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Doenças de pets ameaçam felinos selvagens na América Latina

Doenças de pets ameaçam felinos selvagens na América Latina
Foto: acervo

Fragmentação territorial e urbanização intensificam a transmissão de patógenos letais para espécies ameaçadas.

A América Latina enfrenta uma crise silenciosa que ameaça a sobrevivência de seus felinos selvagens. A crescente expansão das atividades humanas, a urbanização descontrolada e a fragmentação dos ecossistemas estão aproximando cães e gatos domésticos de espécies selvagens, facilitando a transmissão de doenças que podem ser fatais para estas últimas. Especialistas alertam que a combinação da perda de habitat, o avanço urbano e a posse irresponsável de animais de estimação está criando um cenário de alto risco, ainda pouco estudado, mas com consequências potencialmente devastadoras.

Doenças como a leucemia felina (FeLV) e a síndrome da imunodeficiência felina (FIV), embora frequentemente tratáveis em gatos domésticos, podem ser mortais para felinos selvagens. A falta de monitoramento e recursos adequados impede que a verdadeira dimensão dessa ameaça seja plenamente compreendida e combatida. Como resultado, espécies que já enfrentam pressões severas, como perda de habitat e caça ilegal, agora precisam lidar com um fator de risco adicional e muitas vezes invisível.

A realidade brutal do conflito felino-humano

Em 2025, o médico veterinário Andrés Bräutigam, especializado em fauna silvestre e atuante em um centro de resgate em San Isidro de Heredia, na Costa Rica, recebeu um margay (Leopardus wiedii) que, segundo ele, carregava em seu corpo “todas as amostras do conflito felino-humano”. O animal havia invadido um galinheiro em busca de alimento, sendo posteriormente perseguido por cães e agredido na cabeça por um morador. Além dos ferimentos traumáticos, exames revelaram que o margay estava infectado com FIV e FeLV, doenças comuns em gatos domésticos.

Bräutigam ressalta que “muito desse conflito se deriva de um ecossistema que está altamente alterado”. Sem um ambiente conservado que permita aos felinos caçar e se deslocar, e com comunidades humanas que avançam sobre zonas selvagens, os animais são forçados a se aproximar de humanos e de seus animais domésticos, expondo-se a patógenos para os quais não possuem imunidade.

Um “assassino silencioso” e transfronteiriço

A transmissão de doenças de animais domésticos para felinos selvagens tem se tornado uma preocupação crescente entre biólogos, conservacionistas e veterinários. Jim Sanderson, diretor da Small Wild Cat Conservation Foundation (SWCCF) e membro do Grupo de Especialistas em Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), qualifica essa ameaça como “o assassino silencioso mais grave, generalizado e devastador” para os felinos selvagens.

Enzo Aliaga-Rossel, pesquisador associado da Universidade Mayor de San Andrés, na Bolívia, explica que o contágio de vírus entre fauna silvestre e animais domésticos é um “salto zoonótico” facilitado pela alteração de ecossistemas pela atividade humana. Os animais domésticos, nesse contexto, atuam como “pontes epidemiológicas”, transportando patógenos para a vida selvagem. Segundo a cientista brasileira Flavia Tirelli, coordenadora do Geoffroy’s Cat Working Group, os impactos não se limitam a uma única espécie, podendo expor diversos felinos a patógenos perigosos e, em muitos casos, mortais.

Entenda o caso

A expansão de áreas urbanas e agrícolas sobre habitats naturais força o contato entre animais domésticos e selvagens. Pesquisas recentes documentam como cães e gatos domésticos podem impactar a fauna: cães já levaram à extinção de 11 espécies de aves e ameaçam 96 espécies de mamíferos. Gatos caçam e se alimentam de mais de 2.084 espécies, das quais 347 (16,65%) estão ameaçadas de extinção. Além da predação, a transmissão de doenças durante as interações é um risco subestimado e crescente.

Em um exemplo alarmante da Tanzânia, no início dos anos 90, um terço dos leões do Parque Nacional Serengueti morreu devido ao cinomose canina (moquillo), contraído de cães domésticos de comunidades Maasai. Esse evento sublinha a natureza letal das doenças domésticas para populações selvagens, mesmo em grandes predadores.

A ameaça invisível e subestimada

A fragmentação do habitat e a expansão urbana “facilitaram em grande medida a transmissão de patógenos entre espécies domésticas e selvagens”, explica Tirelli. Quanto mais as áreas naturais são modificadas e divididas, mais humanos trazem seus animais de estimação para essas zonas, aumentando o risco de contágio. Diego Ramírez-Álvarez, especialista em conservação, adverte que essas doenças “estão se apresentando com maior frequência nos últimos anos, devido ao aumento de animais de estimação de livre circulação em territórios selvagens, ao encurtamento da interface humano-silvestre e a uma péssima posse responsável de animais”.

Câmeras-armadilha em diversas partes da América Latina confirmam que animais domésticos e selvagens compartilham os mesmos caminhos e competem por recursos, inclusive em áreas protegidas. Carolina Sáenz, diretora do Hospital de Fauna Silvestre da Universidade San Francisco de Quito, enfatiza: “O problema não são o cão ou o gato, mas sim as pessoas que não estão conscientes do que podem causar à fauna silvestre”.

No Brasil, a situação não é diferente. Registros do Projeto Felinos do Pampa mostram gatos selvagens e domésticos circulando pelas mesmas trilhas, aumentando o risco de transmissão de patógenos. Na Amazônia, onde a pressão do desmatamento e da expansão agrícola é intensa, o contato entre espécies se torna ainda mais crítico. Segundo dados do INPE, o desmatamento na Amazônia brasileira, apesar de ter desacelerado em 2023, ainda removeu 5.152 km² de floresta entre agosto de 2022 e julho de 2023, indicando um cenário contínuo de fragmentação que favorece esses encontros perigosos.

José Daniel Ramírez, biólogo costa-riquenho, coordena o programa “A Ameaça Invisível” para estudar essa relação no seu país. No bosque nuboso de Monteverde, onde atuam as seis espécies de felinos da Costa Rica (jaguar, puma, onça-pintada, margay, ocelote e jaguatirica), “todas estão em perigo de extinção e as doenças transmitidas por animais domésticos atuam como uma pressão adicional”, afirma Ramírez. Imagens de suas câmeras-armadilha flagraram o mesmo caminho sendo usado por uma puma com filhotes e três cães pastores alemães, revelando uma sobreposição de territórios alarmante.

No México, Heliot Zarza Villanueva, vice-presidente da Aliança Nacional para a Conservação do Jaguar (ANCJ), alerta que mesmo as áreas naturais protegidas não podem, sozinhas, proteger a biodiversidade. O último censo de jaguares no México, coordenado pela UNAM, ANCJ e CONANP, mostrou um aumento de 10% na população entre 2018 e 2024 (de 4.800 para 5.326 exemplares), atribuído à expansão de áreas protegidas. Contudo, os pesquisadores advertem que o crescimento não significa segurança total para a espécie.

Abel Gallo Pérez, biólogo equatoriano especialista em felinos selvagens, aponta para uma nova lacuna na pesquisa: “Antes, olhávamos as câmeras-armadilha e acreditávamos que uma grande quantidade de filhotes ou adultos era sinal de populações saudáveis. Agora, nos questionamos: e se eles estiverem doentes?” Essa é uma “ameaça que existe, que coloca em risco as populações de felinos selvagens e que pode levá-las ao colapso”, acrescenta.

Isabel Hagnauer, veterinária da Wildlife Rescue Costa Rica, prevê que “se há muitos anos falávamos que algumas dessas espécies estão em perigo de extinção, a possibilidade de se infectarem com essas enfermidades poderia fazer com que as populações diminuíssem muito mais rápido do que vimos até agora”.

Um exemplo notório é o que ocorreu em 2011 na Reserva Chamela-Cuixmala, no México. Rodrigo Núñez, biólogo da Alianza Jaguar, registrou a deterioração progressiva de um ocelote por sarna sarcótica, doença que provavelmente foi transmitida por animais domésticos. O animal, antes robusto, apresentava lesões cutâneas e emagrecimento severo, sugerindo que morreu em decorrência da infestação.

Perguntas Frequentes

Quais doenças domésticas mais ameaçam felinos selvagens?
As principais são a leucemia felina (FeLV), a síndrome da imunodeficiência felina (FIV) e a sarna sarcótica. Outros vírus, bactérias, fungos e parasitas também representam risco.

Como os animais domésticos transmitem essas doenças para os selvagens?
A transmissão ocorre através do contato direto (brigas, acasalamento), contato com fezes/urina contaminadas, compartilhamento de áreas de vida e recursos, ou picadas de ectoparasitas.

O que pode ser feito para mitigar essa ameaça?
Ações incluem controle de natalidade e vacinação de animais domésticos em áreas rurais próximas a habitats selvagens, educação da comunidade sobre posse responsável, e criação de zonas de exclusão para pets em áreas de conservação. A longo prazo, a restauração e conexão de habitats também são cruciais.

A urgência em pesquisar, monitorar e implementar medidas preventivas é patente. A não intervenção pode selar o destino de muitas espécies de felinos selvagens, tornando essa crise silenciosa um desastre ecológico irreversível que se estende por toda a América Latina.

Com informações de Mongabay Latam.

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