Desmatamento recua no Brasil, mas pressão persiste e monitoramento vira peça-chave
O Brasil atravessa um momento ambíguo na agenda ambiental. De um lado, os números mais recentes indicam redução consistente do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. De outro, especialistas alertam que o ritmo da queda ainda é insuficiente diante da emergência climática e do risco de colapso ecológico em áreas críticas. No centro desse debate está a capacidade de monitoramento do território — uma disputa tecnológica e política que envolve satélites, fiscalização e pressão internacional.

A seguir, um retrato da situação atual do desmatamento no país e dos instrumentos que tentam contê-lo.
Quedas expressivas na Amazônia e no Cerrado
Os dados mais recentes do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostram uma inflexão relevante. Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, os alertas de desmatamento na Amazônia Legal caíram 35% em comparação com o mesmo período anterior. No Cerrado, a redução foi de 6%.
Quando se observa a série mais ampla, medida pelo sistema Prodes — que consolida a taxa anual oficial — a queda acumulada entre 2022 e 2025 alcança 50% na Amazônia e 32,3% no Cerrado. A degradação florestal, indicador que mede danos que antecedem o corte raso, despencou 93% na Amazônia, saindo de 44.555 km² para 2.923 km² no período analisado.
O estado do Pará superou a média nacional, com redução de 40% nos alertas do Deter no último ciclo. O desempenho estadual reforça a percepção de que ações combinadas de fiscalização e embargo de áreas têm surtido efeito em regiões historicamente pressionadas.
Os dados são produzidos e sistematizados pelo INPE, órgão responsável por monitorar a cobertura vegetal brasileira por meio de imagens de satélite.
Apesar do recuo, o volume remanescente ainda é significativo. Mesmo após a queda de 50% em relação a 2022, a área que continua sendo derrubada equivale à perda aproximada de um campo de futebol a cada dois minutos. A tendência é positiva, mas o patamar absoluto ainda preocupa.

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Pontos de tensão: Pantanal e Mato Grosso
Nem todos os biomas acompanham a mesma trajetória. O Pantanal registrou crescimento de 45,5% nos alertas de desmatamento entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. A região, já vulnerável a incêndios severos nos últimos anos, soma desmatamento e eventos climáticos extremos, ampliando o risco de degradação permanente.
Em Mato Grosso, as estimativas do Prodes para 2025 apontam aumento de 25,06% no desmatamento — único estado da Amazônia Legal a registrar alta no período. O dado expõe a heterogeneidade da dinâmica regional e sugere que o controle não é uniforme.
Especialistas lembram que a redução recente não significa reversão estrutural do problema. Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), argumenta que a celebração exclusiva da queda pode naturalizar o desmatamento remanescente. Segundo ele, a Amazônia aproxima-se de um ponto crítico de baixa umidade e alteração microclimática, com risco de perda de resiliência em partes do bioma.
Estudos científicos publicados na revista Nature indicam que o desmatamento acumulado já reduziu as chuvas no sul da Amazônia em até 11%, alterando o ciclo hidrológico e impactando a própria agricultura que impulsiona a abertura de novas áreas. O tempo de recuperação de uma floresta degradada também é longo: mesmo após o replantio, estima-se que sejam necessários ao menos 30 anos para que os serviços ecossistêmicos se aproximem do padrão original.
Fiscalização, Fundo Amazônia e pressão externa
A redução recente está associada ao aumento de ações de fiscalização. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ampliou em 59% as operações de combate a crimes ambientais.
Outro pilar é o Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em 2025, o fundo aprovou cerca de R$ 2 bilhões para iniciativas de combate ao desmatamento e promoção de atividades sustentáveis.
O governo federal mantém a meta de zerar o desmatamento até 2030. A ambição, contudo, depende de continuidade orçamentária e estabilidade política. A fiscalização em campo ainda enfrenta desafios logísticos, especialmente em áreas remotas.
No cenário internacional, a nova legislação antidesmatamento da União Europeia, conhecida como EUDR, entra em vigor em 2026. A norma exigirá comprovação de origem livre de desmatamento para produtos exportados ao bloco europeu. Na prática, cria-se um “passaporte verde” obrigatório para cadeias produtivas como soja, carne e madeira.
Essa pressão externa tende a acelerar a adoção de sistemas de rastreamento mais sofisticados, exigindo integração entre dados ambientais e registros fundiários.

Satélites e soberania tecnológica
A vigilância sobre o desmatamento é sustentada por uma complexa infraestrutura espacial. O Brasil já opera o satélite Amazônia-1, primeiro equipamento de observação da Terra totalmente desenvolvido no país, sob coordenação do INPE.
Agora, o governo aposta na constelação Brasat, prevista para ter seus componentes lançados até o final de 2026 a partir do Centro de Lançamento de Alcântara, administrado pela Agência Espacial Brasileira (AEB).
Diferentemente de um satélite isolado, a constelação contará com ao menos dois equipamentos operando em conjunto. O objetivo é reduzir o intervalo de revisita — hoje em torno de cinco dias — para menos de cinco dias, com meta ideal de monitoramento diário.
O projeto envolve a Visiona Tecnologia Espacial, joint venture entre a Embraer e a Telebras. A proposta é fortalecer a indústria espacial nacional e ampliar a autonomia tecnológica.
Um dos desafios históricos do monitoramento é a cobertura de nuvens na Amazônia, que já deixou centenas de milhares de quilômetros quadrados sem observação clara em determinados períodos. Para contornar o problema, especialistas defendem a integração de imagens ópticas com sistemas de radar de abertura sintética (SAR), capazes de atravessar a nebulosidade.
Além disso, há discussões sobre reduzir a dependência de sistemas estrangeiros de posicionamento, hoje baseados no GPS americano. Estudos avaliam a criação de um sistema nacional complementar para reforçar soberania e segurança de dados.
A corrida tecnológica não é mero simbolismo. Em um país de dimensão continental, a capacidade de observar em tempo quase real define a eficácia da fiscalização e a credibilidade internacional das metas ambientais.
O retrato atual do desmatamento no Brasil combina avanço e fragilidade. As curvas descendentes na Amazônia e no Cerrado indicam que políticas públicas e pressão econômica podem produzir resultados. Mas a persistência de focos críticos, os riscos climáticos acumulados e a necessidade de vigilância constante mostram que a disputa está longe de terminar. O céu monitorado por satélites tornou-se linha de frente de uma batalha que decide o futuro da floresta — e do próprio modelo de desenvolvimento brasileiro.












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