processo conhecido como evolução convergente.

Uma das teorias sobre o sono REM em mamíferos relaciona essa fase ao controle da temperatura corporal. Essa explicação se torna menos suficiente quando o mesmo tipo de padrão aparece em animais que não regulam internamente a temperatura, como peixes, répteis e cefalópodes.

Outra possibilidade é que o sono esteja ligado à memória e ao aprendizado. Polvos conseguem aprender com experiências, reconhecer situações e ajustar seu comportamento. Ainda não se sabe se o sono ativo contribui para consolidar essas informações, mas a hipótese abre uma nova frente para estudar a inteligência desses animais.

Por que a descoberta importa para a Amazônia

O estudo foi realizado no litoral do norte do Brasil, uma área tropical que também ajuda a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha brasileira. Para a Amazônia, a discussão tem conexão direta com a necessidade de compreender melhor os animais costeiros do Amapá, Pará e Maranhão, estados da Amazônia Legal que fazem parte da faixa litorânea do país.

A região amazônica é frequentemente associada apenas à floresta e aos rios, mas sua biodiversidade também inclui ambientes estuarinos e marinhos. Pesquisas sobre comportamento, descanso e aprendizagem ajudam a estabelecer referências para observar como os animais respondem a mudanças no habitat, à pesca e à alteração das condições ambientais.

Isso não significa que o estudo tenha demonstrado a existência de sonhos em polvos da costa amazônica. A pesquisa analisou quatro indivíduos de O. insularis e apontou um padrão que ainda precisa ser comparado com outras espécies, populações e condições naturais.

O próximo passo é observar o cérebro durante o sono

Nos seres humanos, cientistas usam ondas cerebrais e imagens do cérebro para identificar regiões ativadas durante os sonhos. Técnicas semelhantes podem, no futuro, ser adaptadas para acompanhar a atividade cerebral de polvos adormecidos e verificar se a fase ativa envolve processamento de memórias ou outras tarefas.

Até que esses testes sejam realizados, a conclusão mais segura é que os polvos têm dois estados de sono claramente distinguíveis e que um deles produz comportamentos semelhantes a sinais associados aos sonhos em vertebrados. Novos estudos deverão investigar se esses episódios são apenas reflexos corporais ou se representam uma atividade mental mais complexa.

Com informações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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