China entre a diplomacia política e o desafio climático global
O presidente da China, Xi Jinping, parabenizou nesta terça-feira o presidente da República Centro-Africana, Faustin-Archange Touadéra, por sua reeleição, reafirmando a centralidade da África na política externa chinesa. Na mensagem, divulgada pela agência estatal Xinhua, Xi destacou o fortalecimento da confiança política entre os dois países, o apoio mútuo em temas considerados sensíveis e o avanço da cooperação em múltiplas áreas, sinalizando a disposição de aprofundar a parceria estratégica no contexto do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC).

A saudação protocolar, no entanto, ocorre em um momento em que a presença chinesa no continente africano e no sistema internacional passa por um escrutínio cada vez mais atento, especialmente no campo ambiental e climático. Enquanto Pequim projeta uma imagem de liderança verde no Sul Global, estudos recentes indicam que o caminho da China rumo à sustentabilidade é mais ambíguo, marcado por avanços relevantes, mas também por contradições estruturais profundas.
O peso ambiental do crescimento chinês
A China é hoje o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, respondendo por cerca de 30% das emissões globais. Segundo dados compilados por instituições como o World Bank e a International Energy Agency – IEA, o país combina investimentos maciços em energias renováveis com a permanência de uma matriz energética fortemente dependente do carvão. Mais de metade do carvão consumido no mundo é queimado em território chinês.
Embora Pequim tenha estabelecido metas ambiciosas — como atingir o pico de emissões antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060 —, esses compromissos não são juridicamente vinculantes. Além disso, a expansão de setores estratégicos, como inteligência artificial, digitalização e grandes centros de dados, tem elevado o consumo energético e tensionado os objetivos climáticos.
Pesquisas apontam que, apesar de ganhos em eficiência energética e redução da intensidade de carbono por unidade de PIB, as emissões absolutas continuam crescendo. A modernização industrial e o avanço das chamadas “tecnologias verdes” coexistem com velhas práticas extrativistas, o que alimenta críticas sobre greenwashing e falta de transparência nos dados ambientais divulgados pelo governo central e pelas províncias.

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Governança ambiental e centralização do poder
A política ambiental chinesa evoluiu significativamente desde os anos 1980, quando praticamente não existia uma estrutura estatal dedicada ao tema. Hoje, o Ministry of Ecology and Environment coordena estratégias nacionais, enquanto órgãos como a National Development and Reform Commission e a National Energy Administration atuam no planejamento energético e climático.
Nos últimos anos, o governo reforçou a centralização do controle ambiental, vinculando metas ecológicas à avaliação de desempenho de autoridades locais. Essa abordagem permitiu avanços pontuais, como a modernização de usinas a carvão e o fechamento de instalações altamente poluentes. Por outro lado, reduziu o espaço para iniciativas locais, participação pública e atuação de organizações não governamentais, elementos considerados essenciais para uma transição ambiental duradoura.
Especialistas divergem sobre a eficácia do chamado “ambientalismo autoritário”. Enquanto alguns veem na capacidade de coordenação central um trunfo para enfrentar emergências climáticas, outros alertam que a ausência de transparência, controle social e engajamento cidadão pode comprometer os resultados no longo prazo.
China, África e a exportação do carbono
No plano internacional, a China tem buscado reposicionar sua atuação climática. Em 2021, Xi Jinping anunciou na ONU que o país deixaria de financiar novas usinas de carvão no exterior. Desde então, projetos de energia limpa passaram a ocupar espaço crescente na cooperação com a África, incluindo 30 novos empreendimentos anunciados no FOCAC de 2024.
Empresas como a China State Grid Corporation e a China Southern Power Grid lideram investimentos em expansão de redes elétricas, enquanto grupos como a Huawei atuam em soluções descentralizadas, como sistemas solares fora da rede, a exemplo de projetos em Camarões. Em 2023, Pequim lançou o programa Africa Solar Belt, voltado ao atendimento de comunidades rurais por meio de mini-redes solares.
Ainda assim, analistas alertam que parte significativa da chamada transição verde chinesa implica a exportação indireta de emissões. A produção de painéis solares, baterias e cimento — setores dominados pela China — permanece altamente intensiva em carbono devido ao uso de carvão. Além disso, há preocupações quanto ao risco de endividamento dos países africanos e à sustentabilidade financeira dos projetos, especialmente em áreas remotas.
Para a União Europeia, que financia pesquisas críticas sobre o tema por meio de iniciativas como a European Union e centros acadêmicos independentes, a recomendação é clara: cooperar com a China de forma seletiva, exigindo transparência, protegendo interesses estratégicos e evitando ilusões sobre uma liderança climática chinesa sem contrapartidas concretas.
No balanço final, a China segue sendo um ator indispensável na agenda climática global. Mas entre discursos diplomáticos, investimentos verdes e persistência do carvão, o país ainda caminha sobre uma linha tênue entre protagonismo ambiental e reprodução de um modelo de desenvolvimento que o próprio planeta já não consegue sustentar.












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