
Missão liderada por cientistas locais amplia a coleção marinha do país e pode orientar novas áreas protegidas.
A mais extensa investigação já conduzida por cientistas de Trinidad e Tobago no mar ao redor das ilhas encontrou uma paisagem que permanece quase invisível para a população: fontes frias alimentadas por gases do subsolo, corais, esponjas carnívoras, pepinos-do-mar, tubarões-fantasma e pelo menos 20 espécies com suspeita de serem novas para a ciência. A expedição ocorreu entre 29 de junho e 28 de julho de 2026, a bordo do navio R/V Falkor (too), operado pelo Schmidt Ocean Institute.
Liderada pela bióloga marinha Diva Amon, da organização SpeSeas, a missão percorreu áreas profundas do território marítimo de Trinidad e Tobago com participação majoritária de pesquisadores trinbagonianos. O grupo mapeou aproximadamente 11.335 quilômetros quadrados de fundo oceânico, o equivalente a cerca de 13% da área marinha ainda não cartografada do país.
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O trabalho combinou mapas do relevo submarino, observação direta e coleta de amostras. Durante a etapa de mapeamento, os pesquisadores identificaram 219 correntes de bolhas que poderiam indicar a presença de fontes frias, também chamadas de cold seeps. Depois, o veículo operado remotamente SuBastian desceu até esses pontos para verificar quais abrigavam comunidades biológicas ativas.
Ao todo, 25 ecossistemas desse tipo foram confirmados. Nessas áreas, a vida não depende diretamente da luz solar. Bactérias usam substâncias químicas, como o metano que escapa do leito marinho, para produzir energia. Essa base sustenta mexilhões, amêijoas, vermes tubícolas e outros animais em regiões onde a comida é escassa.
O maior dos locais observados tinha cerca de meio acre, área inferior a um terço de um campo de futebol oficial, e estava coberto por mexilhões e vermes tubícolas. Segundo a SpeSeas, esses ambientes são especialmente importantes porque concentram organismos adaptados a condições que ainda são pouco estudadas no Caribe.
Um polvo visto em 2014 voltou a aparecer
Entre os registros mais relevantes está um polvo do gênero Graneledone. O animal havia sido observado durante uma expedição de 2014 da qual Diva Amon também participou, mas naquela ocasião não havia dados nem espécimes suficientes para confirmar se se tratava de uma espécie nova. A coleta realizada em 2026 poderá permitir a identificação formal.

A lista provisória reúne 20 espécies suspeitas de serem novas, e três delas podem representar gêneros ainda não descritos. Os pesquisadores também registraram pelo menos 54 espécies que nunca haviam sido observadas nas águas de Trinidad e Tobago, entre elas peixes conhecidos como tubarões-fantasma e vermes-zumbis.
Mais de 700 espécimes foram coletados e serão incorporados ao Museu de Zoologia da Universidade das Índias Ocidentais, no campus de St. Augustine. Com a chegada do material, a coleção de organismos de águas profundas da instituição deverá aumentar 12 vezes.
O fundo do mar também guarda sinais da presença humana
As câmeras do SuBastian registraram uma carcaça de raia-manta, do gênero Mobula, a 1.025 metros de profundidade. Quando um animal de grande porte morre e afunda, seu corpo se transforma em uma fonte concentrada de alimento para caranguejos, vermes e dezenas de outras espécies.
Outro registro mostrou um peixe-papagaio-preto, conhecido em inglês como black swallower, com o estômago distendido depois de engolir uma presa muito maior do que o próprio corpo. A equipe também encontrou lixo produzido por seres humanos, um alerta de que mesmo os setores mais remotos do oceano carregam marcas da atividade terrestre.
Segundo a SpeSeas, a expedição de 29 de junho a 28 de julho de 2026 confirmou 25 ecossistemas de fontes frias, coletou mais de 700 espécimes e mapeou 11.335 quilômetros quadrados do fundo marinho de Trinidad e Tobago.
Da coleta ao chamado “zoológico congelado”
Além de catalogar animais, os cientistas testaram um crioprotetor desenvolvido para conservar tecidos vivos sem os danos normalmente associados ao congelamento profundo. A técnica foi aplicada a tecidos de mais de 86 espécies de esponjas, corais e pepinos-do-mar de águas profundas.

A proposta é criar uma reserva de material biológico que possa ser estudada por décadas. Esse tipo de acervo ajuda a comparar mudanças futuras nos ecossistemas e pode apoiar pesquisas sobre restauração, adaptação e conservação de espécies ameaçadas pelas alterações ambientais.
A missão também colocou em operação o DORIS, um sistema experimental de câmera para o oceano profundo desenvolvido pelo Ocean Discovery League e pela Blue Robotics. A iniciativa busca tornar a exploração submarina mais acessível por meio de equipamentos de menor custo, uma possibilidade importante para países que não dispõem de grandes frotas de pesquisa.
O que a descoberta muda para a conservação
Os dados sobre relevo, sedimentos, organismos e fontes frias serão usados em futuras ações de governança marinha e planejamento espacial em Trinidad e Tobago. Uma das aplicações previstas é ajudar na definição de áreas marinhas protegidas, embora a expedição, por si só, não crie novas unidades de conservação.
A relevância ultrapassa o Caribe. Para pesquisadores e gestores que atuam no litoral amazônico, incluindo áreas costeiras do Amapá e do Pará, o levantamento mostra como mapas do fundo do mar e observações feitas por veículos remotos podem revelar habitats que não aparecem em levantamentos próximos à superfície. A comparação é útil porque decisões sobre pesca, exploração de recursos e proteção ambiental dependem de conhecer os ambientes antes de estabelecer regras de uso.
O país também ampliou o diálogo com a sociedade durante a missão. Mais de 2 mil pessoas participaram do programa Ship-to-Shore, que levou transmissões e atividades a estudantes, universidades, organizações não governamentais e autoridades. Antes da partida, visitas presenciais alcançaram mais de 1 mil pessoas em escolas e instituições de ensino superior.
Próximos passos dependem da análise das amostras
Quase 1 mil amostras de água, sedimento e animais foram reunidas ao longo da expedição. A confirmação das espécies suspeitas, a descrição dos possíveis novos gêneros e a análise dos tecidos preservados deverão ocorrer nas etapas seguintes, junto com o processamento dos mapas e das imagens submarinas.
As imagens e vídeos em alta resolução da expedição estão disponíveis no acervo visual da missão. Os resultados serão usados para ampliar o conhecimento sobre o mar de Trinidad e Tobago e orientar as próximas decisões de planejamento e proteção do território oceânico.
Com informações de SpeSeas.
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