Chuvas extremas colocam Amazônia e Sul em alerta máximo
O Brasil atravessa mais um episódio de chuvas intensas que expõe, de forma dramática, a vulnerabilidade de diferentes regiões do país diante de um clima cada vez mais instável. Nesta sexta-feira, alertas de perigo foram emitidos para áreas da Amazônia e do Sul, com previsão de volumes elevados de precipitação, ventos que podem chegar a 100 km/h e risco concreto de enchentes, deslizamentos e interrupções no fornecimento de energia.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, estados como Amazonas, Pará, Mato Grosso e Rondônia estão sob alerta para chuvas entre 30 e 60 milímetros por hora, com acumulados diários que podem alcançar 100 milímetros. O cenário se repete no Rio Grande do Sul e em áreas do sul e oeste de Santa Catarina, onde também há risco de granizo e tempestades severas.
No Norte do país, a situação é agravada pela atuação da Zona de Convergência Intertropical, sistema climático que favorece a formação de nuvens carregadas e temporais persistentes. Em partes do Amapá, do oeste do Amazonas e do sul do Pará, os acumulados podem ultrapassar 150 milímetros em poucos dias, pressionando rios, igarapés e comunidades ribeirinhas.
Rios sob pressão e cidades vulneráveis
O avanço das chuvas intensas eleva o risco de inundações graduais, especialmente em regiões onde os rios já operam próximos do limite. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais aponta condições moderadas para o transbordamento de rios e igarapés em áreas do Acre e do Amazonas, como Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Tefé, devido à propagação das ondas de cheia.
No Sul, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul mantém todo o estado em alerta para tempestades, com preocupação especial em áreas do interior, onde há risco de destelhamentos, quedas de árvores e alagamentos. Episódios recentes mostram que, quando a chuva se soma a ventos intensos, os danos à infraestrutura urbana e rural tendem a se multiplicar.
O Sudeste também sente os efeitos do tempo instável. Regiões metropolitanas e cidades do interior de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro enfrentam risco de enxurradas, extravasamento de córregos e deslizamentos de terra, segundo monitoramento do Cemaden. Em áreas densamente urbanizadas, a impermeabilização do solo e a canalização de rios reduzem a capacidade de absorção da água, transformando chuvas fortes em eventos potencialmente letais.

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Aquecimento global altera o regime das chuvas
Para cientistas do clima, o aumento da frequência e da intensidade dessas chuvas não é um fenômeno isolado, mas parte de um padrão global associado ao aquecimento da atmosfera. O físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo, explica que o aquecimento global altera profundamente o ciclo hidrológico do planeta, mudando quando, onde e quanto chove.
Com temperaturas mais altas, a atmosfera passa a reter mais vapor d’água, funcionando como uma esponja carregada. Quando esse volume se libera, a precipitação tende a ser mais concentrada e violenta. O resultado são chuvas intensas em curtos períodos, intercaladas com secas prolongadas, um padrão cada vez mais evidente no Brasil.
Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, elaborado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a Organização Meteorológica Mundial, indicam que eventos extremos já se tornaram mais prováveis e mais intensos devido à ação humana. Estudos coordenados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, pela Rede Clima, pela WWF-Brasil e pelo Instituto Alana apontam que algumas regiões do Brasil já registraram aumento de até 3 °C na temperatura média.
Esse aquecimento influencia diretamente o regime de chuvas. No Sudeste e em partes da Amazônia, a tendência é de precipitações mais volumosas, enquanto áreas do Nordeste e do Centro-Oeste enfrentam secas mais severas. O fenômeno El Niño, embora natural, atua como fator agravante em um planeta mais quente, intensificando extremos climáticos e favorecendo tempestades mais destrutivas no Sul.
Impactos sociais, econômicos e o desafio da adaptação
As consequências das chuvas extremas vão além dos danos imediatos. Deslizamentos, inundações e enxurradas afetam a segurança alimentar, a produção agrícola, a saúde pública e a geração de energia. Segundo especialistas, a chuva é um dos fatores climáticos com maior impacto socioeconômico, pois afeta diretamente cidades, estradas, lavouras e sistemas elétricos.
O setor energético, fortemente dependente de recursos naturais, é especialmente vulnerável. Enchentes podem comprometer usinas, redes de transmissão e sistemas de distribuição, enquanto períodos de seca reduzem a capacidade de geração hidrelétrica. Ao mesmo tempo, a saúde pública sofre com o aumento de doenças infecciosas associadas às enchentes, como alertam órgãos do Ministério da Saúde.
Estudos também indicam que eventos extremos já provocam deslocamentos populacionais. Apenas em 2019, quase 300 mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas no Brasil em razão de desastres climáticos. A tendência é que esse número cresça se medidas de adaptação e prevenção não forem aceleradas.
Pesquisadores defendem investimentos urgentes em sistemas de monitoramento, planejamento urbano mais resiliente e integração entre ciência, Defesa Civil e políticas públicas. Mais do que reagir aos desastres, o desafio é evitar que essas tragédias se tornem parte de uma nova normalidade climática em um país cada vez mais exposto aos efeitos do aquecimento global.











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