Cooperativas transformam resíduos em energia e renda

Mônica Garcia varrendo e guardando os materiais da Torre Verde; ao fundo, a estrutura de andaime sendo desmontada por funcionários da Safecon. Fotos: Michel Silva
Mônica Garcia varrendo e guardando os materiais da Torre Verde; ao fundo, a estrutura de andaime sendo desmontada por funcionários da Safecon. Fotos: Michel Silva

Energia, resíduos e autonomia: quando a favela vira usina de inovação

Durante muito tempo, periferias urbanas foram vistas apenas como territórios de carência. Carência de infraestrutura, de moradia adequada, de serviços básicos. Mas um novo olhar começa a se consolidar: o de que esses territórios também podem ser polos de inovação socioambiental. Ao integrar cooperativismo, economia circular, geração local de energia renovável e tecnologia BIM, comunidades de baixa renda deixam de ser apenas consumidoras de recursos para se tornarem produtoras de energia, gestoras de resíduos e protagonistas do próprio desenvolvimento.

Essa transformação não parte de uma fórmula pronta, mas de convergências estratégicas. Cooperativas fortalecem cadeias locais, startups democratizam o acesso a materiais e tecnologias, organizações sociais estruturam redes de apoio e ferramentas digitais organizam o fluxo de recursos. O resultado é um ecossistema capaz de reduzir custos, gerar renda e ampliar a resiliência urbana.

Cooperativismo e economia circular nas periferias

A economia circular propõe substituir o modelo linear de extrair, produzir e descartar por um sistema que reaproveita, reintegra e valoriza materiais ao longo do tempo. Nas periferias, onde o descarte irregular e a informalidade marcam o cotidiano, esse conceito encontra terreno fértil.

Cooperativas surgem como engrenagens centrais desse processo. Ao organizar a coleta, a triagem e o processamento de resíduos da construção civil e de eletroeletrônicos, elas estruturam o que se convencionou chamar de mineração urbana. Materiais antes vistos como entulho passam a ser insumos com valor econômico.

Essa dinâmica gera impacto direto na renda local. Ao invés de pagar para remover resíduos, a comunidade pode transformá-los em agregados reciclados, blocos de vedação ou componentes reaproveitáveis. A renda permanece no território, estimulando microempreendedores e fortalecendo cadeias produtivas internas.

Iniciativas como a startup ReLóco ampliam esse movimento ao facilitar o acesso a materiais de construção de qualidade para moradores de baixa renda. Ao reduzir o custo de aquisição e estimular práticas mais eficientes, a empresa contribui para diminuir desigualdades no poder de compra.

No campo social, a ONG Decor Social atua na melhoria de ambientes em comunidades vulneráveis, conectando voluntários, parceiros e moradores para promover dignidade habitacional. Já a empresa 5Marias trabalha com educação ambiental voltada ao pequeno gerador de resíduos, orientando sobre descarte correto e logística reversa.

Essas iniciativas demonstram que a economia circular não é apenas uma agenda ambiental, mas também uma estratégia de inclusão produtiva.

Foto: Reprodução/jcomp/Freepik
Foto: Reprodução/jcomp/Freepik

Habitação social como plataforma de sustentabilidade

Quando os princípios circulares são incorporados às políticas de habitação social, o impacto se multiplica. Projetos podem prever desde o uso de materiais reciclados até sistemas de geração de energia renovável integrados às edificações.

O conceito de Casa Orgânica ilustra esse potencial. Trata-se de um modelo de edificação que produz sua própria energia a partir do sol, do vento e do biogás, além de integrar sistemas de reuso de água. Embora não seja restrito a comunidades de baixa renda, o conceito serve como referência para municípios e cooperativas que buscam soluções autossustentáveis.

Ao reduzir despesas com energia e água, a moradia deixa de ser apenas abrigo e passa a funcionar como infraestrutura produtiva. Telhados solares, microgeração eólica e biodigestores podem ser geridos coletivamente por cooperativas de energia renovável, criando um ciclo no qual a própria comunidade administra sua matriz energética.

Essa integração fortalece a resiliência. Em contextos de instabilidade econômica ou eventos climáticos extremos, a produção local de energia e o reaproveitamento de recursos reduzem a dependência de sistemas centralizados. A favela, muitas vezes vista como problema urbano, pode se transformar em laboratório de soluções replicáveis.

BIM 1068x668 1

SAIBA MAIS: 

BIM e logística reversa: tecnologia a serviço do território

A consolidação desse modelo exige organização. É nesse ponto que o BIM, sigla para Building Information Modeling, assume papel estratégico. Mais do que um software de modelagem tridimensional, o BIM é uma plataforma de gestão de informações ao longo do ciclo de vida da edificação.

Ao extrair quantitativos precisos de materiais, o sistema permite estimar o volume de resíduos que será gerado em cada etapa da obra. Essa previsibilidade é crucial em áreas com pouco espaço para armazenamento e alta densidade construtiva.

Quando integrado ao cronograma físico, o chamado BIM 4D adiciona a dimensão tempo ao modelo digital. Isso significa saber não apenas quanto resíduo será produzido, mas exatamente quando ele estará disponível. A gestão deixa de ser reativa e passa a ser planejada.

Esse nível de detalhamento favorece a aplicação do conceito de Vendor Managed Inventory, no qual fornecedores ou usinas de reciclagem acompanham os dados da obra e organizam o fluxo reverso de materiais. A comunidade informa as datas de concretagem e volumes previstos; a usina programa o processamento e o retorno dos agregados reciclados no momento adequado.

O modelo digital também funciona como banco de materiais. Cada componente pode ser rastreado quanto à origem, composição e potencial de reaproveitamento. Isso abre caminho para o design for disassembly, ou design para desmontagem, no qual edificações são projetadas para facilitar a desconstrução seletiva no futuro. Em vez de demolição e entulho, há retirada planejada e reinserção no ciclo produtivo.

Para comunidades de baixa renda, essa lógica representa economia direta e geração de trabalho qualificado. Técnicos locais podem se especializar na gestão de modelos BIM, na triagem de resíduos e na produção de novos insumos.

Autonomia energética e desenvolvimento comunitário

A convergência entre cooperativismo, economia circular, energia renovável e BIM aponta para um novo paradigma de desenvolvimento periférico. Em vez de esperar por soluções externas, comunidades estruturam sistemas próprios de produção e gestão de recursos.

Uma cooperativa de energia renovável instalada em uma favela pode administrar painéis solares compartilhados, negociar excedentes com concessionárias e reinvestir lucros em melhorias urbanas. Associada a cooperativas de resíduos e a plataformas digitais de gestão, ela fecha ciclos produtivos dentro do próprio território.

Essa transformação não elimina desafios regulatórios, financeiros e técnicos. No entanto, demonstra que inovação não é exclusividade de centros empresariais ou tecnológicos. Pode emergir também de vielas e lajes, quando há articulação entre conhecimento técnico e organização comunitária.

A economia circular, nesse contexto, deixa de ser conceito abstrato e se materializa em blocos reciclados, telhados solares e cronogramas digitais. É a tecnologia dialogando com a realidade social, e não o contrário.

Ao transformar resíduos em recurso e moradia em infraestrutura produtiva, as periferias redesenham seu papel na cidade. De áreas marginalizadas, passam a ser territórios estratégicos na transição para um modelo urbano mais justo, resiliente e sustentável.