O vice-primeiro-ministro do Reino Unido, David Lammy, lançou um alerta carregado de expectativa e urgência durante a Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2025, realizada nesta segunda-feira em Nova Iorque. Em discurso preparado, Lammy afirmou que a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), marcada para novembro em Belém do Pará, deve ser um verdadeiro “ponto de virada” na corrida contra a crise climática.

O dirigente britânico destacou o papel central do Brasil na condução do processo, elogiando o empenho do país em fortalecer o multilateralismo e garantir que a conferência seja não apenas mais um encontro, mas uma oportunidade concreta de acelerar a ação climática global. “O foco claro do Brasil em fazer o multilateralismo funcionar na COP30 em Belém merece ser parabenizado”, declarou.
Entre esperança e insuficiência
Ao olhar para o histórico recente, Lammy fez questão de mostrar que avanços existem, ainda que estejam aquém do necessário. Ele lembrou que, antes do Acordo de Paris, assinado em 2015, o mundo caminhava para um cenário alarmante, em que o aquecimento global poderia atingir 4ºC até o final do século. Com os compromissos assumidos pelos países, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), o horizonte foi ajustado para 2,6ºC.
O número pode parecer uma vitória parcial, mas não elimina os riscos. “O progresso é real, mas não é suficiente”, advertiu. Se todas as metas de neutralidade de carbono – os compromissos de Net Zero – forem cumpridas integralmente, haveria chance de limitar o aumento a 1,9ºC. Ainda assim, esse cenário depende de um esforço coletivo e de uma disciplina internacional que até agora não foi plenamente demonstrada.

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COP30 em Belém: símbolo e responsabilidade
A escolha de Belém, no coração da Amazônia, como sede da COP30, não é apenas uma questão logística, mas uma afirmação política e simbólica. O território amazônico, que abriga uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, tornou-se também um campo de batalha global contra o desmatamento, a degradação ambiental e a violação de direitos de comunidades tradicionais.
Ao elogiar a condução brasileira, Lammy também sinaliza a expectativa da comunidade internacional de que o evento seja uma oportunidade para alinhar compromissos, fortalecer a cooperação entre países e dar centralidade à Amazônia nas negociações climáticas. O Reino Unido, que já sediou a COP26 em Glasgow, entende o peso diplomático e político de realizar um encontro dessa magnitude em um local estratégico.
Entre o discurso e a prática
As palavras do vice-primeiro-ministro britânico expõem a contradição central do debate climático: embora avanços tenham sido alcançados desde Paris, a distância entre promessas e resultados concretos permanece significativa. Muitos países, inclusive grandes emissores, ainda caminham lentamente na implementação de políticas que tornem suas NDCs e metas de Net Zero factíveis.
Esse descompasso ameaça corroer a credibilidade do processo multilateral, que depende da confiança mútua para se sustentar. Se a COP30 for de fato um “ponto de virada”, como defende Lammy, isso só ocorrerá se os países trouxerem a Belém não apenas discursos, mas compromissos claros de financiamento, tecnologia e cooperação.
Um chamado à ação coletiva
Ao situar a COP30 como momento decisivo, Lammy reforça a urgência de abandonar a complacência. A retórica de avanços graduais, embora reconheça conquistas diplomáticas, não basta diante de eventos climáticos extremos que já impactam vidas, economias e ecossistemas. A ciência climática tem sido clara: cada fração de grau importa, e o atraso em cortar emissões significa multiplicar os riscos de catástrofes irreversíveis.
O discurso do vice-primeiro-ministro também aponta para a responsabilidade compartilhada. Não há mais espaço para um jogo de empurra entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O desafio climático exige novas alianças, inovação tecnológica e, sobretudo, coragem política para enfrentar lobbies e interesses de curto prazo.
A hora da Amazônia
Com o mundo voltado para Belém, a COP30 será inevitavelmente marcada pela expectativa de que o Brasil exerça um papel de liderança que vá além das palavras. A região amazônica é ao mesmo tempo vítima e protagonista da crise climática: de um lado, sofre com queimadas, desmatamento e conflitos socioambientais; de outro, possui o maior potencial de soluções naturais para equilibrar o clima do planeta.
O elogio de David Lammy ao Brasil deve, portanto, ser lido também como um chamado à responsabilidade. O país terá a missão de provar que pode conciliar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e justiça social, oferecendo ao mundo um exemplo de como o multilateralismo pode produzir resultados concretos.
Se a COP30 será ou não o “ponto de virada” sonhado por Lammy, dependerá menos da retórica dos discursos e mais da capacidade dos países em transformar promessas em realidade. Para isso, Belém terá de ser mais do que palco: precisará se tornar memória viva de um momento em que o mundo, enfim, decidiu agir.














































