
A presença de agrotóxicos no cotidiano brasileiro não se distribui de forma homogênea. Ela recai, com maior peso, justamente sobre grupos historicamente vulnerabilizados. A constatação, feita pela arquiteta e urbanista Susana Prizendt, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e do coletivo MUDA-SP, ecoa como um alerta sobre a forma como desigualdade social, modelo agrícola e alimentação se entrelaçam no país.
Segundo Prizendt, há um recorte nítido de gênero, raça e território na exposição aos pesticidas. A população que lida com a insegurança alimentar no Brasil é, muitas vezes, a mesma que está sujeita aos riscos da contaminação química. Ela explica que os grupos que mais têm contato com os chamados venenos são trabalhadores rurais descendentes de comunidades negras e indígenas, empregados em grandes fazendas ou pequenas propriedades ainda dependentes de insumos químicos. São também esses grupos que têm menos acesso a alimentos agroecológicos e que enfrentam barreiras econômicas e geográficas para escolhas alimentares mais saudáveis.
A reflexão ganhou destaque durante uma homenagem ao cineasta Sílvio Tendler, após a exibição do documentário O Veneno Está na Mesa II, no São Paulo Food Film Fest. Tendler, falecido em setembro, dedicou sua carreira a retratar conflitos sociais e econômicos do Brasil. Em sua obra, o tema dos agrotóxicos surge como parte estrutural de um sistema que privilegia grandes conglomerados do setor alimentício enquanto transfere às populações rurais, consumidores urbanos e comunidades vizinhas às plantações o peso das consequências: desequilíbrios ambientais, intoxicações crônicas, alimentos contaminados e erosão de modos de vida tradicionais.
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Vacinação de profissionais de saúde reforça proteção dentro dos hospitaisTendler ampliou esse debate também em filmes sobre figuras centrais da discussão alimentar brasileira, como o médico e pensador Josué de Castro, autor de Geografia da Fome. Em suas análises, Castro já denunciava, décadas atrás, o impacto das estruturas econômicas sobre o direito humano à alimentação adequada — um tema que o documentarista atualizou ao retratar o modelo de produção agrícola baseado em insumos químicos.
Para Prizendt, o cenário atual agrava um problema antigo. Mesmo quando se consegue escapar de produtos cultivados com agrotóxicos, há um obstáculo crescente: a falta de alimentos frescos nas prateleiras. Ela observa que, em muitos territórios, alimentos in natura se tornaram artigo de luxo, sufocados pela expansão de produtos ultraprocessados. Refeitórios, mercearias de bairro e supermercados vêm sendo ocupados por alimentos industrializados, embalados e de composição padronizada — resultado de estratégias de marketing agressivas e de um mercado que prioriza volume e margem de lucro.

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Esse avanço dos ultraprocessados não é casual. Uma série de artigos científicos liderada por especialistas da Universidade de São Paulo mostra que o consumo desses produtos mais do que dobrou desde os anos 1980, saltando de 10 para 23% da alimentação dos brasileiros. Os pesquisadores ressaltam que não se trata de escolhas individuais isoladas, mas de uma combinação de fatores econômicos, logísticos e publicitários impulsionados por grandes corporações globais que controlam cadeias produtivas inteiras, desde ingredientes ultrabaratos até embalagens chamativas.
E mesmo quem acredita que os riscos de agrotóxicos se restringem a frutas e hortaliças pode estar enganado. Pesquisas do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor indicam que resíduos químicos também estão presentes em alimentos industrializados cotidianos, como bolachas recheadas, bisnaguinhas, requeijões e cereais matinais. Em um estudo recente, o Idec analisou 27 produtos ultraprocessados e constatou que 59,3% tinham ao menos um tipo de agrotóxico. Todos os produtos que continham trigo apresentaram resíduos.
O levantamento, parte da iniciativa Tem Veneno Nesse Pacote, encontrou traços de pesticidas em categorias consumidas amplamente por crianças, como bebidas de soja, salgadinhos e biscoitos. O dado reforça que o debate sobre agrotóxicos precisa ir além da lavoura e incluir a cadeia industrial, já que insumos agrícolas contaminam farinhas, óleos e bases alimentares usadas em larga escala.
A combinação desses elementos — produção agrícola dependente de químicos, desigualdade no acesso à alimentação saudável, expansão dos ultraprocessados e contaminação silenciosa — compõe o quadro que especialistas descrevem como uma crise alimentar de múltiplas camadas. Ao mesmo tempo, movimentos sociais, pesquisadores e coletivos urbanos como o MUDA-SP têm renovado o debate público, buscando soluções que descentralizem a produção, fortaleçam a agroecologia e garantam condições de vida dignas às populações que sustentam o sistema alimentar brasileiro.
A discussão, longe de encerrada, reforça que o problema dos agrotóxicos não se limita às plantações: ele atravessa territórios, perfis socioeconômicos e gerações inteiras, pedindo respostas estruturais que integrem saúde, justiça social e soberania alimentar.
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