
Estudo da Universidade de Melbourne aponta que a desigualdade climática persiste mesmo depois da estabilização das emissões.
Chegar ao net zero não encerrará de imediato a crise climática nos lugares que menos contribuíram para ela. Regiões tropicais, incluindo áreas da Amazônia, podem continuar submetidas a um aquecimento proporcionalmente maior por muitas décadas, mesmo depois de o mundo equilibrar suas emissões de gases de efeito estufa.
A conclusão está em uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Melbourne, na Austrália, e publicada em setembro de 2026 na revista Environmental Research Letters. O trabalho compara projeções climáticas com a riqueza dos países e aponta uma desigualdade persistente entre responsabilidade histórica e exposição ao calor.
O alívio não chegará ao mesmo tempo para todos
O net zero ocorre quando as emissões lançadas na atmosfera são compensadas pela retirada de uma quantidade equivalente de gases de efeito estufa. Isso interrompe o crescimento líquido da concentração de carbono, mas não apaga o que já foi acumulado.
O dióxido de carbono permanece influenciando o sistema climático durante séculos. Por isso, a estabilização das emissões não produz uma queda imediata das temperaturas. O resultado é uma espécie de efeito prolongado, com consequências mais duras em regiões que já enfrentam calor intenso, secas, enchentes e perda de produtividade.
Segundo a Universidade de Melbourne, um estudo publicado em setembro de 2026 na Austrália concluiu que a desigualdade observada no aquecimento atual pode persistir indefinidamente em um cenário próximo do net zero.
“As regiões mais ricas que causaram grande parte do problema não são as mais expostas, inclusive depois do net zero. As regiões que não causaram o aquecimento são as que enfrentam o maior aquecimento”, afirmou Andrew King, pesquisador que liderou o estudo.
Como os pesquisadores chegaram ao resultado
A equipe analisou três conjuntos de experimentos de modelagem climática. As simulações projetaram a evolução das temperaturas em um cenário de emissões líquidas zero e, depois, foram comparadas com dados sobre o Produto Interno Bruto dos países.
O recorte permitiu observar não apenas quanto cada área aquece, mas também quem tem mais recursos para se adaptar. Países ricos, em geral, dispõem de maior capacidade financeira e tecnológica para proteger cidades, redes elétricas, lavouras e sistemas de saúde.
Já regiões tropicais frequentemente enfrentam maior dependência de atividades sensíveis ao clima, como agricultura, pesca e extrativismo. A combinação entre calor persistente, menor renda e infraestrutura limitada amplia o risco social, econômico e ambiental.
O tempo necessário para reverter a diferença
Mesmo em um cenário mais ambicioso, com retirada de dióxido de carbono da atmosfera, a reversão da desigualdade climática pode levar muitas décadas para começar. A velocidade dessa mudança dependerá da quantidade de gases emitida antes de o net zero ser alcançado.
Quanto mais tarde ocorrer a estabilização, maior tende a ser o aquecimento residual. A pesquisa, portanto, não trata apenas do destino climático depois do net zero. Ela reforça que cada ano de emissões elevadas amplia uma conta que continuará sendo paga no futuro.
“Chegar ao net zero mais cedo significa que teremos menos probabilidade de enfrentar esse aquecimento prolongado depois do net zero. Precisamos chegar lá mais cedo para limitar essa desigualdade”, disse King.
O impacto também pode ser ecológico. Ecossistemas tropicais evoluíram em faixas de temperatura relativamente estreitas, segundo o pesquisador, o que pode reduzir sua margem de adaptação. Alguns recifes de coral estão entre os ambientes mais vulneráveis a essa pressão contínua.
Por que o alerta importa para a Amazônia
A Amazônia está inserida na faixa tropical analisada pelo estudo. Para o Brasil e os demais países amazônicos, a conclusão reforça que a redução das emissões globais precisa caminhar junto com adaptação local, proteção florestal e financiamento para comunidades expostas.
Na prática, o aquecimento prolongado pode pressionar rios, florestas, produção de alimentos, saúde pública e infraestrutura urbana. Os efeitos não serão iguais em toda a região. Áreas urbanas densas, comunidades ribeirinhas, povos indígenas e produtores rurais enfrentam riscos diferentes, mas todos dependem de políticas capazes de antecipar extremos climáticos.
A floresta também tem papel central no equilíbrio climático. A perda de vegetação, a degradação e os incêndios podem reduzir serviços ambientais e dificultar a adaptação de ecossistemas que já operam sob estresse. O estudo não apresenta uma projeção específica para cada estado amazônico, mas seu alerta sobre os trópicos alcança diretamente a região.
Clima extremo pode ampliar a apatridia
A pesquisa foi divulgada junto com outro relatório, produzido pela Agência da ONU para Refugiados e pelo Centro Peter McMullin sobre Apatridia, da Universidade de Melbourne. O documento relaciona desastres climáticos, deslocamentos e risco de pessoas perderem o reconhecimento formal de nacionalidade.
Países insulares do Pacífico que perdem território com a elevação do nível do mar aparecem entre os casos de maior preocupação. Incêndios, enchentes e avanço das águas podem destruir documentos, separar famílias e comprometer estruturas administrativas responsáveis pelo registro de cidadania.
O relatório estima que cerca de 4,5 milhões de pessoas sejam atualmente apátridas. O número real pode ser consideravelmente maior, porque pessoas sem nacionalidade costumam ficar fora das estatísticas oficiais.
Entre as medidas recomendadas estão a digitalização de registros de cidadania e a criação de garantias para que crianças possam obter nacionalidade quando ficam sem os pais após um desastre. Para Radha Govil, professora associada da Universidade de Melbourne e coautora do relatório, essas ações podem impedir que o risco se transforme em uma crise ainda maior.
O que ainda está em disputa
O resultado não significa que a transição para emissões líquidas zero seja inútil. Ao contrário, os pesquisadores defendem que ela precisa ocorrer rapidamente e ser acompanhada por mecanismos de adaptação e justiça climática.
A principal questão política será definir quem financia a proteção das regiões mais expostas. Países tropicais podem precisar de recursos para saúde, segurança alimentar, infraestrutura, prevenção de desastres e conservação ambiental durante um período em que os efeitos das emissões passadas continuarão ativos.
Os próximos passos dependem de cortes mais rápidos nas emissões, ampliação da remoção de carbono e cooperação internacional para proteger populações deslocadas e preservar seus registros civis.
Com informações de University of Melbourne e Agência da ONU para Refugiados.
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