Calor extremo já começa a comprometer o aprendizado no Brasil

Reprodução - ICL
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Como o aquecimento global está corroendo o aprendizado no Brasil

O calor deixou de ser apenas um incômodo sazonal nas escolas brasileiras. Em um país onde grande parte das salas de aula já enfrentava problemas estruturais, o avanço das temperaturas médias transformou o ambiente escolar em um teste diário de resistência física e mental. O aquecimento global, antes tratado como tema distante dos livros de geografia, passou a interferir diretamente na capacidade de estudantes aprenderem, se concentrarem e permanecerem na escola.

Pesquisas recentes mostram que o impacto não é pontual. Ele se acumula ano após ano, moldando trajetórias educacionais e aprofundando desigualdades históricas. Em municípios que registraram maior elevação de temperatura, estima-se que estudantes percam cerca de 1% de aprendizado por ano letivo. Ao final do Ensino Médio, esse déficit pode equivaler a um ano e meio de conteúdo comprometido.

Cérebro sob estresse térmico

A relação entre temperatura e desempenho cognitivo é cada vez mais documentada. Estudos indicam que, acima de 24°C, funções como tempo de reação, precisão nas respostas e velocidade de processamento cerebral começam a cair. Em salas mal ventiladas, onde a sensação térmica ultrapassa facilmente os 30°C, o impacto se intensifica.

No Brasil, análises que cruzaram dados climáticos com resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), identificaram queda mensurável nas notas associada ao aumento de 1°C nos dois anos anteriores às provas. O efeito é ainda mais acentuado nos municípios mais pobres e quentes.

O que ocorre não é apenas distração momentânea. O calor altera o funcionamento fisiológico do corpo. Crianças desidratam-se mais rapidamente do que adultos, pois possuem frequência respiratória mais alta. A perda de líquidos afeta atenção, memória de curto prazo e disposição. Professores relatam situações em que o suor chega a molhar cadernos, dificultando a escrita. Em dias extremos, a aula praticamente não acontece: alunos pedem para sair a todo momento em busca de água ou de um pouco de ar fresco.

Além da queda no desempenho imediato, o prejuízo é cumulativo. A aprendizagem depende de encadeamento. Quando conteúdos não são plenamente assimilados em um ano, o impacto reverbera nos seguintes. O calor, portanto, não rouba apenas horas de concentração; ele compromete a base sobre a qual se constrói o conhecimento.

Foto: Reprodução/RBS TV
Foto: Reprodução/RBS TV

Corpos exaustos, mentes sobrecarregadas

Os efeitos físicos são visíveis. Relatos de desmaios, tonturas, dores de cabeça intensas e sensação constante de moleza tornaram-se frequentes em diversas regiões do país. Professores também sofrem. A sobrecarga térmica reduz a capacidade de manter a disciplina, organizar atividades e sustentar o ritmo pedagógico.

Em algumas situações, quadras e pátios descobertos tornam-se inutilizáveis sob sol intenso. Atividades físicas são suspensas. Em estados que enfrentaram ondas de calor acima de 40°C, como ocorreu no Sul nos últimos anos, o início do ano letivo chegou a ser adiado para proteger estudantes e profissionais da educação.

Há ainda o impacto emocional. O estresse térmico aumenta irritabilidade e agitação. Crianças com transtorno do espectro autista podem apresentar maior sensibilidade a ambientes quentes e barulhentos, exigindo saídas antecipadas ou adaptações improvisadas. Paralelamente, cresce entre jovens o sentimento de ecoansiedade, um medo persistente diante da crise climática e de seus desdobramentos. Pesquisas indicam que quase metade dos adolescentes relata preocupação constante com o futuro ambiental do planeta, o que afeta motivação e bem-estar.

Desigualdade climática dentro da escola

O calor não atinge todos da mesma forma. Ele expõe e amplia desigualdades. Escolas situadas em periferias urbanas e favelas sofrem com a falta de arborização e com a predominância de concreto e asfalto, que retêm calor e criam ilhas térmicas. Em muitas dessas instituições, mais da metade não possui qualquer área verde.

Há também um recorte racial evidente. Enquanto estudantes negros e pardos representam cerca de 40% dos matriculados em escolas menos quentes, eles ultrapassam 60% nas instituições onde o desvio de temperatura supera 8°C em relação à média da cidade. A injustiça climática se soma à desigualdade social.

A infraestrutura agrava o problema. Cerca de 70% das salas de aula públicas não dispõem de ar-condicionado. Muitas foram construídas com telhas de amianto ou materiais que absorvem calor, transformando salas em verdadeiros fornos. Em comunidades com infraestrutura urbana precária, a ausência de rede de esgoto e coleta regular de lixo potencializa riscos sanitários após enchentes, dificultando o retorno às aulas.

Quando desastres climáticos interrompem o calendário escolar, o impacto também é desigual. Em áreas de baixa renda, a média de dias letivos perdidos por eventos extremos pode ser várias vezes superior à registrada em regiões mais ricas. A necessidade de reorganizar a rotina familiar, sobretudo em lares chefiados por mulheres, pode contribuir para evasão escolar, especialmente entre meninas.

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Arquitetura, política pública e adaptação

Especialistas defendem que enfrentar o impacto do calor no aprendizado exige repensar a infraestrutura escolar. Não basta instalar aparelhos de ar-condicionado em prédios inadequados. É preciso integrar arquitetura, clima local e sustentabilidade.

Soluções baseadas na natureza são consideradas estratégicas: plantio de árvores, criação de pátios arborizados, hortas pedagógicas e telhados verdes ajudam a regular o microclima. No campo das reformas, destacam-se medidas como ventilação cruzada, ampliação de janelas, instalação de brises para sombreamento e uso de materiais com melhor isolamento térmico.

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), tem discutido parâmetros de desempenho térmico para edificações, buscando evitar que novas escolas sejam erguidas sem considerar o conforto ambiental. No âmbito do financiamento, o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), oferece linhas voltadas a iniciativas de sustentabilidade e melhoria da infraestrutura.

Ecotécnicas como painéis solares para geração de energia, cisternas para captação de água da chuva e uso de materiais de cores claras que refletem radiação solar também entram no debate. O objetivo não é apenas reduzir temperatura interna, mas criar ambientes resilientes diante de um cenário climático cada vez mais instável.

O desafio é estrutural. O calor nas escolas brasileiras deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano. Ele corrói aprendizado, fragiliza a saúde e aprofunda desigualdades. Se a educação é frequentemente apontada como caminho para romper ciclos de pobreza, ignorar o impacto do aquecimento global sobre o ambiente escolar significa aceitar que a crise climática também redesenhe o futuro das próximas gerações.