
Por anos, a Ilha Zavodovski, um vulcão isolado no extremo sul do Atlântico, nas Ilhas Sandwich do Sul, abrigou a maior colônia de pinguins do planeta. Não abriga mais. Um estudo publicado na revista científica Current Biology mostra que a ilha perdeu mais de 250 mil casais reprodutores entre 2011 e 2025.
A queda se concentrou nos pinguins-de-barbicha, que passaram de cerca de 542 mil casais em 2011 para cerca de 201 mil em 2025, uma redução de quase 63%. O título de maior colônia do mundo passou para a colônia de pinguins-de-adélia do Cabo Adare, no mar de Ross.
Drones, satélites e um algoritmo
Em 2023, seis pesquisadores viajaram até Zavodovski no período de incubação e acamparam na ilha. Sobrevoaram quase todo o território com um drone e produziram milhares de fotografias, cada uma sobreposta à seguinte em 70%. Essas imagens foram combinadas com fotos de satélite feitas a intervalos de cerca de cinco anos entre 2011 e 2025.
Contar centenas de milhares de aves à mão era inviável. A equipe, liderada por Norman Ratcliffe, desenvolveu um algoritmo que processa as imagens e separa as espécies automaticamente: os pinguins-de-barbicha aparecem azulados, com anéis de guano ao redor dos ninhos, enquanto os pinguins-macaroni têm o dorso mais escuro e fazem ninhos mais apertados.
A troca de espécies
Enquanto os pinguins-de-barbicha despencavam, os pinguins-macaroni, típicos de águas subantárticas, cresceram mais de 28% entre 2011 e 2016 e se tornaram a espécie mais abundante da ilha. É a maior mudança na composição de pinguins já registrada em um único ponto da Antártida.
A explicação está na comida. O pinguim-de-barbicha depende quase só do krill antártico, um pequeno crustáceo. O macaroni tem dieta mais variada e consegue buscar alimento mais longe, em correntes mais quentes. Quando o krill diminui, a primeira espécie sofre muito mais.
O culpado é o oceano mais quente
Os pesquisadores também colocaram transmissores de satélite em aves reprodutoras para rastrear onde elas se alimentam e compararam essas áreas com a temperatura do mar e as restrições de pesca. Os dados apontam o aquecimento regional do oceano e a consequente queda do krill como os principais motores do colapso.
O estudo não encontrou evidência de que a erupção vulcânica de 2016 na própria ilha, a pesca de krill, a competição com os macaroni ou com as baleias-jubarte tenham sido a causa principal. Para os autores, Zavodovski pode estar deixando de ser um ambiente antártico e passando a um estado subantártico.
Espécie pode subir na lista de ameaça
A queda é tão forte que, segundo os autores, os pinguins-de-barbicha talvez precisem ser reclassificados globalmente, de pouco preocupante para em perigo. Hoje a espécie ainda é considerada uma das mais numerosas da Antártida, o que ajuda a explicar por que a perda passou despercebida por tanto tempo.
Pinguins como termômetro
Há décadas os cientistas usam pinguins como indicadores da saúde do oceano austral. Mudanças de temperatura, química da água e clima alteram as populações de krill e peixes, que por sua vez afetam as aves. A Antártida não tem população humana permanente, mas sente os efeitos das atividades humanas por meio do aquecimento, do derretimento do gelo e das mudanças no mar.
Perguntas frequentes
Qual é a maior colônia de pinguins do mundo hoje?
Segundo o estudo, a colônia de pinguins-de-adélia do Cabo Adare, no mar de Ross, na Antártida.
Por que os pinguins-de-barbicha estão diminuindo?
Porque dependem quase só do krill, que vem diminuindo com o aquecimento regional do oceano.
Com informações do estudo publicado na Current Biology.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














