Quem ensina a filantropia global a chegar à Amazônia? Fundo Casa mostra o caminho

Ag. Brasil
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Às vésperas da COP30, um encontro inusitado no Museu Paraense Emílio Goeldi virou símbolo de um novo diálogo global sobre filantropia climática.
Durante uma visita oficial à capital paraense, o Príncipe William, herdeiro do trono britânico, se reuniu com líderes de organizações socioambientais do Sul Global para discutir como tornar o fluxo de recursos internacionais mais ágil e eficaz. Entre os convidados estava Regilon Matos, o Régis, Gestor de Programas do Fundo Casa Socioambiental, que há duas décadas conecta comunidades de base e financiadores globais.

“Foi um daqueles encontros que você demora a perceber o tamanho do que viveu”, relembra Régis.
Ele havia ido a Belém como parte da comitiva do Fundo Casa para participar da COY20 – Conferência de Juventude pelo Clima e da própria COP30, quando recebeu um convite inesperado da Embaixada Britânica no Brasil para integrar uma roda de conversa sobre filantropia de impacto.
O encontro, promovido pela Next Generation Foundation, reuniu também Paula Tanscheit, da Alianza Socioambiental Fondos del Sur, e Fernanda Biasoli, do FunBEA, representando a Casa do Sul Global, rede que articula fundos comunitários de países em desenvolvimento.

Segundo Régis, o príncipe demonstrou genuíno interesse em compreender como os recursos internacionais podem chegar, com segurança e eficácia, às comunidades da Amazônia e de outros biomas brasileiros.
“Expliquei que existem desafios logísticos, claro. Mas existem muito mais soluções”, afirmou. “Os fundos da Rede Comuá e da Alianza Fondos del Sur desenvolveram mecanismos financeiros sólidos e transparentes para fazer o dinheiro chegar onde ele é mais necessário — às organizações locais que vivem a floresta todos os dias.”

Um modelo descentralizado de confiança e protagonismo

O Fundo Casa Socioambiental, criado em 2005, é referência na filantropia socioambiental brasileira. Seu diferencial está em um modelo de financiamento descentralizado e de base comunitária, que privilegia a autonomia dos territórios e o protagonismo local.
Ao longo de 20 anos, a organização já apoiou mais de 4,7 mil projetos em todo o país, abrangendo comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, urbanas e rurais.

Esse histórico faz do Fundo Casa um elo essencial entre financiadores internacionais e soluções locais, garantindo capilaridade e transparência.
“Existimos para mobilizar uma poderosa rede de apoio a pequenas iniciativas da sociedade civil e garantir que os recursos fluam com autonomia e confiança”, explica Cristina Orpheo, diretora-executiva da instituição. “As soluções estão nos territórios — é lá que o enfrentamento da crise climática acontece de fato.”

Reprodução
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Filantropia comunitária como estratégia climática

A atuação do Fundo Casa vai além do repasse de recursos. A organização entende a filantropia comunitária como parte estratégica da ação climática: fortalecer comunidades é fortalecer a resiliência dos ecossistemas.
Entre suas chamadas de 2025 estão “Fortalecendo o protagonismo local na agenda climática”, voltada à incidência política e à participação de organizações de base na formulação de políticas públicas; “Mata Atlântica Viva”, focada em restauração e conservação; e a segunda edição da “Educação para o Bem-Viver”, realizada em parceria com a Imaginable Futures.

Essas iniciativas demonstram uma visão ampliada de sustentabilidade — social, cultural e ambiental — e uma confiança de que as soluções mais eficazes contra as mudanças climáticas não vêm apenas de grandes cúpulas internacionais, mas das comunidades que vivem nos territórios em transformação.

Do encontro à inspiração global

A conversa com o Príncipe William sintetiza o que o Fundo Casa representa: uma ponte viva entre o local e o global.
Enquanto o mundo busca formas de ampliar o impacto da filantropia climática, o modelo brasileiro mostra que democratizar o acesso aos recursos é também uma forma de justiça climática.
“Ele queria entender o ‘como’ — como fazer o dinheiro chegar. E nossa resposta foi simples: com confiança, com redes, com escuta”, resume Régis.
A partir desse diálogo, o Fundo Casa reforça que a filantropia comunitária latino-americana não é apenas destinatária de recursos, mas produtora de conhecimento, metodologia e resultados mensuráveis, capaz de inspirar novas práticas globais.

Em um momento em que a COP30 coloca o planeta diante de decisões cruciais, o exemplo do Fundo Casa aponta um caminho concreto: o futuro da ação climática passa por financiar quem já cuida da Terra.