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Mosaico romano de 1.800 anos revela nomes de gato e cão em vila luxuosa na costa da Turquia

Mosaico romano de 1.800 anos revela nomes de gato e cão em vila luxuosa na costa da Turquia
Foto: Divulgação

Painel encontrado em uma antiga cidade portuária pode guardar pistas sobre a origem e o status do dono da casa.

Quem entrasse na sala principal daquela vila romana talvez encontrasse primeiro um gato sentado sobre uma almofada azul-esverdeada. Do outro lado da entrada, um cão parecia saltar em pleno movimento. Sob cada animal, os arqueólogos encontraram uma inscrição com um nome próprio, um detalhe raro em um mosaico de aproximadamente 1.800 anos descoberto na antiga cidade de Adramytteion, na costa do mar Egeu, na Turquia.

A cena não parece representar apenas uma coleção decorativa de bichos. Para os pesquisadores, o painel pode ter funcionado como uma homenagem aos animais de estimação do proprietário da casa. O gato seria chamado de Esmeralda, enquanto o cão receberia o nome de Oceano. A interpretação ainda é uma hipótese arqueológica, mas ganha força porque os dois são os únicos animais identificados por nomes em toda a composição.

Uma recepção decorada para impressionar visitantes

O mosaico foi localizado no centro do chamado Salão Norte, área de recepção da residência. A sala fazia parte de um complexo de vila construído entre o fim do século 2 e o século 3 depois de Cristo, período em que famílias ricas do mundo romano usavam suas casas para exibir riqueza, cultura e influência.

Com cerca de 5 metros de comprimento por 3,6 metros de largura, o painel era grande o bastante para ser visto por quem chegasse ao ambiente. Sua posição também ajuda a explicar a escolha dos animais. O gato claro aparece à esquerda de quem entrava, sobre uma almofada colorida. O cão, representado correndo ou saltando, ficava à direita.

Segundo estudo a ser publicado no Journal of Mosaic Research, o mosaico foi encontrado nas escavações recentes de Adramytteion, na Turquia, e pertence a uma vila romana datada do fim do século 2 ao século 3 depois de Cristo.

Quinze painéis misturam bichos e figuras mitológicas

A obra é formada por 15 painéis distribuídos em três fileiras. Além do gato e do cão, aparecem aves, peixes, felinos e outros animais. A decoração também inclui elementos associados à mitologia, como uma cabeça de Medusa e uma figura identificada como Pégaso, o cavalo alado.

Os artistas trabalharam com uma paleta variada, que reunia peças vermelhas, laranjas, pretas, brancas, azuis, verdes, amarelas e cor de vinho. Essas pequenas peças, conhecidas como tesselas, formavam imagens coloridas e exigiam planejamento, mão de obra especializada e materiais de alto valor.

Em residências de famílias abastadas, mosaicos desse tipo costumavam aparecer em entradas, salas de recepção e espaços usados para refeições. A mensagem era visual: o dono da casa tinha recursos para encomendar uma obra complexa e conhecimento suficiente para escolher temas reconhecidos no repertório artístico romano.

Por que Esmeralda e Oceano?

As inscrições estão em letras gregas. Sob o gato, aparece “ΖΜΑΡΑΓΔΙΝ”, termo que significa “esmeralda”. Sob o cão, os arqueólogos identificaram “ΩΚΕΑΝΟΣ”, ou Oceano. A presença de nomes próprios transforma os dois animais em personagens particulares, e não apenas em figuras genéricas da decoração.

O nome do cão pode ter relação com a própria história de Adramytteion. A cidade era um antigo porto, e a referência ao oceano talvez tenha sido uma escolha ligada ao ambiente marítimo. Essa explicação, porém, não foi comprovada de forma definitiva.

Já Esmeralda pode apontar para uma conexão mais distante. O repertório visual do mosaico é considerado especialmente comum no Norte da África, e o arqueólogo Hüseyin Murat Özgen avalia que o nome do gato talvez indique uma relação do proprietário com o Egito romano. Na Antiguidade, esmeraldas eram extraídas em áreas egípcias, o que poderia ter dado ao nome um significado geográfico ou afetivo.

O que o mosaico diz sobre a vida privada dos romanos

Registros arqueológicos costumam revelar o poder político, as crenças religiosas e os hábitos públicos de sociedades antigas. Neste caso, o painel oferece uma pista mais íntima. A inscrição sugere que animais domésticos também ocupavam um espaço importante na vida de algumas famílias romanas, a ponto de serem incorporados à decoração de uma sala destinada a receber convidados.

Isso não significa que todos os moradores do Império Romano tratassem cães e gatos como fazemos hoje. A função dos animais variava conforme o contexto. Cães podiam atuar na guarda ou na caça, enquanto gatos ajudavam no controle de pragas. Ainda assim, a escolha de representar dois deles com nomes pode indicar vínculo afetivo, orgulho ou desejo de personalizar a residência.

Também é possível que os nomes tivessem uma função simbólica. Oceano combinaria com uma cidade portuária, e Esmeralda poderia evocar luxo, comércio ou uma ligação familiar com o Egito. O mosaico, portanto, talvez tenha reunido carinho pelos animais e uma mensagem sobre a identidade social do proprietário.

Uma pista sobre as conexões do mundo romano

Adramytteion ficava em uma região de circulação intensa de pessoas, mercadorias e referências culturais. O uso de temas associados ao Norte da África, a presença de inscrições em grego e a possível alusão ao Egito mostram como uma casa local podia reunir influências de diferentes partes do mundo romano.

Esse aspecto também ajuda a aproximar a descoberta do público brasileiro, inclusive dos leitores da Amazônia. Muitas vezes, um achado arqueológico é apresentado apenas como uma imagem antiga, mas o mosaico mostra algo mais amplo: casas, portos e objetos funcionavam como pontos de encontro entre culturas. A decoração de uma residência podia registrar rotas comerciais, migrações, preferências pessoais e a posição econômica de uma família.

Os pesquisadores ainda precisam comparar o painel com outros mosaicos da região para avaliar se os nomes dos animais eram uma prática comum ou uma escolha excepcional daquela vila. A publicação do estudo deve ampliar a análise das inscrições, das imagens e da possível ligação do proprietário com o Norte da África e o Egito romano.

Com informações do Journal of Mosaic Research.

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