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Ele perdeu quase toda a coleção amazônica em um navio…

O engenheiro que aprendeu nheengatu criou o primeiro museu botânico da Amazônia e percebeu que os nomes indígenas também guardavam ciência

Quando João Barbosa Rodrigues chegou à Amazônia, ele não era conhecido principalmente como botânico.

Tinha formação ligada à engenharia e ao desenho, mas desenvolveu uma curiosidade capaz de atravessar diferentes campos. Estudou plantas, animais, fósseis, sítios arqueológicos, idiomas e costumes.

Entre 1872 e 1875, participou da chamada Comissão do Amazonas.

O trabalho deveria produzir informações sobre a fauna, a flora, a geografia e as populações da região.

A experiência transformou sua carreira.

Um museu criado para estudar a floresta

Em 16 de fevereiro de 1884, Barbosa Rodrigues inaugurou, em Manaus, o Museu Botânico do Amazonas.

Foi o primeiro museu botânico da região.

A instituição pretendia estudar a flora amazônica de maneira botânica e química, além de divulgar possíveis produtos derivados das plantas.

A proposta refletia o espírito científico e econômico do século XIX. Conhecer uma espécie também significava avaliar sua madeira, fibra, resina, semente, óleo ou aplicação medicinal.

O museu foi criado sob o patrocínio da princesa Isabel, mas teve vida curta. Após a Proclamação da República, perdeu apoio e acabou extinto.

Parte da biblioteca particular de Barbosa Rodrigues seria posteriormente incorporada ao acervo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

O museu desapareceu, mas a ideia permaneceu: a Amazônia precisava de instituições instaladas na própria região, capazes de estudar suas coleções sem depender exclusivamente do envio de materiais para o exterior.

A ciência escondida dentro dos nomes

Durante suas expedições, Barbosa Rodrigues aprendeu nheengatu, uma língua de ampla circulação histórica na Amazônia.

Esse aprendizado influenciou sua maneira de observar as plantas.

Em 1905, publicou Mbaé Kaá: o que tem na mata, obra dedicada à nomenclatura botânica indígena.

O livro apresentava um argumento ousado para seu tempo. Os nomes indígenas não eram rótulos improvisados.

Muitos expressavam características da planta, do ambiente, do uso ou da relação com outros organismos.

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Ao registrar esses termos, Barbosa Rodrigues procurava demonstrar que as populações indígenas possuíam formas próprias de classificação.

Uma palavra podia indicar textura, cor, formato, habitat, sabor ou propriedade medicinal.

A língua funcionava como uma coleção de observações acumuladas.

Entre o reconhecimento e a apropriação

Ler esse trabalho atualmente exige cuidado.

Barbosa Rodrigues valorizou conhecimentos que muitos cientistas de seu período desprezavam. Entretanto, continuava inserido em uma estrutura que frequentemente retirava informações de comunidades indígenas e as transformava em obras assinadas por pesquisadores.

Os nomes, usos e classificações não haviam sido criados por ele.

Seu mérito estava em perceber que aquele sistema merecia atenção científica. A limitação estava em uma época que raramente registrava com precisão quem fornecia cada informação ou garantia participação às comunidades na autoria e nos benefícios.

Essa tensão ajuda a compreender a história da ciência amazônica.

Muitas obras importantes foram construídas com conhecimentos indígenas, mesmo quando os indígenas apareciam apenas como informantes anônimos.

Das palmeiras à direção do Jardim Botânico

Barbosa Rodrigues também realizou estudos extensos sobre palmeiras e orquídeas.

Posteriormente, tornou-se diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, cargo que ocupou até sua morte, em 1909.

Na instituição, organizou coleções, fortaleceu a biblioteca, ampliou o herbário e publicou trabalhos científicos.

Sua passagem pela Amazônia, entretanto, continuou presente.

A floresta havia mostrado a ele que classificar uma planta não era apenas atribuir um nome em latim. Era compreender uma rede de observações produzida por pessoas que conviviam com aquela espécie.

O museu que desapareceu e a ideia que permaneceu

O Museu Botânico do Amazonas não sobreviveu à mudança de regime político.

Mesmo assim, sua criação representa um momento importante.

Barbosa Rodrigues imaginou uma instituição amazônica dedicada a investigar a floresta, formar coleções e divulgar conhecimento.

Também percebeu que os idiomas indígenas funcionavam como arquivos.

Uma árvore podia ter um nome científico registrado recentemente e outro nome utilizado durante gerações. O segundo não era necessariamente menos preciso.

Em determinadas situações, ele carregava muito mais informações.

O engenheiro que entrou na Amazônia procurando objetos de estudo terminou reconhecendo que uma parte da ciência já estava pronta.

Ela permanecia preservada nas palavras.

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