Amazônia precisa tomar cuidado com nova fase de exploração em seu território “a pirataria do crédito de carbono”


A miragem verde: o avanço e o cerco aos piratas do carbono na Amazônia

A floresta amazônica tornou-se o tabuleiro de um jogo financeiro de alto risco onde, em uma ponta, empresas globais buscam limpar suas consciências e balanços patrimoniais e, na outra, comunidades tradicionais lutam para não se tornarem mercadoria. O termo piratas de carbono deixou de ser uma metáfora para se tornar uma descrição precisa de desenvolvedores que, aproveitando-se de vácuos regulatórios, operam de forma predatória. Esses agentes transformam o ativo ambiental em uma ferramenta de opressão, convertendo o que deveria ser uma solução climática em um mecanismo de expropriação de direitos.

foto: Mario Vilela/Funai

O rastro de violações sob o selo da sustentabilidade

A fachada de projetos verdes muitas vezes camufla realidades arcaicas e violentas. O episódio ocorrido no Projeto Maísa REDD+, no Pará, serve como um divisor de águas na percepção pública sobre a idoneidade desses ativos. Enquanto empresas como a Audi, a Uber, a Nike, o iFood e a Giorgio Armani estampavam selos de neutralidade em suas comunicações, 16 trabalhadores eram resgatados em condições análogas à escravidão na Fazenda Sipasa. O paradoxo é cruel: os créditos eram gerados sob a promessa de manter a floresta em pé, mas os braços que sustentavam essa contabilidade eram os mesmos submetidos à degradação humana para desmatar partes da própria área protegida.

Essa dinâmica revela que o greenwashing não é apenas um erro de marketing, mas uma estratégia de gestão de crise que ignora a integridade das cadeias produtivas. Quando uma empresa poluidora adquire esses créditos sem o devido rigor de auditoria, ela não está apenas deixando de reduzir sua emissão direta; ela está financiando um sistema que potencializa conflitos territoriais e ignora a dignidade humana em nome de métricas abstratas de carbono.

A desterritorialização e o sequestro da autonomia

Uma das táticas mais insidiosas da pirataria de carbono é a imposição de contratos de longuíssima duração, que frequentemente ultrapassam os 30 anos. Esse modelo de negócio criou o fenômeno da desterritorialização territorializada. Nele, a comunidade permanece fisicamente em seu solo, mas perde a soberania sobre o modo de vida que o sustenta. Sob o pretexto de evitar o vazamento de carbono — termo técnico para impedir que a conservação em um ponto gere desmate em outro —, os contratos proíbem atividades ancestrais como o manejo da madeira, a coleta de frutos e até a agricultura de subsistência.

Essa lógica substitui os princípios coletivos e seculares de convivência com a natureza por uma racionalidade de mercado de capitais, pautada pela competitividade. A cooptação de lideranças é outra ferramenta comum. Ao oferecer cifras financeiras sedutoras a indivíduos específicos, as empresas desenvolvedoras rompem a coesão social das comunidades, gerando fraturas internas que enfraquecem a resistência contra cláusulas abusivas. O que se vê no Maranhão e no Pará é a transformação de territórios de vida em ativos financeiros rígidos, onde o povo passa a ser um obstáculo para o lucro de investidores do Norte Global.

Imagem: Vitaly Taranov
Imagem: Vitaly Taranov

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O escudo jurídico e a nova ordem do mercado

Para conter o avanço desses corsários modernos, o Brasil estabeleceu um novo marco legal com a Lei 15.042/2024. A legislação não apenas reconhece as falhas do passado, mas institui garantias robustas para as populações locais. O pilar central é a repartição obrigatória de benefícios: em projetos de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), as comunidades devem receber no mínimo 70% dos créditos gerados. Trata-se de uma inversão da lógica exploratória, garantindo que a riqueza gerada pela preservação retorne prioritariamente para quem de fato mantém a floresta viva.

Além da questão financeira, a lei blinda o direito à autodeterminação por meio da consulta livre, prévia e informada, conforme preconiza a Convenção 169 da OIT. Esse processo agora deve ser custeado integralmente pelo desenvolvedor do projeto, mas sob a vigilância rigorosa de órgãos como a Funai e o Ministério Público Federal. A norma também concede às comunidades o direito de exclusão incondicionada, permitindo que retirem suas terras de programas estatais a qualquer tempo, evitando que o governo comercialize créditos sobre seus territórios sem o devido repasse.

Canais de defesa e o papel das instituições

A proteção contra os piratas de carbono exige uma arquitetura de fiscalização multifacetada. O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) agora detém poderes sancionatórios reais, podendo aplicar multas que atingem o faturamento das empresas infratoras e suspender projetos suspeitos. Quando as irregularidades tocam o mercado financeiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) assume a competência exclusiva para punir fraudes em ativos de carbono.

No campo da sociedade civil, o papel de sentinela é desempenhado por entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que tem sido vital para denunciar a camuflagem de crimes ambientais em projetos certificados. Além disso, as certificadoras globais, como a Verra, enfrentam uma pressão crescente para investigar denúncias e inativar selos de projetos envolvidos em violações. A transparência e o acesso à justiça, através da 6ª Câmara do MPF e do Ministério dos Povos Indígenas, são as ferramentas finais para garantir que o mercado de carbono deixe de ser um território sem lei e passe a ser um instrumento genuíno de justiça climática e social.