
BID Invest aposta em financiamento, infraestrutura e processamento local para ampliar o valor gerado pela mineração.
Extrair cobre, lítio ou grafite já não é suficiente para a América Latina disputar espaço na economia da transição energética. O desafio passou a ser processar esses materiais, criar fornecedores, formar trabalhadores e instalar a infraestrutura necessária para que uma parcela maior da riqueza permaneça na região. Essa é a estratégia apresentada pelo BID Invest em 24 de setembro de 2026, com financiamento e alianças voltados a toda a cadeia mineral.
A mudança interessa diretamente aos países latino-americanos porque a região reúne cerca de 30% das reservas mundiais de minerais críticos. Ao mesmo tempo, boa parte do material ainda sai com baixo nível de transformação. O resultado é uma oportunidade econômica expressiva, mas também uma disputa por investimentos, tecnologia, energia, água, estradas, portos e regras capazes de reduzir riscos sociais e ambientais.
Por que a demanda por minerais está crescendo tão rapidamente?
A eletrificação dos transportes, a expansão das redes elétricas, o armazenamento de energia e a infraestrutura digital exigem volumes maiores de metais e minerais. Segundo o BID Invest, a demanda global por lítio deve triplicar até 2040, enquanto a procura por grafite deve dobrar e a de cobre crescer mais de 25% no mesmo período.
As redes mundiais de transmissão e distribuição de eletricidade também precisarão dobrar de tamanho até 2050. Cobre e alumínio estão entre os materiais necessários para essa expansão. Por isso, a instituição avalia que o movimento não corresponde apenas a um ciclo tradicional de alta e baixa das commodities, mas a uma mudança estrutural na demanda.
Quanto a região pode ganhar ao avançar para o refino?
A Agência Internacional de Energia estima que o desenvolvimento de minerais críticos pode gerar aproximadamente US$ 185 bilhões em valor econômico para a América Latina e o Caribe até 2035. Com uma expansão significativa da capacidade regional de refino, esse montante poderia chegar a cerca de US$ 220 bilhões.
O contraste com a capacidade atual ajuda a dimensionar o problema. Em 2025, a região refinou 26% do cobre que produziu, 10% do cobalto e 7% das terras raras. Todo o grafite refinado foi processado fora da América Latina e do Caribe. A dependência de unidades instaladas em outras partes do mundo reduz a participação local nas etapas mais rentáveis da cadeia.
Além do processamento, há uma carteira estimada entre US$ 75 bilhões e US$ 80 bilhões em projetos de mineração em estágio avançado de desenvolvimento. Para colocá-los em operação, a Agência Internacional de Energia calcula que mineração e refino exigirão mais de US$ 750 bilhões em investimentos até 2040.
Como o BID Invest pretende levar dinheiro até essas etapas?
O BID Invest atua por meio da iniciativa IDB LAC Minerals, que combina financiamento, mobilização de capital privado e apoio técnico a projetos de mineração, metalurgia e infraestrutura. A proposta é reduzir riscos para atrair diferentes financiadores e apoiar empreendimentos desde a extração até atividades de maior valor agregado.
Um exemplo é o financiamento de US$ 700 milhões destinado à POSCO Argentina para ampliar a produção de hidróxido e carbonato de lítio. Os compostos são utilizados na fabricação de baterias. Localizado no Salar del Hombre Muerto, o Projeto Sal de Oro deve gerar aproximadamente 620 empregos permanentes e ampliar a participação argentina em segmentos mais avançados da cadeia do lítio.
Outro caso citado pela instituição está no Salar del Rincón, também na Argentina. O BID Invest participou de um pacote de financiamento de até US$ 1,2 bilhão com a Corporação Financeira Internacional, a Export Finance Australia, o Banco Japonês para a Cooperação Internacional e bancos comerciais. O objetivo é desenvolver e ampliar uma operação integrada de produção de lítio com qualidade para baterias.

O que precisa existir além da mina?
Uma operação mineral depende de estruturas que muitas vezes ficam fora da área de extração. Portos, rodovias, linhas de transmissão, sistemas de abastecimento de água e plantas de dessalinização podem determinar se um projeto será viável. O BID Invest também inclui em sua abordagem reformas regulatórias, qualificação profissional, fornecedores locais e relacionamento com comunidades.
Segundo o BID Invest, a criação de valor mineral na América Latina depende de investimentos que integrem mineração, processamento, infraestrutura e governança desde as primeiras fases dos projetos. A instituição afirma que essa combinação pode melhorar o desempenho ambiental e social, fortalecer cadeias de suprimento locais e ampliar a geração de empregos de qualidade.
Por que o ouro também aparece na estratégia?
A classificação de minerais críticos serve para orientar prioridades de abastecimento, mas não contempla todo o potencial econômico de um depósito. Muitos jazimentos são polimetálicos, ou seja, reúnem diferentes substâncias que podem ser extraídas em conjunto.
O ouro é usado como exemplo dessa visão mais ampla. Embora não esteja nas principais listas de minerais críticos, a América Latina e o Caribe concentram aproximadamente 12% das reservas mundiais do metal. Cada emprego direto na mineração de ouro gera cerca de seis postos adicionais. Quando são considerados também os empregos induzidos, o número se aproxima de dez.
O BID Invest afirma que avalia projetos com base em seus fundamentos econômicos, no desempenho ambiental e social e no potencial de produzir efeitos duradouros, e não apenas pela presença de um mineral em uma lista estratégica. Essa lógica inclui metais associados a tecnologias como semicondutores e placas de circuito.
O que essa agenda significa para a Amazônia?
Os estados amazônicos não são apresentados como sede dos projetos citados, mas a discussão ajuda a entender uma questão central para a região: aumentar a extração sem ampliar a capacidade local de processamento e controle pode manter comunidades próximas das áreas produtoras com uma parcela limitada do valor gerado.
Em qualquer projeto mineral instalado na Amazônia, a infraestrutura, a disponibilidade de água, a energia, a proteção ambiental, a consulta às comunidades e a formação de mão de obra seriam elementos decisivos para medir o benefício regional. A estratégia descrita pelo BID Invest coloca justamente esses fatores ao lado do financiamento da mina, em vez de tratá-los como etapas secundárias.
O debate também é relevante porque a expansão de cadeias minerais pode pressionar territórios sensíveis. Transformar reservas em desenvolvimento duradouro exige que a produção, o refino e a infraestrutura avancem acompanhados de regras claras, fiscalização e participação social. Sem essa combinação, o aumento da demanda internacional pode elevar a atividade econômica sem resolver desigualdades locais.
Qual é o próximo passo para a região?
O BID Invest pretende usar sua presença regional e sua capacidade de reunir parceiros para transformar projetos minerais em operações financiáveis, com maior participação latino-americana nas etapas de processamento e fabricação. A janela de investimento deve permanecer aberta enquanto a eletrificação, a digitalização e a expansão das redes elétricas sustentarem a procura por esses materiais.
A instituição também disponibiliza informações sobre sua atuação na iniciativa IDB LAC Minerals. Dados globais sobre demanda e investimentos podem ser consultados no relatório da Agência Internacional de Energia sobre minerais críticos.
Com informações de BID Invest.
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