Amazonas Ecolar avança e une meio ambiente e moradia


Um projeto que transforma lixo em abrigo e política pública

A articulação entre meio ambiente, proteção social e adaptação climática ganhou novo fôlego no Amazonas com o avanço das tratativas para ampliar o projeto Amazonas Ecolar. Em janeiro de 2026, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) e a Defesa Civil do Amazonas iniciaram discussões formais para expandir a iniciativa, que propõe uma solução inovadora para dois problemas estruturais do estado: o descarte inadequado de resíduos sólidos e o déficit habitacional que atinge populações em situação de vulnerabilidade.

Fotos: Noir Miranda/Sema

A agenda ganhou corpo com uma visita técnica ao centro de reciclagem do projeto, em Manaus, onde resíduos plásticos passam por triagem, tratamento e transformação até se tornarem blocos estruturais usados na construção de moradias sustentáveis. Mais do que um canteiro de obras, o espaço funciona como símbolo de um novo modelo de política pública, capaz de integrar economia circular, inclusão social e redução de riscos ambientais.

Apresentado oficialmente durante a COP30, o Amazonas Ecolar rapidamente despertou o interesse de parceiros nacionais e internacionais, consolidando-se como uma vitrine de soluções adaptadas à realidade amazônica. A proposta dialoga com desafios globais, mas nasce de uma leitura local: no Amazonas, lixo, moradia precária e eventos climáticos extremos fazem parte de uma mesma equação.

Sustentabilidade que enfrenta pobreza e degradação ambiental

Durante a visita técnica, o secretário de Estado do Meio Ambiente, Eduardo Taveira, destacou que o Amazonas Ecolar se diferencia por atacar problemas ambientais e sociais de forma simultânea. Para ele, o projeto rompe com a lógica de políticas setoriais isoladas e aposta em soluções integradas, capazes de gerar impactos duradouros.

Ao transformar resíduos plásticos como garrafas PET e outros polímeros em matéria-prima para habitação popular, o projeto reduz a pressão sobre rios, igarapés e áreas de floresta, ao mesmo tempo em que cria moradias mais seguras para famílias expostas a alagamentos, deslizamentos e outras consequências das mudanças climáticas. Cada unidade habitacional possui cerca de 50 metros quadrados, inclui biodigestor próprio e tem custo estimado em R$ 60 mil, valor inferior ao de modelos convencionais.

A concepção das casas dialoga com a realidade amazônica, tanto do ponto de vista ambiental quanto social. Ao oferecer infraestrutura básica e materiais resistentes, o Amazonas Ecolar se apresenta como uma alternativa concreta para reassentamentos e políticas de habitação em áreas de risco, especialmente em um estado onde cheias históricas e secas severas têm se tornado mais frequentes.

Nesse contexto, a iniciativa se posiciona não apenas como um projeto ambiental, mas como instrumento de redução da pobreza, com potencial para integrar políticas de habitação, saneamento, resíduos sólidos e adaptação climática.

Fotos: Noir Miranda/Sema
Fotos: Noir Miranda/Sema

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Defesa Civil e a proteção da vida em tempos de extremos climáticos

Sob a liderança da Defesa Civil do Amazonas, o Amazonas Ecolar foi concebido como uma política pública estruturante, com foco direto na proteção da vida. Para o secretário da Defesa Civil, Francisco Máximo, o projeto responde a um cenário cada vez mais desafiador, marcado pelo aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos.

Comunidades que vivem em áreas alagáveis ou em encostas frágeis são, historicamente, as mais impactadas por cheias e deslizamentos. Ao oferecer moradias produzidas a partir de resíduos reciclados, o projeto atua na prevenção de desastres, reduzindo a exposição dessas populações a riscos ambientais e sociais.

Além disso, o modelo adotado fortalece a economia circular ao gerar renda para catadores e trabalhadores envolvidos na cadeia da reciclagem. A proposta reconhece o papel estratégico desses profissionais, muitas vezes invisibilizados, e os insere como agentes centrais de uma política pública inovadora.

O centro de reciclagem do Amazonas Ecolar deve operar com cerca de 40 a 50 trabalhadores, entre equipe administrativa e operários. Todo o sistema é alimentado por energia solar, reforçando o compromisso ambiental e reduzindo a pegada de carbono da iniciativa.

Reciclagem, parcerias e expansão para o interior

Um dos eixos centrais da ampliação do Amazonas Ecolar é a descentralização das etapas de triagem e trituração de resíduos. A proposta prevê a instalação de máquinas em municípios estratégicos do interior do estado, permitindo que cada localidade faça o processamento inicial do material reciclável. Posteriormente, os resíduos refinados seriam adquiridos pela Defesa Civil e enviados a Manaus para a produção dos blocos estruturais.

Nesse processo, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) terá papel decisivo, especialmente por meio do Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema) e da articulação institucional com parceiros nacionais e internacionais. Entre as frentes de atuação está o fortalecimento de associações de catadores, em parceria com a Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat), por meio de um Acordo de Cooperação Técnica firmado durante a COP.

A Sema também estuda captar recursos junto a empresas e organismos internacionais para ampliar a escala do projeto e melhorar a infraestrutura das associações envolvidas, estimulando o aumento da coleta seletiva e a formalização do trabalho.

Outra possibilidade em análise é a utilização de unidades do Amazonas Ecolar como bases de apoio em Unidades de Conservação estaduais. A iniciativa permitiria ampliar a presença institucional do Estado em áreas estratégicas, ao mesmo tempo em que promove soluções sustentáveis e adaptadas ao território.

Ao articular proteção ambiental, inclusão social e inovação, o Amazonas Ecolar se consolida como um exemplo de política pública que olha para o futuro sem ignorar as urgências do presente. Sua ampliação pode redefinir a forma como o estado lida com resíduos, moradia e riscos climáticos, transformando problemas históricos em oportunidades de desenvolvimento sustentável.