Mato Grosso desafia queda amazônica e amplia desmatamento

Desmatamento da Amazônia - Foto by Depositphotos
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O paradoxo de Mato Grosso: por que o desmatamento avança onde a floresta recua

Enquanto a Amazônia Legal comemora uma redução acumulada de cerca de 50% no desmatamento em relação a 2022, um estado segue na contramão. Mato Grosso registrou alta de 25,06% na taxa de supressão florestal segundo dados do Prodes – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite, sistema coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O dado não é apenas estatístico. Ele revela uma transformação territorial profunda, onde interesses econômicos, fragilidade institucional e a interiorização do crime organizado passaram a operar de forma entrelaçada.

Entre soja, boi e minério, o desmatamento deixou de ser apenas consequência de expansão produtiva. Tornou-se também engrenagem de uma economia paralela que se infiltra em áreas onde o poder público não consegue se manter de forma consistente.

A nova fronteira da degradação

O avanço recente do desmatamento não se distribui de maneira homogênea pelo território mato-grossense. Ele se concentra no extremo norte do estado, região de transição entre áreas consolidadas do agronegócio e porções ainda densamente florestadas da Amazônia.

Municípios como Colniza, Aripuanã, Nova Santa Helena e Guarantã do Norte se tornaram epicentros de tensão. A região atendida pela RISP-15 (Região Integrada de Segurança Pública) concentra não apenas índices elevados de violência letal, mas também disputas fundiárias, avanço do garimpo clandestino e pressão sobre terras indígenas.

Ali, a floresta não cai apenas para dar lugar à pastagem ou à soja. Ela também abre caminho para operações ilegais que dependem da ausência de fiscalização permanente. Estradas vicinais improvisadas, pistas clandestinas e áreas degradadas passam a integrar uma infraestrutura invisível que conecta exploração mineral ilegal, extração de madeira e rotas do narcotráfico.

A chamada “fronteira agrícola” deixou de ser apenas uma fronteira produtiva. Tornou-se uma zona híbrida, onde legalidade e ilegalidade coexistem, muitas vezes no mesmo espaço geográfico.

Imagem: lourencolf/Shutterstock
Imagem: lourencolf/Shutterstock

Agronegócio, commodities e pressão por terra

Mato Grosso ocupa posição central na economia brasileira. Lidera a produção nacional de soja e figura entre os maiores produtores de carne bovina do país. Esse protagonismo ganhou impulso entre 2020 e 2022, período marcado pelo boom das commodities e pela forte demanda internacional, especialmente da China.

Com terras agricultáveis cada vez mais valorizadas e uma cadeia logística robusta, a expansão produtiva passou a encontrar limites físicos. A oferta de áreas aptas à conversão legal tornou-se mais restrita. Nesse cenário, a pressão sobre remanescentes florestais aumentou.

O debate sobre desmatamento zero revela uma tensão econômica específica do estado. Projeções indicam que políticas ambientais mais rígidas poderiam gerar impacto marginal negativo no Produto Interno Bruto estadual, estimado em torno de -0,017%, caso não sejam acompanhadas de incentivos à bioeconomia e agregação de valor à floresta em pé.

Diferentemente de estados como Pará ou Amazonas, onde cadeias ligadas à floresta viva ganham espaço, Mato Grosso consolidou sua base produtiva majoritariamente na conversão territorial. A transição para modelos sustentáveis exige mudança estrutural e planejamento de longo prazo, não apenas metas de curto alcance.

Crime organizado e a economia da floresta ilegal

Nos últimos anos, o desmatamento passou a dialogar diretamente com a expansão das facções criminosas no interior do estado. Dados apontam presença dessas organizações em 65% dos municípios mato-grossenses.

Grupos como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital ampliaram suas atividades para além do tráfico de drogas. O financiamento do garimpo clandestino, a cobrança de taxas sobre extração ilegal de madeira e minérios e o controle territorial de áreas remotas tornaram-se novas fontes de receita.

A lógica é simples e eficaz: onde o Estado não mantém presença contínua, surge um poder paralelo que impõe regras, regula atividades e garante proteção armada. Em áreas indígenas e regiões de fronteira com Bolívia e Peru, essa dinâmica cria corredores logísticos que integram ouro ilegal, madeira extraída clandestinamente e rotas de entorpecentes.

O desmatamento, nesse contexto, deixa de ser apenas um efeito colateral da expansão econômica. Ele passa a ser instrumento estratégico. A abertura de clareiras facilita acesso, reduz visibilidade de operações ilegais e cria condições para ocupação territorial acelerada.

Essa simbiose entre narcotráfico e crime ambiental gera ciclo perverso. Recursos obtidos com exploração ilegal retroalimentam o poder bélico das facções, ampliando capacidade de intimidação e dificultando ações de fiscalização ambiental.

Reprodução
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Segurança pública e o vácuo estatal

A resposta estatal enfrenta limitações estruturais. A política de segurança em Mato Grosso tem sido marcada por ênfase na repressão e em operações pontuais de combate ao crime. Especialistas criticam a ausência de estratégias duradouras de ocupação territorial e prevenção social.

A presença do Estado em áreas vulneráveis é intermitente. Fiscalizações ambientais ocorrem de forma episódica, muitas vezes sem articulação consistente com políticas fundiárias, sociais e econômicas. Esse vácuo facilita a consolidação de economias ilícitas que se apresentam, para parte da população local, como alternativa de renda imediata.

A resistência à adoção de mecanismos de transparência e controle interno, como câmeras corporais em policiais, também integra o debate. Para analistas, combater o desmatamento em regiões dominadas por facções exige integração entre inteligência policial, órgãos ambientais e políticas de desenvolvimento regional.

Sem isso, o enfrentamento se torna fragmentado. Operações isoladas resultam em apreensões pontuais, mas não desmontam a estrutura financeira que sustenta o crime ambiental.

Um retrato de encruzilhada

O aumento do desmatamento em Mato Grosso não pode ser atribuído a um único fator. Ele emerge da convergência entre pressão econômica, valorização da terra, interiorização das facções criminosas e fragilidade de presença estatal permanente.

Enquanto o restante da Amazônia Legal apresenta queda nos índices, o estado expõe uma realidade distinta: a floresta tornou-se ativo disputado tanto por cadeias produtivas globais quanto por economias ilícitas que operam nas sombras.

Reverter essa trajetória exigirá mais do que operações policiais ou metas ambientais. Implica redefinir o modelo de desenvolvimento regional, fortalecer instituições, integrar políticas públicas e construir alternativas econômicas que tornem a floresta em pé competitiva frente à devastação.

Sem essa inflexão estratégica, o desmatamento continuará sendo não apenas indicador ambiental, mas sintoma de uma disputa mais profunda pelo controle do território amazônico.