Onça-parda supera onça-pintada em distribuição, mas enfrenta crise de habitat

Foto: Diogo Lagroteria.
Foto: Diogo Lagroteria.

A mestre da adaptação e o salto para a sobrevivência

A onça-parda (Puma concolor), também reverenciada pelos nomes de suçuarana e leão-baio, ocupa o posto de segundo maior felino das Américas. Sua presença é um testemunho de resiliência biológica: do Alasca ao extremo sul do Chile, nenhum outro mamífero terrestre do Ocidente possui uma distribuição tão vasta. Com um corpo projetado para a agilidade, este felino ostenta as maiores patas traseiras entre todos os membros de sua família, o que lhe confere a habilidade de realizar saltos verticais de até 5,5 metros — o equivalente a pular um muro de dois andares com esforço mínimo.

Diferente de seus parentes do gênero Panthera, como o leão ou a onça-pintada, a onça-parda não possui a estrutura laríngea necessária para rugir. Sua “voz” é um miado agudo e potente, característica que, somada à sua pelagem uniforme que varia do cinza ao avermelhado, reforça sua aura de mistério e discrição. Os filhotes, entretanto, nascem com um figurino diferente: uma pelagem densamente pintada de marrom, uma camuflagem vital que os protege de predadores enquanto aguardam o retorno da mãe solitária das caçadas noturnas.

O labirinto da fragmentação e o risco genético

Apesar de sua extrema plasticidade ambiental — sendo capaz de viver em desertos, montanhas e até em canaviais paulistas —, a onça-parda enfrenta um inimigo silencioso: a fragmentação do habitat. Quando florestas contínuas são transformadas em ilhas de vegetação cercadas por pastagens ou estradas, as populações de onças ficam isoladas. Esse isolamento impede o fluxo gênico, levando à endogamia. O resultado é a depressão endogâmica, que pode causar problemas cardíacos e reduzir a fertilidade, ameaçando a viabilidade da espécie a longo prazo, como já observado em subpopulações críticas na Flórida.

 Imagem de árvores da floresta tropical próximas ao lençol freático, capturada na bacia hidrográfica de uma área de pesquisa na Reserva das Cuieiras, nos arredores de Manaus
Imagem de árvores da floresta tropical próximas ao lençol freático, capturada na bacia hidrográfica de uma área de pesquisa na Reserva das Cuieiras, nos arredores de Manaus

Além do empobrecimento genético, a perda de território força esses felinos a buscarem presas alternativas. Com a redução de animais silvestres como veados e capivaras nas matas degradadas, as onças acabam focando em rebanhos domésticos, o que gera o inevitável conflito com produtores rurais. O abate retaliatório ainda é uma das maiores causas de mortalidade da espécie no Brasil, especialmente no bioma Caatinga, onde a situação é classificada como “Em Perigo” pela ICMBio.

Estratégias de guerra para a paz no campo

Para reverter esse cenário, o Brasil implementa o Plano de Ação Nacional (PAN) Grandes Felinos. A estratégia não se resume à fiscalização, mas foca na criação de corredores ecológicos que conectam fragmentos florestais, permitindo que os machos jovens encontrem novos territórios sem precisarem cruzar áreas urbanas densas ou rodovias perigosas. Os atropelamentos em estradas, inclusive, são alvos de pesquisas de “ecologia de estradas”, que buscam implementar passagens subterrâneas e cercas para proteger a fauna em dispersão.

Projetos regionais de destaque, como o Projeto Onça Parda do Triângulo Mineiro e o Corredor das Onças na região de Campinas, utilizam o felino como uma “espécie-bandeira”. Ao proteger o habitat da onça-parda, protege-se indiretamente centenas de outras espécies de menor porte que compartilham o mesmo ecossistema. Essas iniciativas também promovem a educação ambiental, desmistificando a imagem da onça como uma ameaça aos humanos — ataques são raríssimos e geralmente ocorrem em situações de autodefesa — e ensinando técnicas de manejo de rebanhos para evitar prejuízos aos fazendeiros.

Foto: Diogo Lagroteria.
Foto: Diogo Lagroteria.

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O futuro da “Onça-Invisível”

Manter a onça-parda viva em nossas paisagens é garantir o equilíbrio trófico dos biomas. Como predador de topo, ela controla as populações de mesopredadores (carnívoros médios como quatis e raposas), evitando explosões populacionais que poderiam devastar ninhos de aves e populações de pequenos mamíferos. A sobrevivência da suçuarana depende de um esforço conjunto entre governo, ciência e iniciativa privada, especialmente no incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).

A onça-parda provou que consegue conviver na periferia do progresso humano, mas ela não pode sobreviver em ilhas. A conexão entre as matas é a conexão com a vida. Ao protegermos os caminhos desses felinos, estamos, na verdade, restaurando a própria malha da biodiversidade brasileira.

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