Crescimento da frota de carros expõe dilema ambiental do transporte no Brasil


Mais carros nas ruas, novos desafios para o meio ambiente

O mercado automotivo brasileiro voltou a ganhar fôlego em 2025. As vendas de automóveis e comerciais leves cresceram 2,58% em relação ao ano anterior, totalizando mais de 2,5 milhões de unidades emplacadas, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Quando todos os segmentos são considerados, incluindo caminhões, ônibus e motocicletas, o avanço chega a 8%, sinalizando retomada econômica e confiança do consumidor.

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Mas o crescimento da frota traz consigo um desafio ambiental cada vez mais evidente. Dados recentes do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários revelam que, apesar dos avanços tecnológicos, as emissões de dióxido de carbono do transporte rodoviário aumentaram cerca de 8% desde 2012. A explicação não está na ineficiência dos veículos, mas no aumento constante do número deles em circulação, que hoje ultrapassa 70 milhões no país.

O cenário expõe uma contradição: carros mais modernos, eficientes e menos poluentes individualmente convivem com ruas cada vez mais congestionadas, o que mantém elevado o volume total de emissões. Ainda assim, especialistas apontam que o problema não invalida os avanços tecnológicos — apenas mostra que eles precisam caminhar junto com políticas públicas mais amplas de mobilidade.

Eletrificação avança, mas não resolve tudo sozinha

A expansão dos veículos elétricos e híbridos no Brasil representa um dos movimentos mais relevantes da última década. Ao eliminar emissões diretas de gases poluentes e reduzir drasticamente o ruído urbano, esses modelos contribuem para a melhoria da qualidade do ar nas cidades. Além disso, motores elétricos são mais eficientes do ponto de vista energético, convertendo uma parcela maior da energia em movimento.

O avanço, no entanto, ainda não foi suficiente para compensar o crescimento da frota total. Mesmo com a eletrificação e com regras mais rígidas do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), o ganho ambiental por veículo vem sendo neutralizado pelo aumento da quantidade de automóveis nas ruas.

Outro ponto que ganha destaque no debate ambiental são as chamadas emissões não relacionadas ao escapamento. O desgaste de pneus e o uso dos freios já respondem por cerca de metade das partículas poluentes liberadas pelos veículos, um fenômeno observado também em países com frotas altamente eletrificadas. À medida que os motores se tornam mais limpos, essas fontes antes invisíveis passam a ocupar papel central na contaminação do ar urbano.

Ainda assim, especialistas defendem que a eletrificação é um passo essencial, desde que integrada a uma estratégia mais ampla. Para Vinícius Guahy, da Gaudium, a preferência por veículos mais eficientes reflete tanto a pressão do consumidor quanto a busca das empresas por operações mais sustentáveis.,

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Impactos ambientais vão além do uso do veículo

O debate sobre sustentabilidade no transporte também precisa considerar o ciclo de vida completo dos veículos. No caso dos carros elétricos, a produção das baterias de íon-lítio concentra parte significativa dos impactos ambientais. A extração de minerais como lítio, cobalto e níquel pode gerar degradação ambiental e conflitos sociais, além de demandar alto consumo energético na fabricação.

Esses desafios não anulam os benefícios dos veículos elétricos, mas reforçam a importância de políticas voltadas à reciclagem, à inovação tecnológica e ao uso de fontes renováveis na geração de energia. Instituições internacionais como a Agência Internacional de Energia (IEA) e organizações como a Union of Concerned Scientists (UCS) apontam que, mesmo considerando a produção das baterias, os carros elétricos emitem menos gases de efeito estufa ao longo de sua vida útil do que os veículos a combustão.

No Brasil, onde a matriz elétrica é majoritariamente renovável, esse potencial é ainda maior. A ampliação de sistemas de reciclagem de baterias e o desenvolvimento de tecnologias menos dependentes de minerais críticos são vistos como caminhos para reduzir a pegada ambiental da eletrificação.

Um futuro mais limpo passa por escolhas coletivas

Diante desse cenário complexo, o governo federal começa a sinalizar uma mudança de abordagem. Ministérios como o dos Transportes e o do Meio Ambiente defendem políticas que vão além da eficiência dos motores, incorporando planejamento urbano, melhoria da logística, incentivo aos biocombustíveis e redução da dependência do transporte individual.

Alternativas como veículos movidos a hidrogênio também entram no radar como soluções de médio e longo prazo. Ao utilizar células de combustível que geram eletricidade a partir do hidrogênio, esses veículos emitem apenas vapor d’água durante o uso. Embora ainda enfrentem desafios de custo e infraestrutura, representam uma promessa adicional para a descarbonização do setor.

O consenso entre especialistas é que não existe solução única. A combinação de tecnologias mais limpas, transporte coletivo eficiente, cidades mais compactas e mudança de hábitos pode transformar o atual dilema em oportunidade. O crescimento do mercado automotivo mostra que a sociedade segue demandando mobilidade. O desafio, agora, é garantir que essa mobilidade seja cada vez mais inteligente, limpa e alinhada aos limites ambientais.

O cenário é desafiador, mas não pessimista. Os dados indicam que o país já possui as ferramentas tecnológicas e institucionais para reduzir o impacto ambiental do transporte. Transformar esse potencial em realidade depende de escolhas coordenadas — do poder público, da indústria e dos cidadãos.