
Estudo de pesquisadores da Ufopa e da Unicamp, publicado na revista ACS Omega, mostra que a fração resinosa da copaíba mata as larvas do carrapato bovino e abre caminho para carrapaticidas de origem vegetal, menos dependentes de produtos sintéticos.
Fotos: Divulgação / Acervo da pesquisa (Ufopa)
A fração resinosa da óleo-resina de copaíba matou todas as larvas do carrapato bovino em ensaios de laboratório, com uma concentração letal capaz de eliminar metade da população (CL50) de 3,35 miligramas por mililitro. O resultado saiu de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e foi publicado na ACS Omega, revista científica da American Chemical Society.
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Árvore permanece na superfície do lago décadas após o alagamento e interfere na navegação e na pescaO trabalho testou a óleo-resina da copaíba-amazônica (Copaifera reticulata) contra larvas do Rhipicephalus microplus, o carrapato que mais prejudica a pecuária brasileira. Nativa da floresta, a árvore produz uma resina rica em terpenoides, compostos que as plantas usam para se defender de insetos e fungos e que, no laboratório, se mostraram letais para o parasita.

A pesquisa foi desenvolvida pelo biotecnologista e mestrando Selino Monteiro Costa Filho, do Programa de Pós-Graduação em Biociências da Ufopa. Reuniu três laboratórios: o Laboratório de Sanidade Animal (Larsana), coordenado pelo professor Antonio Humberto Hamad Minervino; o Laboratório de Biotecnologia de Plantas Medicinais (LBPM), coordenado pela professora Elaine Cristina Pacheco de Oliveira, ambos na Ufopa; e o Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA), da Unicamp.

Para chegar ao resultado, a equipe separou a óleo-resina em duas frações, a volátil (formada por sesquiterpenos) e a resinosa (formada por diterpenos), e submeteu cada uma ao Teste de Imersão de Larvas (TIL), método padrão para avaliar produtos contra carrapatos. A fração resinosa foi a mais eficiente, com CL50 de 3,35 e CL95 de 7,22 miligramas por mililitro. A óleo-resina bruta também apresentou forte ação, com CL50 de 8,84 miligramas por mililitro. Já a fração volátil teve desempenho menor.
A diferença tem explicação química. Os diterpenos, menos voláteis e mais afeitos à gordura, tendem a se fixar e a se espalhar pela cutícula do carrapato, rica em lipídios, o que prolonga a exposição da larva ao composto. Os sesquiterpenos, mais voláteis, evaporam rápido e agem por menos tempo.

A matéria-prima veio da própria floresta. A óleo-resina foi retirada de uma copaíba adulta na Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, em Belterra, no oeste do Pará, pela perfuração de dois orifícios no tronco, método tradicional que não derruba a árvore. Os carrapatos foram coletados em um frigorífico de Santarém, na inspeção de bovinos abatidos vindos de uma propriedade rural de Belterra, e levados ao Larsana, onde foram identificados e mantidos até os ensaios.
Por que combater o carrapato importa tanto? O Rhipicephalus microplus está entre os principais parasitas da pecuária tropical. Ele suga sangue, reduz o ganho de peso do animal, derruba a produção de leite, danifica o couro e transmite os agentes da tristeza parasitária bovina, doença que reúne babesiose e anaplasmose e pode matar o rebanho. O prejuízo se espalha por toda a cadeia da carne e do leite.
Hoje o controle depende, em grande parte, de carrapaticidas sintéticos. O uso intensivo desses produtos favoreceu o surgimento de populações resistentes, e cada aplicação rende menos. Soma-se a isso a preocupação crescente com resíduos químicos na carne, no leite e no ambiente. É nesse cenário que ganham espaço as alternativas de origem vegetal.
Os próprios autores, porém, pedem cautela. Os resultados vieram de ensaios com larvas em laboratório. Antes de qualquer produto chegar ao mercado, será preciso desenvolver formulações veterinárias estáveis, testar em bovinos naturalmente infestados e avaliar segurança, dosagem, tempo de ação e viabilidade econômica. Só depois dessas etapas um novo carrapaticida de base vegetal poderá ser registrado.
Mesmo assim, a descoberta reforça um caminho caro à ciência amazônica, o de transformar a biodiversidade em produtos de maior valor. A copaíba já é usada há gerações pelas populações tradicionais como anti-inflamatório, cicatrizante e analgésico, e ocupa lugar de destaque entre os produtos florestais não madeireiros da região. Mostrar que a mesma espécie pode servir também à saúde animal amplia esse horizonte e aproxima floresta, ciência e produção rural.
Para o leitor do Pará, o dado tem endereço. A árvore estudada fica na Flona do Tapajós, os carrapatos vieram de Belterra e Santarém, e a pesquisa nasceu numa universidade do oeste paraense. A promessa de um carrapaticida verde, se confirmada nas próximas etapas, pode começar exatamente onde o problema e a solução convivem, no interior da Amazônia.
Matéria publicada originalmente na edição 156 da Revista Amazônia.
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