
Um pequeno molusco vindo da Ásia, com menos de quatro centímetros, está provocando um alerta vermelho entre cientistas e autoridades brasileiras. O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), que viajou o mundo em águas de lastro de navios, acaba de ser detectado em densidades alarmantes no Rio Tocantins, chegando ao coração da Amazônia muito antes do que as previsões mais pessimistas indicavam.
O que parece apenas um problema ambiental distante já bate à porta das casas ribeirinhas e das grandes usinas. Da destruição de motores de barcos ao risco de apagões e encarecimento da conta de luz, esse invasor utiliza uma “cola” ultra-resistente para dominar tudo o que encontra pela frente, transformando rios saudáveis em tapetes de conchas cortantes.
A invasão acelerada no Pedral do Lourenço
A velocidade da ocupação impressiona. Pesquisadores da UFPA e do ICMBio revelaram que, no Pedral do Lourenço (entre Marabá e Tucuruí), a população do mexilhão saltou de 88 para quase 12 mil indivíduos por metro quadrado em apenas um ano.
Essa explosão biológica mostra que o invasor não está apenas de passagem; ele se adaptou perfeitamente às águas paraenses. Especialistas explicam que o molusco funciona como um “engenheiro do mal”, alterando a clareza da água e roubando o alimento de peixes nativos, o que pode esvaziar as redes dos pescadores locais em pouco tempo.

O prejuízo milionário que vem dos rios
O impacto não é apenas ecológico, ele é duramente financeiro. No setor elétrico, o mexilhão-dourado é um pesadelo: ele entope tubulações de resfriamento de hidrelétricas como Itaipu e agora a gigante Tucuruí. Limpar essas estruturas custa caro.
Estima-se que os danos anuais ao setor elétrico brasileiro cheguem a R$ 400 milhões. Para o morador de cidades como Igarapé-Miri, o prejuízo é direto no bolso e na rotina, com motores de “rabeta” estragados e tubulações domésticas de água completamente bloqueadas pelas colônias do molusco.

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Esperança na genética contra o “mexilhão-zebra com esteroides”
Como é impossível retirar cada mexilhão dos rios manualmente, a ciência brasileira aposta em uma solução digna de filmes de ficção científica. O projeto conduzido pela empresa Bio Bureau, em parceria com o setor elétrico e universidades como a UFRJ, desenvolveu o “mexilhão do bem”.
Através da tecnologia de Gene-Drive (impulso genético), cientistas criaram mexilhões modificados que, ao se reproduzirem na natureza, tornam as próximas gerações estéreis. O objetivo é causar um colapso controlado da espécie invasora sem usar venenos que possam contaminar a água ou os peixes que consumimos.
O futuro da bacia amazônica em jogo
A luta contra o mexilhão-dourado é uma corrida contra o tempo. Se ele atingir o canal principal do Rio Amazonas antes de 2030, a dispersão para estados como Amazonas e fronteiras com o Peru será inevitável, facilitada pelo intenso tráfego de balsas.
A preservação do bioma agora depende de uma vigilância rigorosa e da união entre governo, cientistas e comunidades ribeirinhas. O mexilhão-dourado é um teste de fogo para a nossa capacidade de proteger a maior rede hidrográfica do planeta contra ameaças invisíveis a olho nu, mas devastadoras na prática.











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