A memória submersa das águas amazônicas enfrenta um de seus momentos mais críticos sob a pressão das engrenagens do comércio internacional. No leito do Rio Tapajós, onde o silêncio das profundezas guarda vestígios de civilizações ancestrais e urnas funerárias milenares, uma operação de larga escala pretende redesenhar a geografia fluvial para facilitar o escoamento de safras agrícolas. O conflito entre a preservação de um patrimônio arqueológico inestimável e a voracidade das rotas logísticas revela uma disputa onde o passado do Brasil corre o risco de ser triturado por máquinas de sucção em nome de uma eficiência econômica imediata.

O silêncio profanado das urnas ancestrais
Nas proximidades de regiões estratégicas para o transbordo de cargas, o fundo do rio deixa de ser um ecossistema vivo para ser tratado tecnicamente como um obstáculo. Levantamentos realizados por especialistas em infraestrutura e pesquisadores independentes apontam que o novo plano de intervenção fluvial expandiu suas áreas de atuação para trechos onde o registro histórico é denso e sensível. Em localidades como o distrito de Santarenzinho, o leito abriga sítios arqueológicos submersos que guardam a história de povos que habitavam a região muito antes da chegada dos colonizadores. Para as lideranças tradicionais, essas áreas não são meros depósitos de sedimentos, mas a morada sagrada de seus antepassados e entidades espirituais conhecidas como encantados.
A técnica utilizada para aprofundar os canais de navegação funciona como uma gigantesca escavadeira hidráulica que opera às cegas sob a coluna d’água. Ao remover o fundo do rio para atingir o padrão técnico exigido para grandes comboios de carga, o processo de dragagem pode despedaçar artefatos de cerâmica e remover contextos arqueológicos inteiros que nunca foram devidamente estudados. Para o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), essa intervenção representa uma forma de apagamento cultural. A destruição física do patrimônio submerso é vista como uma ferida na identidade dos povos locais, que consideram o rio uma extensão de seus próprios corpos e territórios.
A urgência jurídica e o atropelo dos estudos ambientais
O avanço dessas obras tem sido viabilizado por meio de mecanismos jurídicos de emergência, frequentemente justificados por crises climáticas e secas extremas que dificultam a navegação. Sob o pretexto de garantir o abastecimento e a competitividade das exportações, o governo federal, através do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), acelerou processos de licitação que, em condições normais, exigiriam anos de estudos detalhados. Essa estratégia de emergência permite que editais milionários sejam lançados sem a realização completa de Estudos de Impacto Ambiental e, crucialmente, sem a consulta prévia às comunidades afetadas, conforme exigido por tratados internacionais de direitos humanos.
Um grupo de diversas empresas do setor de engenharia e serviços ambientais apresentou propostas para assumir essas operações nos próximos cinco anos. O mercado de dragagem na Amazônia consolidou-se como uma indústria robusta, alimentada por contratos que ultrapassam as dezenas de milhões de reais. No entanto, o histórico de intervenções realizadas sob regime de urgência levanta questionamentos sobre a profundidade da análise técnica em relação aos danos irreversíveis. O uso de decretos temporários para autorizar intervenções permanentes na morfologia dos rios cria um cenário onde a pressa logística ignora a cautela arqueológica e ambiental necessária para proteger o Baixo Amazonas.

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O dilema da sustentabilidade e o ecocídio invisível
Existe uma narrativa oficial que defende as hidrovias como a alternativa de transporte mais sustentável para o país. Órgãos como a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) argumentam que a emissão de gases de efeito estufa por tonelada transportada é significativamente menor em barcaças do que em caminhões. Contudo, essa métrica ignora os danos ecológicos e sociais localizados. O revolvimento do leito do rio durante a dragagem não apenas destrói sítios arqueológicos, mas também libera metais pesados, como o mercúrio, que estavam depositados no sedimento, reintroduzindo toxinas na cadeia alimentar que sustenta as populações ribeirinhas.
Entidades como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ibama já emitiram alertas técnicos sobre como essas obras coincidem com áreas especialmente protegidas. O impacto na fauna aquática, incluindo espécies ameaçadas como o boto-cor-de-rosa e o peixe-boi, é frequentemente subestimado em nome do selo verde das hidrovias. Esse fenômeno, interpretado por especialistas como uma forma de maquiagem verde, utiliza benefícios climáticos globais para justificar prejuízos irreparáveis aos ecossistemas regionais e ao patrimônio cultural submerso, transformando rios vivos em meras esteiras de escoamento para o agronegócio.

O impasse judiciário e a preservação do passado
A resistência contra a destruição da memória do Tapajós encontrou voz no Ministério Público Federal (MPF), que tem recomendado a suspensão imediata dos processos de licitação e das intervenções mecânicas. O argumento central é de que o Estado não pode ignorar a existência de bens culturais e arqueológicos em prol de uma facilidade logística momentânea. A morosidade característica do sistema judiciário brasileiro torna-se um fator de risco adicional; com milhares de processos ambientais aguardando julgamento, o tempo médio para uma decisão final costuma ser maior do que o prazo para que o dano se torne definitivo ou o crime prescreva.
A batalha jurídica no Baixo Amazonas é um reflexo de um dilema nacional maior sobre o significado de desenvolvimento. A proteção dos sítios arqueológicos de Santarenzinho e outras regiões não é apenas uma questão de preservar objetos antigos, mas de respeitar o direito de uma nação ao seu próprio passado e à sua diversidade cultural. Se as dragas avançarem sem o rigor científico e o respeito aos territórios sagrados, o Brasil perderá páginas inteiras de sua história pré-colonial que ainda não foram lidas. O futuro das águas do Tapajós depende agora da capacidade das instituições em equilibrar a balança entre a necessidade de transportar grãos e o dever de proteger a alma e a história do território amazônico.












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