A boiada da IA e o preço climático do desenvolvimento digital
O Brasil entrou de vez na corrida global para atrair infraestruturas de inteligência artificial. Estados disputam data centers como se fossem novas fábricas do século 21, prometendo isenções fiscais, terrenos, energia barata e prioridade política. Mas, por trás da retórica da inovação, emerge um dilema pouco debatido: a troca silenciosa entre investimentos essenciais para adaptação climática e a atração de estruturas que concentram capital, consomem recursos naturais e geram poucos empregos. Essa lógica, que já marcou o desmonte ambiental em outros momentos da história recente, agora reaparece sob uma nova roupagem: a boiada da IA.

O caso do Rio Grande do Norte tornou-se emblemático. O estado, que enfrenta escassez hídrica recorrente, vulnerabilidade energética e desafios sociais profundos, passou a negociar pacotes agressivos de incentivos para receber grandes data centers de empresas globais de tecnologia. O discurso oficial fala em modernização e futuro digital. Os números, porém, contam outra história.
O pacote de bondades e o custo invisível das escolhas
Para garantir a instalação de um único data center, governos estaduais oferecem renúncias fiscais milionárias e redirecionam recursos que poderiam fortalecer políticas públicas estruturantes. No Rio Grande do Norte, propostas desse tipo levantaram questionamentos ao prometerem cerca de 50 empregos diretos em troca de subsídios que competem com orçamentos de saúde, educação e segurança.
Esse tipo de escolha escancara o chamado custo de oportunidade: cada real direcionado à atração de Big Techs deixa de financiar ações urgentes de adaptação climática, especialmente em regiões já pressionadas por eventos extremos. Em um país onde 94% dos municípios foram atingidos por desastres climáticos na última década, segundo dados do IBGE, a decisão de priorizar infraestruturas de baixo retorno social imediato ganha contornos de risco sistêmico.
O contraste torna-se ainda mais evidente diante do Plano Nacional de Arborização Urbana, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O PlaNAU trata a árvore como infraestrutura essencial, capaz de reduzir temperaturas urbanas em até 12 graus, mitigar enchentes, melhorar a saúde pública e enfrentar o apartheid ambiental que separa bairros arborizados de periferias expostas ao calor extremo. Quando estados drenam recursos para competir por data centers, o financiamento desse tipo de política se fragiliza.

A boiada digital e o velho roteiro do desmonte
A expressão “passar a boiada” entrou no vocabulário político brasileiro como sinônimo de flexibilizar regras ambientais sob o pretexto do desenvolvimento econômico. No universo digital, a lógica se repete. A inovação tecnológica vira argumento para relativizar exigências de licenciamento, consumo energético e uso intensivo de água.
Data centers são estruturas vorazes. Operam 24 horas por dia, exigem fornecimento constante de energia e grandes volumes de água para resfriamento dos servidores. Em estados do semiárido, onde a gestão hídrica já é um desafio permanente, essa demanda cria tensões diretas com o abastecimento humano e a preservação de ecossistemas frágeis.
Além disso, a promessa de desenvolvimento raramente se traduz em dinamização econômica local. Diferentemente de polos industriais tradicionais, data centers empregam pouca mão de obra e mantêm cadeias produtivas altamente concentradas. O resultado é uma modernização que consome recursos públicos sem distribuir benefícios de forma proporcional.
Equidade climática em xeque
A aprovação da Lei nº 15.042, que instituiu o mercado de carbono no Brasil, consolidou a equidade climática como princípio orientador das políticas ambientais. Na prática, isso significa reconhecer que os impactos da crise climática não são distribuídos de forma igual e que o Estado deve priorizar populações e territórios mais vulneráveis.
O PlaNAU incorpora essa lógica ao direcionar esforços para favelas, periferias e áreas com déficit histórico de infraestrutura verde. Árvores deixam de ser ornamento urbano e passam a ser ferramentas de justiça climática. Quando estados escolhem canalizar recursos para data centers, essa prioridade se inverte: o investimento público passa a atender interesses corporativos altamente capitalizados, enquanto comunidades seguem expostas a ilhas de calor, enchentes e doenças associadas ao ambiente degradado.
Há ainda uma dimensão ética pouco debatida. Grandes plataformas digitais são frequentemente citadas em estudos acadêmicos e relatórios internacionais como vetores de desinformação climática. Mesmo assim, recebem incentivos fiscais de governos que lutam para financiar planos básicos de adaptação e educação ambiental.

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A falha de coordenação no federalismo climático
Esse conflito revela uma fragilidade maior na governança brasileira: a dificuldade de coordenação entre os entes federativos. O princípio do Federalismo Climático, instituído pela Resolução nº 3 de 2024 do Conselho da Federação, estabelece a corresponsabilidade entre União, estados e municípios no enfrentamento da crise climática.
O desenho é claro. Cabe à União liderar, coordenar e financiar; aos estados, apoiar municípios, estruturar cadeias produtivas e planejar em escala regional; aos municípios, executar políticas locais e engajar a população. Quando estados entram em uma competição predatória por investimentos, esse arranjo se rompe.
Municípios, já limitados financeiramente, acabam arcando sozinhos com os custos da adaptação climática. A arborização urbana, a drenagem sustentável, a educação ambiental e a proteção de áreas verdes tornam-se responsabilidades locais sem respaldo orçamentário suficiente. O resultado é a ampliação das desigualdades territoriais e a perda de eficiência coletiva.
A alternativa passa por subordinar a política de atração de investimentos ao planejamento climático nacional. Data centers e outras infraestruturas digitais não são incompatíveis com a transição ecológica, mas precisam operar dentro de regras claras: uso de energia renovável adicional, neutralidade hídrica, compensações ambientais e contribuição direta para fundos de adaptação.
Sem isso, a boiada da IA corre o risco de atropelar o próprio futuro que promete construir. O Brasil pode sair dessa corrida não como líder tecnológico sustentável, mas como um país que abriu mão de sua resiliência climática em troca de servidores silenciosos e empregos escassos.












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