Cafeína e demência: o que a ciência realmente indica
A cada três segundos, um novo caso de demência é diagnosticado no mundo. O envelhecimento populacional transformou a perda cognitiva em um dos maiores desafios sanitários do século XXI. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 50 milhões de pessoas vivem atualmente com algum tipo de demência, número que deve triplicar até 2050. Diante desse cenário, cresce a busca por intervenções acessíveis, seguras e capazes de preservar a autonomia mental por mais tempo. Entre medicamentos de alto custo e terapias complexas, uma substância cotidiana emerge com força inesperada: a cafeína.

Uma revisão sistemática abrangendo 61 estudos publicados entre 1990 e 2020, envolvendo mais de 153 mil indivíduos em 24 países, aponta para um padrão consistente. O consumo habitual e moderado de cafeína está associado à redução do risco de declínio cognitivo e demência. Em cerca de 81% das análises, os resultados foram positivos — seja de forma independente, seja condicionados à dose, fonte ou perfil biológico do consumidor. Não se trata de milagre nutricional, mas de um sinal epidemiológico robusto que merece atenção estratégica.
A janela ideal parece situar-se entre 100 e 400 miligramas por dia — o equivalente aproximado a uma a quatro xícaras de café ou três a dez xícaras de chá. Abaixo desse patamar, os efeitos protetores tornam-se inconsistentes. Acima dele, surgem riscos como ansiedade e distúrbios do sono, fatores que podem anular ganhos cognitivos. A moderação, portanto, não é um detalhe: é a própria condição do benefício.
Por que a cafeína pode proteger o cérebro
Para além do hábito cultural, a cafeína atua como moduladora neurobiológica. Seu principal mecanismo envolve o bloqueio dos receptores de adenosina A1 e A2A, amplamente distribuídos no sistema nervoso central. Ao antagonizar esses receptores, a substância influencia a plasticidade sináptica e reduz processos inflamatórios associados ao envelhecimento cerebral.
Em modelos experimentais, a modulação do receptor A2A mostrou impacto sobre a deposição de beta-amiloide, proteína associada à doença de Alzheimer. Embora a extrapolação direta para humanos exija cautela, a convergência entre dados laboratoriais e estudos populacionais fortalece a hipótese de ação neuroprotetora.
Outro eixo relevante envolve a neuroinflamação. A cafeína reduz a ativação microglial e regula a liberação de glutamato, prevenindo fenômenos de excitotoxicidade que precedem o declínio cognitivo clínico. Soma-se a isso o efeito antioxidante indireto, especialmente quando a cafeína é consumida por meio do café ou do chá verde, ricos em polifenóis e catequinas.

Do ponto de vista vascular, a substância provoca vasoconstrição cerebral moderada, alterando o fluxo sanguíneo. Embora à primeira vista pareça contraditório, essa modulação pode aumentar a eficiência metabólica neural, otimizando a extração de oxigênio pelo tecido cerebral.
Quando a fonte faz diferença
Nem toda cafeína se comporta da mesma forma. A revisão indica que a origem da substância influencia os resultados. O café apresentou associação protetora em dois terços dos estudos que o analisaram isoladamente. Já o chá verde demonstrou proporção ainda mais elevada de resultados favoráveis quando comparado a chás oxidados, como o preto ou o oolong, que frequentemente não mostraram associação estatisticamente significativa.
Essa diferença sugere que a matriz alimentar importa. A cafeína isolada pode não reproduzir integralmente os efeitos observados quando acompanhada de compostos bioativos presentes nas bebidas tradicionais. O café, por exemplo, contém ácidos clorogênicos e outros antioxidantes que atuam de forma sinérgica.
Outro aspecto crucial é a duração do acompanhamento. Estudos de curto e médio prazo tendem a mostrar associações mais claras. Em análises muito prolongadas, surge um fenômeno conhecido como causalidade reversa: indivíduos que já iniciam declínio cognitivo podem reduzir espontaneamente o consumo de café por sensibilidade ao sono ou ansiedade, criando a impressão estatística de que o baixo consumo precedeu a demência.

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Perfil biológico e efeito diferencial
Os dados também revelam diferenças de resposta conforme sexo e idade. Mulheres parecem experimentar benefícios mais consistentes. Uma das hipóteses envolve a interação entre cafeína e hormônios como o estrogênio, que modulam a atividade dos receptores de adenosina.
Quanto à idade, o cenário é mais complexo. Alguns estudos indicam maior proteção em idosos acima de 70 anos, inclusive em nonagenários. Outros sugerem que o consumo iniciado na meia-idade confere maior vantagem acumulativa. Em qualquer caso, a regularidade ao longo da vida parece ser mais relevante que intervenções tardias e pontuais.
Entre indivíduos com comprometimento cognitivo leve (MCI), os achados são particularmente instigantes. Em três quartos dos estudos focados nesse grupo, a cafeína associou-se a melhor desempenho cognitivo ou menor progressão para demência. Níveis plasmáticos superiores a 1200 ng/ml foram vinculados a menor taxa de conversão para demência clínica. Esses dados sugerem que a substância pode atuar não apenas na prevenção primária, mas também no retardo da progressão.
Política pública e responsabilidade sanitária
Diante do custo crescente das terapias farmacológicas para demência, intervenções de baixo custo ganham relevância estratégica. Incorporar orientações sobre consumo moderado de café e chá verde em diretrizes alimentares pode representar medida simples, de ampla capilaridade e baixo impacto orçamentário.
No entanto, qualquer política deve ser calibrada com prudência. O consumo excessivo pode desencadear ansiedade, insônia e instabilidade cardiovascular, especialmente em indivíduos sensíveis ou portadores de doenças cardíacas. A recomendação deve ser personalizada e integrada a outras estratégias comprovadas, como atividade física regular e controle de fatores metabólicos.
A cafeína não substitui medicamentos nem resolve sozinha a complexidade da demência. Mas, dentro de uma abordagem de saúde pública que valorize prevenção e estilo de vida, ela surge como aliada plausível. Transformar um hábito cultural em ferramenta epidemiológica exige nuance, evidência e responsabilidade. A ciência sugere que a moderação cotidiana pode, de fato, ajudar a preservar aquilo que mais nos define: a capacidade de lembrar, aprender e reconhecer o mundo ao redor.











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