
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas e um dos predadores mais icônicos da Amazônia. Um estudo publicado em 2025 na revista Biological Conservation, liderado por pesquisadores de várias instituições incluindo o Instituto Mamirauá e a Panthera, usou dados de câmeras-trampa de 22 áreas protegidas e terras indígenas em quatro países amazônicos (Brasil, Peru, Equador e Colômbia) para estimar densidades e o tamanho populacional nessas áreas.
O resultado: uma estimativa combinada de 6.389 onças (intervalo de confiança 4.664–7.986) apenas nas 22 áreas amostradas. A densidade média foi de 3,08 indivíduos por 100 km², mas a variação foi enorme: de 0,60 na Reserva Biológica do Cuieiras (baixo Rio Negro) até 9,97 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, nas várzeas do Rio Amazonas. As maiores densidades estão associadas a regiões de alta produtividade primária e, de forma recorrente, a territórios indígenas e áreas de várzea bem preservadas.
Densidades e a importância das terras indígenas
O estudo usou modelos de captura-recaptura espacial multi-sessão a partir de 389 indivíduos identificados individualmente pelas manchas. As densidades mais altas ocorreram em áreas com maior produtividade e menor pressão humana. Especialistas como Ronaldo Morato (IUCN Cat Specialist Group e Panthera Brasil) destacam que metade da população de onças da Amazônia e as principais áreas prioritárias para conservação estão em terras indígenas.
Leia também
Uma esponja de água doce reapareceu 30 anos depois sobre uma samambaia guardada em herbário e revelou que a planta havia passado semanas submersa
Um morcego chamado de “sem polegar” passou dez anos sendo observado em 100 cavernas de ferro e revelou um calendário reprodutivo fora do esperado
Antas engoliram sementes em uma área degradada da Amazônia e devolveram ao solo plantas que germinaram mais rápido do que as preparadas à mãoOito das dez áreas de maior prioridade para a conservação da onça no Brasil amazônico são terras indígenas (Arariboia, Apyterewa, Cachoeira Seca, Kayapó, Marãiwatsédé, Uru-Eu-Wau-Wau, Xingu e Yanomami). Densidades mais altas em TIs se devem a menores taxas de desmatamento e maior conectividade ecológica.
Métodos e escala do estudo
Mais de 20 cientistas e instituições colaboraram. Câmeras-trampa registraram os animais ao longo de vários anos. Cada onça foi identificada pelo padrão único de suas pintas. Os modelos estatísticos permitiram estimativas robustas de densidade e de tamanho populacional por área. A RDS Mamirauá se destacou com quase 10 indivíduos por 100 km² – um dos valores mais altos já registrados para a espécie em floresta tropical.
Implicações para o Brasil e a conservação
No Brasil, que abriga a maior parte da população de onças da Amazônia, o estudo reforça a importância estratégica das terras indígenas e unidades de conservação. Proteger essas áreas não é apenas uma questão de direitos territoriais: é a principal estratégia para manter a maior população de onças do planeta. A perda de habitat e a caça retaliatória continuam sendo ameaças, especialmente fora das áreas protegidas.
O trabalho também mostra que a onça serve como espécie-guarda-chuva: áreas com densidades altas de onças tendem a manter comunidades de presas e outros predadores em melhor estado. No contexto brasileiro, os dados apoiam políticas de demarcação, fiscalização e gestão participativa de TIs e reservas.
Limitações e próximos passos
As estimativas se referem apenas às 22 áreas amostradas. A população total da Amazônia é maior. Variações sazonais e diferenças entre terra firme e várzea ainda precisam de mais estudos. Ainda assim, o trabalho de 2025 preenche uma lacuna importante e coloca as terras indígenas no centro da estratégia de conservação da onça-pintada.
A Amazônia brasileira continua sendo o principal reduto da espécie. Manter densidades altas de onças em terras indígenas e áreas protegidas é proteger não apenas um animal emblemático, mas a integridade de ecossistemas inteiros e o patrimônio natural do Brasil.
Fonte: Alvarenga, G.C. et al. Jaguar (Panthera onca) density and population size across protected areas and indigenous lands in the Amazon biome, its largest stronghold. Biological Conservation, 2025. DOI: 10.1016/j.biocon.2025.111010.
Cães alteram rotina de onças-pardas em áreas de proteção em SP
Cães soltos fazem onças-pardas mudarem de caminho e revelam um problema que começa fora da mata
Onça-pintada usa mordida no crânio e entre vértebras para abater presas, inclusive jacarés e tartarugasGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














