
Fósseis australianos mostram que animais pequenos e grandes resolveram de formas distintas o desafio de comer estruturas duras.
Antes de existirem dinossauros, alguns peixes já precisavam enfrentar um problema que continua central na evolução dos predadores: como aproveitar uma presa protegida por uma carapaça dura. Fósseis encontrados no noroeste da Austrália mostram que os placodermos, peixes blindados que viveram há cerca de 385 milhões de anos, desenvolveram pelo menos duas respostas diferentes para esse desafio.
As espécies menores trituravam o alimento inteiro entre placas largas e achatadas. As maiores, por outro lado, tinham estruturas dentárias mais complexas, capazes de perfurar e romper animais protegidos antes de engolir partes menores. A conclusão vem de um estudo da Flinders University que combinou modelos tridimensionais de fósseis com simulações digitais de mordidas.
Leia também
Caracol registra chuvas de ciclones em concha de 4,5 anos e pode reconstituir tempestades antigas
Três mosquitos recolhidos na floresta da Guiana Francesa pareciam espécies conhecidas até genitália e DNA revelarem linhagens sem nome na Amazônia
Cupins recolhidos na bacia do Juruá tinham soldados de cabeça maior e mandíbulas robustas, e o DNA confirmou uma nova espécie batizada de MapinguaritermesDois tamanhos, duas soluções para a mesma dificuldade
O resultado contraria uma expectativa comum sobre animais que comem alimentos duros. Em muitos grupos atuais, mandíbulas mais fortes aparecem associadas a superfícies amplas, robustas e adaptadas à trituração. Nos placodermos analisados, porém, a resistência da mandíbula apareceu tanto nos animais menores quanto nos maiores, embora os mecanismos de alimentação fossem diferentes.
Nos menores, a presa podia caber inteira na boca. Placas de mordida largas funcionavam como uma prensa, distribuindo a força sobre uma área extensa e esmagando o alimento. Não era necessário cortar a carapaça em pedaços antes da ingestão.
Os maiores encaravam uma situação distinta. O tamanho da presa fazia com que engoli-la inteira fosse impraticável. Por isso, as estruturas de mordida precisavam concentrar a força em pontos específicos, abrir a proteção externa e produzir fragmentos que pudessem ser consumidos.
O que os fósseis revelam sobre a mordida
Placodermos eram vertebrados aquáticos revestidos por placas ósseas. Diferentemente dos seres humanos e de muitos animais atuais, eles não possuíam uma única mandíbula inferior. A estrutura era formada por pares de placas ósseas sustentadas por cartilagem, com superfícies que variavam de áreas achatadas para esmagar a bordas afiadas e formações semelhantes a dentes.
Para testar como essas peças funcionavam, os pesquisadores criaram modelos digitais dos ossos fossilizados. Em seguida, aplicaram simulações de elementos finitos, uma técnica de engenharia que calcula como uma estrutura reage quando recebe força. É o mesmo princípio geral usado para testar pontes, peças de máquinas e componentes submetidos a pressão, mas aplicado aqui à anatomia de animais extintos.
O estudo comparou a resistência das mordidas e a complexidade das superfícies de alimentação em oito espécies. A análise permitiu avaliar não apenas o formato das mandíbulas, mas também a relação entre esse formato e o tipo de presa que cada peixe provavelmente conseguia processar.
Estruturas que lembravam armas de cerco
Nos maiores placodermos examinados, os dentes se organizavam ao longo de uma crista óssea. A disposição concentrava a pressão em uma linha de contato e criava uma ferramenta de perfuração. Os autores compararam o funcionamento dessa estrutura ao de armas medievais usadas contra armaduras, como alabardas e martelos de guerra.
A comparação não significa que os peixes tivessem dentes iguais aos de um predador moderno, nem que suas mandíbulas fossem cópias de armas humanas. A semelhança está no princípio mecânico: uma ponta ou crista estreita transmite força suficiente para romper uma superfície resistente, enquanto uma área larga é mais eficiente para esmagar.
Segundo a Flinders University, oito espécies de placodermos de cerca de 385 milhões de anos foram avaliadas por simulações tridimensionais de mordida em 13 de setembro de 2026, a partir de fósseis do noroeste da Austrália.
O recife Devoniano como laboratório da evolução
Os fósseis vêm de uma antiga região de recifes situada no que hoje é a Austrália Ocidental. Naquele período, conhecido como Devoniano, os oceanos abrigavam uma grande diversidade de peixes. Por isso, a época é frequentemente chamada de “Idade dos Peixes”.
O interesse do estudo vai além da alimentação de um grupo extinto. Ao mostrar que animais de tamanhos diferentes podiam explorar presas duras com ferramentas distintas, a pesquisa ajuda a reconstruir como espécies semelhantes dividiam os recursos disponíveis. Um peixe podia triturar pequenos animais inteiros, enquanto outro quebrava presas maiores em partes.
Essa separação de funções é chamada de especialização ecológica. Em termos simples, significa que organismos que vivem no mesmo ambiente reduzem a competição quando utilizam alimentos, espaços ou horários diferentes. No antigo recife australiano, formatos variados de mandíbula podem ter permitido a coexistência de vários predadores blindados.
Por que essa descoberta interessa à Amazônia
Não há indicação de que os placodermos analisados tenham vivido na Amazônia atual. A conexão com a região está na pergunta mais ampla que o estudo ajuda a responder: como a diversidade de vertebrados se forma quando diferentes espécies ocupam funções distintas nos ecossistemas.
Essa questão também é importante para pesquisadores que estudam os peixes amazônicos e a variedade de formas de alimentação nos rios da região. A Amazônia reúne ambientes com correntes, profundidades, vegetação e tipos de alimento muito diferentes. Comparar estruturas corporais e estratégias alimentares, ainda que entre grupos separados por centenas de milhões de anos, ajuda a entender como a evolução transforma a anatomia em resposta às condições do ambiente.
Os placodermos também ocupam uma posição relevante na história dos vertebrados. A partir de 2013, fósseis do grupo passaram a ser diretamente associados à linhagem evolutiva que conecta os primeiros peixes mandibulados à origem do corpo dos seres humanos. Isso torna cada nova informação sobre suas mandíbulas útil para reconstruir etapas antigas da evolução dos vertebrados.
O que ainda precisa ser investigado
A simulação digital indica como as mandíbulas poderiam suportar forças e quais alimentos eram mecanicamente compatíveis com cada formato. Ela não registra uma refeição observada diretamente e, portanto, não substitui outras evidências, como marcas de mordida, desgaste dos dentes e fósseis de presas encontrados no mesmo ambiente.
Mesmo com essa limitação, a pesquisa amplia a interpretação dos fósseis. Em vez de procurar uma única solução evolutiva para comer alimentos duros, os cientistas encontraram um conjunto de respostas. O tamanho relativo entre predador e presa parece ter sido uma das peças que orientaram essa diferença.
O próximo passo é comparar mais espécies e outros ambientes fossilíferos para saber se o padrão se repetia em diferentes comunidades do Devoniano. Essa continuidade poderá mostrar quando as mandíbulas especializadas surgiram e como influenciaram a ocupação dos antigos recifes.
Com informações de Flinders University.
Gene associado à regeneração do axolote aparece em três espécies e abre investigação inicial sobre terapia genética para regenerar membros
Los tres tipos de lago: el sistema ribereño que protege al pirarucú
Pesquisa mostra que peixes do mar profundo respondem a três pressões com formas variadas e ritmos evolutivos diferentesGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














