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Duas plantas invasoras avançam sobre áreas nativas, e o manejo exige cuidado para não ampliar o dano

Duas plantas invasoras avançam sobre áreas nativas, e o manejo exige cuidado para não ampliar o dano
Foto: André Ganzarolli Martins, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Controle exige retirar espécies trazidas de outros lugares sem ampliar o dano à vegetação que se pretende proteger.

Na Praia Mole, em Florianópolis, o problema pode passar despercebido entre a areia e a vegetação rasteira. Pequenos frutos vermelhos denunciam a presença do aspargo africano, uma planta ornamental que se espalhou pela costa e se mistura às espécies nativas. Retirá-lo, porém, não é simplesmente arrancar um mato: suas raízes e ramos formam emaranhados que dificultam o manejo e podem exigir máquinas ou herbicidas, aumentando o impacto sobre o ambiente protegido.

A espécie é o Asparagus aethiopicus, uma planta originária da África usada no Brasil para ornamentação. Ela integra um conjunto de organismos introduzidos fora de sua área de ocorrência natural que passaram a causar prejuízos à fauna, à flora ou ao funcionamento dos ecossistemas. Quando isso acontece, recebem a classificação de espécies exóticas invasoras.

O trabalho de enfrentar esse processo é conduzido, entre outras iniciativas, pelo Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. Fundado pela engenheira florestal Sílvia Ziller, o instituto atua há cerca de 30 anos com prevenção, manejo e controle de invasões biológicas.

Quando retirar a planta também pode causar dano

O aspargo africano mostra por que o controle exige planejamento. Como cresce sobre a vegetação nativa e ocupa grandes extensões, sua remoção pode levar junto plantas que deveriam ser preservadas. Em áreas mais tomadas, o serviço pode envolver retroescavadeiras ou o uso de muitos litros de herbicida.

Em uma área costeira, essa escolha precisa considerar o conjunto do ecossistema. O remédio pode se tornar pior que o problema quando a retirada compacta o solo, destrói raízes ou elimina espécies nativas. Por isso, voluntários que trabalharam durante um ano e meio na Praia Mole enfrentaram uma tarefa gradual, com identificação e remoção cuidadosa dos exemplares.

“Ele fica todo emaranhado na vegetação nativa, o que é um complicador”, explicou Sílvia Ziller ao descrever o comportamento do aspargo africano.

Esse tipo de manejo funciona como uma limpeza seletiva. A equipe não procura deixar o local sem plantas, mas recuperar espaço para que a vegetação característica da restinga volte a ocupar o terreno. Restinga é o conjunto de formações vegetais que se desenvolve sobre solos arenosos do litoral e cumpre funções como estabilizar dunas e oferecer abrigo para animais.

O pínus transformou uma escolha econômica em problema ecológico

A trajetória de Sílvia com o tema começou durante o mestrado na Universidade Federal do Paraná, entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Ao estudar áreas de campos naturais próximas a florestas de araucária, ela percebeu a presença crescente de árvores do gênero Pinus, originárias do hemisfério Norte.

Os pínus foram introduzidos no Brasil no começo do século 20 pelo valor comercial de sua madeira. Hoje, são utilizados principalmente pela indústria de papel e celulose, na construção civil e na fabricação de móveis. O conflito aparece quando as árvores escapam das áreas de cultivo e avançam sobre ambientes naturais.

O pínus pode acidificar o solo. Isso significa alterar sua composição química e reduzir a disponibilidade de nutrientes para outras plantas. O resultado tende a ser uma vegetação menos diversa, com vantagem para a árvore introduzida em relação às espécies que evoluíram naquele ambiente.

Santa Catarina lidera a produção nacional de pínus, seguida pelo Paraná, segundo os dados mais recentes do setor de florestas plantadas compilados pela Associação Catarinense de Empresas Florestais. Nos campos, matas e dunas do Sul, a retirada dos exemplares que invadem áreas nativas é uma etapa importante da restauração.

Desde 2010, o Instituto Hórus remove pínus das dunas de Florianópolis. Como transportar as toras poderia provocar mais impactos no terreno arenoso, a madeira derrubada permanece no local. A espécie não rebrota depois do corte, o que reduz a possibilidade de novos indivíduos surgirem a partir do tronco.

O problema não se limita às árvores

A amendoeira-da-praia, ou Terminalia catappa, é outro exemplo encontrado em restingas e manguezais de praticamente todo o litoral brasileiro. Sua copa cria sombra intensa e pode impedir o crescimento das plantas nativas. Em consequência, a composição e o equilíbrio do ambiente mudam.

O mesmo princípio vale para animais. O peixe-leão, originário dos oceanos Índico e Pacífico, chegou ao Caribe e depois ao Brasil entre 2014 e 2015. A rota exata não foi esclarecida. A espécie já foi registrada na costa nordestina e, em 2022, um pescador no Ceará sofreu graves problemas de saúde depois de pisar em seus espinhos venenosos.

Segundo o Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, publicado em 2024, há registros de invasões biológicas no Brasil desde 1824. O documento também reúne centenas de espécies com impactos sobre os biomas do país.

A bioinvasão não depende apenas de organismos vindos de outros continentes. Saguis de diferentes regiões brasileiras, levados para fora de seu habitat pelo tráfico de animais silvestres, podem cruzar entre si e ameaçar espécies como o sagui-da-serra-escuro, encontrado em partes do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Por que a pauta também interessa à Amazônia

Na Amazônia, a questão tem relação direta com a proteção de rios, florestas, áreas alagadas, manguezais e ambientes urbanos. Espécies como tilápia, búfalo, rã-touro e o mosquito Aedes aegypti estão entre os exemplos brasileiros de organismos introduzidos ou deslocados que podem gerar impactos ambientais ou sanitários, conforme o contexto.

O desafio regional é especialmente amplo porque a Amazônia reúne ecossistemas conectados por rios e áreas de transição. Uma espécie introduzida em um tanque, uma criação ou um jardim pode escapar e encontrar condições favoráveis para se espalhar. A prevenção, portanto, costuma ser menos custosa e menos agressiva que a tentativa de eliminar uma invasão já estabelecida.

O Brasil aprovou, em 2018, a Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras por meio da Comissão Nacional da Biodiversidade. O marco ajudou a organizar políticas públicas, mas a experiência do Instituto Hórus mostra que a aplicação depende de monitoramento, voluntariado, conhecimento técnico e continuidade.

Uma pesquisa que ajudou a abrir caminho

A tese defendida por Sílvia Ziller na Universidade Federal do Paraná, em 2000, está entre os trabalhos pioneiros sobre contaminações biológicas no país. Na época, o tema ainda encontrava resistência acadêmica e havia pouca bibliografia nacional. Para avançar, a pesquisadora recorreu a especialistas da Nova Zelândia e dos Estados Unidos, onde o estudo de espécies invasoras estava mais desenvolvido.

O Instituto Hórus ajudou a transformar esse conhecimento em ações de campo. A experiência acumulada em dunas, praias e outras áreas naturais também contribuiu para colocar o Brasil em posição de referência regional no debate sobre espécies exóticas invasoras.

A origem desta reportagem está em uma visita à Praia Mole, em Florianópolis, e na apuração publicada pela Mongabay em 19 de setembro de 2026. Os casos apresentados mostram que o controle não termina com o corte ou a retirada: o próximo passo é acompanhar a área para evitar novas ocupações e permitir a recuperação da vegetação nativa.

Com informações de Mongabay.

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