
Mudanças de cor, movimentos dos olhos e contrações dos braços indicam uma fase de sono parecida com o REM.
Por alguns segundos, a pele de um polvo adormecido pode mudar de cor, os braços podem se contrair e os olhos podem se mover. A cena parece uma versão submarina de um sonho, mas foi justamente essa possibilidade que pesquisadores investigaram ao acompanhar quatro polvos selvagens da espécie Octopus insularis em laboratório, em Natal (RN), em um estudo publicado em 2021 na revista iScience.
Os animais, um macho e três fêmeas com pesos entre 155 e 535 gramas, foram coletados na Praia de Búzios, no litoral do Rio Grande do Norte, e observados por pesquisadores do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A primeira autora do artigo é Sylvia Medeiros, e o neurocientista Sidarta Ribeiro é o autor correspondente. Cada polvo foi filmado durante o período de luz por quatro dias. O resultado não prova que os polvos sonham, porque eles não podem relatar o que acontece durante o sono. Ainda assim, revelou um padrão organizado, com duas fases que se alternam em ciclos.
Quando a pele muda, o polvo não está necessariamente acordado
A maior parte do descanso ocorreu em um estado chamado sono quieto. Nessa fase, os polvos permaneciam praticamente imóveis, com a pele clara e uniforme e as pupilas reduzidas a fendas fechadas. O corpo apresentava pouca reação, uma imagem bem diferente da atividade intensa pela qual esses moluscos são conhecidos. Os episódios de sono quieto duraram, em mediana, cerca de 415 segundos, ou quase sete minutos.
Depois de períodos geralmente superiores a seis minutos nesse estado, surgiam episódios curtos de sono ativo, com mediana de cerca de 41 segundos. A pele mudava de cor e textura, os olhos apresentavam movimentos rápidos, as ventosas dos braços e o manto se contraíam e a respiração se acelerava. O sono ativo se repetia de forma periódica: em 60% dos casos, o intervalo entre dois episódios ficou entre 26 e 39 minutos, e 82% das transições para o sono ativo ocorreram a partir do sono quieto.
Segundo o estudo publicado em 2021, polvos da espécie Octopus insularis alternam períodos de sono quieto e sono ativo, com mudanças de cor e movimentos corporais concentrados na segunda fase.
Os testes indicaram que os animais estavam dormindo
Para separar o sono de uma simples pausa ou de uma reação discreta ao ambiente, os pesquisadores mediram quanto estímulo era necessário para despertar os animais. Em alguns testes, um vídeo com caranguejos vivos em movimento era exibido em uma tela por 50 segundos. Em outros, um martelo de borracha batia na parede do aquário com quatro intensidades crescentes, produzindo vibrações na água. Os estímulos eram leves, próximos do limite de percepção, para permitir comparar os estados.
Quando estavam em estado de alerta, os polvos reagiam aos estímulos. A resposta diminuiu de forma gradual do estado de alerta para a postura de repouso, depois para o sono quieto e, por fim, para o sono ativo, quando foi mais difícil provocar qualquer reação. Essa diferença reforçou a interpretação de que os animais estavam realmente dormindo, e não apenas parados enquanto monitoravam o ambiente.
A pesquisa ajuda a interpretar um vídeo que se tornou viral em 2019, exibido no documentário Octopus: Making Contact, da série Nature, da emissora americana PBS. Nas imagens, uma fêmea de polvo chamada Heidi muda rapidamente de cor enquanto dorme. O biólogo David Scheel, que cuidava do animal, sugeriu que ela poderia estar sonhando com a captura de um caranguejo, uma interpretação que não pode ser comprovada. O estudo da UFRN não confirma essa história, mas mostra que transformações semelhantes de cor ocorrem durante uma fase específica do sono dos polvos.
Um possível sonho que dura menos que um vídeo curto
Em seres humanos, os sonhos mais vívidos costumam ser associados ao sono REM, período marcado por movimentos rápidos dos olhos, alterações nos batimentos cardíacos e respiração irregular. A fase ativa dos polvos guarda algumas semelhanças, embora tenha uma duração muito menor, de poucos segundos a cerca de um minuto.
Por isso, caso os polvos realmente sonhem, a experiência provavelmente não teria uma narrativa longa, com cenas encadeadas como nos sonhos humanos. Seria mais parecida com uma imagem rápida, um lampejo ou um pequeno trecho de vídeo. A comparação é uma hipótese baseada no comportamento observado, não uma conclusão comprovada.
O interesse científico está justamente nessa distância evolutiva. Segundo os autores, polvos e vertebrados seguiram caminhos separados há mais de 500 milhões de anos, e o cérebro dos cefalópodes tem estruturas próprias, diferentes das dos vertebrados. Mesmo assim, os padrões de sono apresentam características parecidas.
O que o sono dos polvos revela sobre a evolução
Durante muito tempo, estados de sono bem definidos foram associados principalmente a mamíferos e aves. Depois, apareceram evidências também em répteis, como o dragão-barbudo, e em sépias, parentes dos polvos, que apresentam um estado de sono semelhante ao REM com ciclos de cerca de 36 minutos. Como cefalópodes e vertebrados se separaram há tanto tempo, os autores do estudo da UFRN consideram que a semelhança entre o sono ativo dos polvos e o de animais como mamíferos e aves é analógica, e não herdada de um ancestral comum, e apontam evolução convergente como explicação provável.
Os pesquisadores observaram ainda que um dos polvos, a fêmea mais pesada e provavelmente a mais madura do grupo, teve intervalos entre os episódios de sono ativo um pouco diferentes dos demais. Como a temperatura da água foi mantida igual para todos os animais, o grupo levanta a possibilidade de que o ciclo de sono mude com a idade, hipótese que precisa ser testada.
Outra possibilidade é que o sono esteja ligado à memória e ao aprendizado. Polvos conseguem aprender com experiências, reconhecer situações e ajustar seu comportamento, e o cérebro dos cefalópodes tem uma estrutura, o lobo vertical, ligada à memória de longo prazo. Ainda não se sabe se o sono ativo contribui para consolidar essas informações, mas a hipótese abre uma nova frente para estudar a inteligência desses animais.
Por que a descoberta importa para o Brasil
O Octopus insularis é, segundo estudo de Allan Batista e Tatiana Leite publicado em 2016 no Brazilian Journal of Oceanography, o polvo dominante nas águas rasas tropicais da costa e das ilhas oceânicas do Norte e do Nordeste do Brasil. O mesmo trabalho aponta a espécie como um recurso pesqueiro importante nos estados do Nordeste, onde funciona como fonte alternativa de renda para pescadores artesanais, especialmente durante o período de defeso da lagosta.
Entender como um animal desse tipo descansa é, antes de tudo, conhecimento de biologia básica sobre uma espécie brasileira de valor econômico. O estudo mostrou que o repouso do O. insularis não é uma pausa uniforme, e sim um ciclo com fases distintas.
Isso não significa que a pesquisa tenha demonstrado a existência de sonhos em polvos, nem que tenha analisado animais da costa amazônica. Todos os indivíduos vieram do litoral potiguar, e a pesquisa analisou apenas quatro polvos, o que deixa em aberto a comparação com outras populações, outras espécies e condições naturais.
O cérebro durante o sono já começou a ser observado
Nos seres humanos, cientistas usam ondas cerebrais e imagens do cérebro para identificar o que ocorre durante os sonhos. Em 2023, pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST), no Japão, e da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, registraram a atividade elétrica do cérebro de polvos adormecidos de outra espécie, Octopus laqueus, em estudo publicado na revista Nature. Eles constataram que, durante a fase ativa do sono, o padrão cerebral se assemelha ao da vigília, um resultado compatível com a ideia de um estágio parecido com o sono REM.
Mesmo assim, a conclusão mais segura é que os polvos têm dois estados de sono claramente distinguíveis e que um deles produz comportamentos semelhantes a sinais associados aos sonhos em vertebrados. Novos estudos deverão investigar se esses episódios são apenas reflexos corporais ou se representam uma atividade mental mais complexa.
Com informações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da revista iScience e da revista Nature.
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