Sustentabilidade consolida nova era no Carnaval brasileiro


Sustentabilidade como estratégia das escolas de samba

O Carnaval sempre foi sinônimo de excesso: cores, sons, materiais, energia. Durante décadas, esse excesso também se traduziu em descarte. Fantasias abandonadas na dispersão, toneladas de plástico nas ruas, estruturas efêmeras desmontadas ao fim dos desfiles. O que antes era visto como consequência inevitável da festa começa a ser reinterpretado como oportunidade.

No contexto do Carnaval Verde, escolas de samba incorporam a sustentabilidade à própria estratégia de produção. Não se trata apenas de reciclar sobras, mas de repensar o ciclo de vida dos materiais desde a criação das fantasias até o pós-desfile.

Após cada apresentação, equipes organizadas recolhem fantasias deixadas na área de dispersão. O processo não é improvisado: há triagem, separação e destinação planejada. Peças em bom estado passam por reforma. Metais, plásticos e tecidos danificados são desmontados e encaminhados à reciclagem. O que antes se acumulava como lixo passa a ser tratado como insumo.

Essa lógica amplia o conceito de economia circular dentro do Carnaval. Em vez de extrair, produzir, usar e descartar, cria-se um ciclo contínuo de reaproveitamento. A festa deixa de ser apenas espetáculo e se transforma em laboratório de práticas sustentáveis em larga escala.

Cooperativas, renda e desenvolvimento local

O impacto mais visível desse modelo se manifesta nas comunidades onde as escolas de samba estão inseridas. Cooperativas de reciclagem formadas por moradores locais tornam-se protagonistas do reaproveitamento de materiais. Elas não apenas recebem resíduos: transformam-nos em novos produtos.

Plumas viram adereços reformulados. Estruturas metálicas são reaproveitadas. Tecidos ganham nova função em fantasias, artesanato e acessórios. O que era sobra torna-se mercadoria. O que era descarte vira fonte de renda.

Esse movimento fortalece o orçamento de famílias que vivem nos territórios das agremiações. A sustentabilidade, nesse contexto, deixa de ser conceito abstrato e assume dimensão concreta: é renda complementar, é trabalho coletivo, é dignidade.

Além do retorno financeiro, há um efeito simbólico importante. A comunidade passa a se reconhecer não apenas como público da escola, mas como parte ativa de sua cadeia produtiva. O vínculo entre território e agremiação se aprofunda. A festa não é algo que acontece na comunidade; ela acontece com a comunidade.

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Casa do Catador e Folia Verde: acolhimento e dignidade

A sustentabilidade do Carnaval também depende do reconhecimento dos catadores e catadoras que circulam pelas ruas durante os festejos. No Rio de Janeiro, a iniciativa conhecida como Casa do Catador opera como equipamento público temporário, coordenado pela Secretaria Municipal do Ambiente e Clima do Rio de Janeiro (SMAC), órgão vinculado à Prefeitura do Rio de Janeiro.

Durante o período oficial do Carnaval, a Casa do Catador oferece acolhimento humanizado a trabalhadores autônomos da reciclagem, especialmente aqueles em situação de rua. O espaço garante infraestrutura básica: local para descanso, alimentação, higiene pessoal e apoio psicossocial. Também auxilia na regularização de documentos e no cadastramento em programas públicos.

Outro eixo fundamental é a segurança. Equipamentos de Proteção Individual são distribuídos para reduzir riscos durante a coleta. Além disso, há organização logística para recebimento e encaminhamento adequado do material reciclável.

O Programa Folia Verde, igualmente vinculado à Prefeitura do Rio de Janeiro, complementa esse esforço ao estruturar a gestão de resíduos durante os eventos, incentivando o descarte consciente e a valorização da cadeia da reciclagem.

Em São Paulo, o nome Casa do Catador também identifica uma cooperativa participante da operação de reciclagem do Carnaval de rua. A iniciativa atua na recepção, pesagem e armazenamento de materiais coletados, fortalecendo a economia circular no município. Informações institucionais podem ser encontradas no portal da Prefeitura de São Paulo.

Ao integrar acolhimento social e gestão ambiental, essas ações reposicionam o trabalho do catador. Não se trata mais de atividade invisível nas margens da festa, mas de função reconhecida como peça essencial da sustentabilidade do Carnaval.

Materiais biodegradáveis e novas escolhas criativas

A transformação não ocorre apenas na destinação de resíduos, mas também na escolha dos materiais. O isopor e o plástico virgem, historicamente presentes em fantasias e estruturas, passam a ser substituídos por alternativas menos impactantes.

Bioplásticos produzidos a partir de cana-de-açúcar ou amido de milho ganham espaço. Tecidos orgânicos substituem fibras sintéticas derivadas do petróleo. O glitter convencional, composto por microplásticos, cede lugar a versões biodegradáveis feitas de celulose vegetal — e até ao glitter alimentício utilizado na confeitaria.

Até o confete muda de forma. Em vez de plástico ou papel laminado, surgem opções feitas de papel reciclado ou folhas secas trituradas. Copos reutilizáveis substituem descartáveis. Latas de alumínio, com alto índice de reciclagem, tornam-se preferíveis às embalagens plásticas.

Essas escolhas revelam uma mudança de mentalidade. A estética do Carnaval não é abandonada; ela é reinterpretada. O brilho continua, mas agora associado à responsabilidade ambiental.

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Cultura, economia e justiça social no mesmo desfile

O Carnaval Verde demonstra que sustentabilidade não é obstáculo à grandiosidade da festa. Ao contrário, pode ampliá-la. Quando materiais são reaproveitados, comunidades são fortalecidas e catadores recebem suporte digno, cria-se um ecossistema onde cultura, economia e justiça social desfilam lado a lado.

O impacto ultrapassa os dias de folia. Ele se prolonga no desenvolvimento local, na geração de renda e na construção de políticas públicas mais integradas. A festa que sempre representou identidade e resistência passa a simbolizar também inovação socioambiental.

A sustentabilidade, nesse cenário, deixa de ser palavra de efeito e se torna prática cotidiana. E o Carnaval, ao assumir esse compromisso, reafirma sua capacidade histórica de reinventar o Brasil — inclusive na forma como produz, consome e descarta.