
Novos registros ampliam para 161 o número de espécies de vertebrados encontradas no sítio de Hammerschmiede.
Um antigo rio do sul da Alemanha era ocupado por tantos animais que os pesquisadores conseguem reconstruir uma teia alimentar baseada em peixes, mesmo 11,6 milhões de anos depois. A pista veio de ossos preservados no sítio de Hammerschmiede, perto de Pforzen, onde uma equipe identificou seis espécies de aves, entre elas dois grupos novos para a ciência, um corvo-marinho de bico curto e uma águia com provável hábito de capturar peixes.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Senckenberg e Museu de História Natural de Frankfurt, da Universidade de Tübingen e do Centro Senckenberg para Evolução Humana e Paleoambiente. O trabalho foi publicado no Swiss Journal of Palaeontology em 11 de setembro de 2026.
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A identificação não foi feita a partir de esqueletos completos. Os paleontólogos compararam partes isoladas, como ossos das asas, da perna e do crânio, com exemplares de aves atuais e fósseis já conhecidos. Diferenças na forma e nas proporções permitiram separar espécies e reconhecer características que não aparecem nos animais modernos.
O maior destaque é Bavaricarbo brevirostris, nome que pode ser traduzido como corvo-marinho bávaro de bico curto. A espécie pertence a uma linhagem ancestral dos corvos-marinhos. Segundo os pesquisadores, a estrutura do úmero, osso que compõe a asa, e do tarsometatarso, localizado na parte inferior da perna, era diferente da observada nos corvos-marinhos atuais.
Essas características sugerem que Bavaricarbo poderia voar com mais eficiência, mas provavelmente mergulhava apenas em águas rasas. O ambiente seria compatível com o rio que existia na região de Hammerschmiede durante o Mioceno, período da história da Terra que começou há cerca de 23 milhões de anos e terminou há aproximadamente 5,3 milhões de anos.
Seis espécies ampliam o retrato da biodiversidade
Além do corvo-marinho de bico curto, os pesquisadores encontraram restos de uma segunda espécie de corvo-marinho, ainda sem nome, com tamanho próximo ao do pequeno corvo-marinho-pigmeu que vive atualmente na Europa e na Ásia.

Também foi identificado um mergulhão, ave aquática adaptada ao mergulho, embora até agora apenas um osso do braço tenha sido atribuído a esse grupo. Quando esse registro é analisado junto com os numerosos fósseis do darter Anhinga pannonica, os autores concluem que as aves mergulhadoras que comiam peixes tinham presença importante naquele ecossistema.
Outro achado foi um osso da perna de uma ave de rapina. A estrutura se diferencia de espécies atuais e apresenta alguma semelhança com a de uma águia-pescadora. O animal recebeu o nome científico Mioaetus pforzenensis, em referência ao Mioceno e à comunidade de Pforzen. A forma do osso indica uma envergadura provavelmente superior a um metro e levanta a hipótese de que a ave usasse as garras para capturar peixes.
O conjunto inclui ainda um pequeno andorinhão, identificado como Apus cf. gaillardi. O úmero tinha 9,9 milímetros, dimensão menor que a de espécies atuais comparáveis. Como andorinhões passam grande parte da vida voando, seus fósseis são raros. O osso encontrado em Hammerschmiede amplia o inventário de vertebrados do local e representa a 161ª espécie registrada.
Uma cadeia alimentar sustentada pela água
A importância do achado não está apenas na descoberta de aves isoladas. O número de predadores que dependiam de peixes ajuda a reconstruir uma rede ecológica muito mais complexa do que a encontrada hoje em águas continentais europeias, segundo Madelaine Böhme, da Universidade de Tübingen.
Antes dos novos registros, o sítio já havia revelado três espécies de lontra e duas de foca, além de tartarugas de casco mole, tartarugas mordedoras e uma salamandra gigante que podia alcançar 1,5 metro. Entre os peixes estavam lúcios, bagres, salmões do Danúbio, gobídeos, cobitídeos, peixes semelhantes à pescada e pequenas percas.
O raciocínio dos pesquisadores é que a concentração de peixes permitia a coexistência de muitos predadores. A presença de aves mergulhadoras, mamíferos aquáticos, répteis, anfíbios e peixes predadores aponta para um sistema em que diferentes espécies exploravam recursos semelhantes em partes distintas do ambiente.

Segundo a Universidade de Tübingen, o sítio de Hammerschmiede, no sul da Alemanha, já reúne fósseis de 161 espécies de vertebrados em sedimentos depositados há 11,6 milhões de anos.
O possível efeito dos animais em terra firme
Os autores levantam uma hipótese que amplia a discussão para além do rio. Aves e lontras que se alimentavam de peixes defecavam em terra, transferindo nitrogênio e fósforo do ambiente aquático para as áreas próximas. Esses nutrientes poderiam ter funcionado como uma forma de fertilização natural das margens.
Isso não significa que a transferência de nutrientes tenha sido comprovadamente a causa da alta diversidade encontrada. A equipe ainda investiga se esse processo ajudou a sustentar a variedade de espécies terrestres registrada no local. A hipótese é estudada pelo Cluster de Excelência TERRA, ligado à Universidade de Tübingen.
O mecanismo interessa também a quem acompanha os ecossistemas amazônicos. Rios, lagos e áreas alagáveis da Amazônia atual conectam ambientes aquáticos e terrestres por meio da movimentação de animais, nutrientes e matéria orgânica. O fóssil alemão não demonstra que o mesmo processo ocorreu na Amazônia, mas oferece um exemplo de como predadores aquáticos podem influenciar áreas vizinhas, uma relação importante para interpretar a biodiversidade da região.
Escavações seguem desde 2011
As escavações científicas em Hammerschmiede são realizadas desde 2011 pela Universidade de Tübingen e pelo Centro Senckenberg para Evolução Humana e Paleoambiente. Desde 2017, moradores participam do trabalho por meio de um projeto de ciência cidadã. O governo da Baviera passou a oferecer apoio financeiro a partir de 2020.
Ao todo, cerca de 50 mil fósseis foram encontrados no depósito de argila. O local também ficou conhecido pelos restos de dois primatas antropoides, Danuvius guggenmosi e Buronius manfredschmi, além de outros vertebrados do Mioceno.
Os detalhes da descrição das novas aves estão disponíveis no artigo publicado no Swiss Journal of Palaeontology. As pesquisas continuam concentradas em descobrir como a circulação de nutrientes entre o rio e as margens contribuiu, ou não, para a diversidade excepcional preservada em Hammerschmiede.
Com informações da Universidade de Tübingen.
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