Barcos e turistas reduzem sons de peixes em praias de Pernambuco, onde estudo registrou nove tipos e três desapareceram em áreas expostas

Barcos e turistas reduzem sons de peixes em praias de Pernambuco, onde estudo registrou nove tipos e três desapareceram em áreas expostas
Ilustração: Revista Amazônia

Pesquisa da UFPE monitorou 80 horas de sons em Carneiros e Tamandaré e encontrou redução na comunicação acústica de peixes perto de atividades humanas.

O ruído chega antes da mensagem dos peixes

Em trechos turísticos do litoral de Pernambuco, o som produzido por motores de embarcações, parapentes e banhistas coincidiu com uma redução clara na ocorrência de sons emitidos por peixes. O resultado apareceu justamente nos pontos mais expostos à movimentação humana, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A pesquisa acompanhou a paisagem acústica subaquática em duas áreas protegidas, as praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental de Guadalupe, e Tamandaré, na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais.

Os peixes não dependem apenas da visão para interagir nos recifes. Muitas espécies produzem pulsos sonoros únicos ou repetidos, organizados em sequências, durante comportamentos ligados à reprodução, à defesa de território e à alimentação. Quando o barulho externo se sobrepõe a esses sinais, a comunicação pode ficar mais difícil de detectar. Também existe a possibilidade de que alguns animais reduzam ou alterem a produção sonora em resposta ao ruído. O estudo não trata essas possibilidades como uma única explicação, mas registra a associação entre a presença humana e a menor ocorrência dos sons.

O estudo comparou praias com dinâmicas diferentes

Carneiros e Tamandaré foram escolhidas porque são destinos turísticos populares, mas apresentam padrões diferentes de uso. Carneiros recebe visitantes ao longo de todo o ano, enquanto Tamandaré tem variações sazonais, com maior movimento no verão. Essa diferença permitiu observar os sons subaquáticos em cenários com intensidades distintas de atividade humana, sem retirar a análise do contexto real de praias frequentadas.

Em cada local, os pesquisadores instalaram sistemas de gravação subaquática em pontos próximos da costa, mais influenciados por embarcações e pessoas, e em áreas abrigadas. Nesses locais protegidos, a estrutura dos recifes funcionava como uma barreira para o som. A comparação entre os pontos ajudou a separar ambientes mais diretamente expostos ao ruído daqueles em que a formação recifal oferecia algum abrigo acústico. Ao mesmo tempo, mergulhadores fizeram censos visuais para contar os peixes e registrar as espécies presentes.

Oito horas por sessão revelaram nove tipos de som

As gravações foram realizadas em janeiro e fevereiro de 2022, durante a alta temporada, e em abril de 2023. Cada sessão durou dez horas contínuas, e o conjunto do monitoramento somou 80 horas de dados acústicos. Durante esse período, a equipe acompanhou os ruídos associados à atividade humana e os sons produzidos pelos peixes nos mesmos ambientes. A análise identificou nove tipos diferentes de sons de peixes.

Três desses tipos deixaram de ser emitidos nos locais expostos à presença de pessoas. O levantamento visual encontrou entre 18 e 23 espécies nas áreas examinadas e registrou quase 1,4 mil peixes em Carneiros. Esses números ajudam a mostrar que o resultado não surgiu de uma observação isolada, mas de uma comparação entre registros acústicos, condições do ambiente e presença de animais. A redução foi observada na ocorrência dos sons, e não apresentada como desaparecimento das espécies dos recifes.

O silêncio pode alterar comportamentos importantes

De acordo com Túlio Freire Xavier, autor do estudo e integrante do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, o barulho das embarcações pode mascarar os sons dos peixes, tornando-os mais difíceis de detectar. Outra possibilidade é uma resposta direta dos animais, que poderiam reduzir ou modificar a produção sonora diante do ruído. As duas hipóteses ajudam a interpretar o resultado, mas não significam que todos os peixes reajam da mesma maneira.

A consequência ecológica está ligada à função desses sinais. Se os sons participam de encontros reprodutivos, disputas por território, defesa ou busca por alimento, uma comunicação prejudicada pode afetar esses comportamentos. O estudo, porém, não afirma que o ruído tenha provocado uma queda populacional nem mede efeitos de longo prazo sobre cada espécie. Seu resultado central é mais específico: em áreas com maior presença de atividade humana, houve menor ocorrência dos sons registrados pelos equipamentos.

Recifes também funcionam como abrigo acústico

A comparação entre pontos expostos e abrigados acrescenta uma dimensão física ao problema. A estrutura dos recifes pode funcionar como barreira para a propagação do som, criando diferenças dentro de uma mesma praia. Assim, a distância da costa e a configuração do ambiente se tornam importantes para entender quanto do ruído produzido na superfície chega aos animais que vivem abaixo dela.

Essa observação não transforma todo recife em uma proteção completa contra a atividade humana. Embarcações, parapentes e banhistas podem produzir sons diferentes, com intensidades e padrões variados, enquanto os peixes também apresentam formas distintas de comunicação. Alguns peixes não produzem sons. Por isso, os nove tipos registrados representam os sinais identificados naquele monitoramento, e não toda a diversidade acústica existente nos recifes de Pernambuco.

Alta temporada expõe a relação entre turismo e vida marinha

Os dados de janeiro e fevereiro de 2022 foram obtidos em um período de alta temporada, quando a presença de visitantes é maior. A inclusão de abril de 2023 permitiu observar os mesmos ambientes em outro momento do calendário. Em Carneiros, onde o fluxo turístico ocorre durante todo o ano, e em Tamandaré, que concentra movimento no verão, a atividade humana aparece como parte constante ou sazonal da paisagem sonora.

A conexão com o Brasil é direta porque a pesquisa foi conduzida em duas unidades de conservação do litoral pernambucano, regiões onde turismo, recifes e fauna marinha compartilham o mesmo espaço. O achado não autoriza generalizar automaticamente o resultado para todas as praias brasileiras. Ele mostra, em dois destinos específicos, que avaliar a qualidade de um ambiente marinho exige observar também os sons que não podem ser percebidos da areia.

Um registro acústico transforma o modo de enxergar o recife

O artigo foi publicado em inglês na revista científica Neotropical Ichthyology, periódico editado pela publicação oficial da Sociedade Brasileira de Ictiologia. A divulgação ocorreu em 20 de julho de 2026, com informações da Agência Brasil. A pesquisa reúne gravações subaquáticas e censos visuais para examinar como ruídos de origem humana se relacionam com a ocorrência de sons de peixes em Carneiros e Tamandaré.

O resultado não pede que o mar seja tratado como um espaço sem presença humana, mas revela que a comunicação dos peixes também faz parte do impacto do turismo. Um recife pode continuar visualmente ocupado por peixes e, ainda assim, ter sua paisagem sonora modificada. Ouvir esse ambiente com instrumentos amplia a percepção sobre o que acontece sob a superfície e lembra que preservar a vida marinha inclui considerar não apenas a água e o habitat, mas também o espaço acústico em que os animais se orientam e interagem.

Com informações da Agência Brasil.

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