O vendedor de churros Valdemir dos Santos, de 54 anos, morador do bairro do Flexal de Cima, em Maceió, carrega nas palavras e no silêncio a dor de ver sua vida transformada desde 2018. Naquele ano, o primeiro tremor de terra causado pela exploração de sal-gema pela Braskem abalou não apenas as estruturas de sua casa, mas também sua rotina e sustento.
Crime ambiental da Braskem
Hoje, quase sete anos depois, o impacto econômico e social ainda é profundo. “Somos vítimas do crime ambiental da Braskem. Mais de 2,5 mil famílias saíram daqui. Isso causou um grande impacto para nós”, relata Valdemir, que recusou a indenização de R$ 25 mil oferecida pela empresa.
A história de Valdemir e de outros moradores que resistem em suas casas, apesar do isolamento e das dificuldades, é o foco do documentário “Ainda há moradores aqui”, dirigido por Tiago Rodrigues. O filme, com 42 minutos de duração, será lançado nesta terça-feira (25), às 19h, no Teatro Deodoro, em Maceió, seguido de um debate com moradores das áreas afetadas. A obra busca dar voz às vítimas e evitar que o desastre seja esquecido. “Dar rosto e voz às vítimas desse crime perpetrado por uma grande mineradora”, afirma Rodrigues.
O desastre e suas consequências
Em 3 de março de 2018, o primeiro tremor causado pela mineração de sal-gema pela Braskem levou à desocupação de cinco bairros em Maceió. O Flexal, localizado entre essas comunidades, hoje parece um “bairro-fantasma”, com ruas vazias e casas abandonadas. O desastre afetou diretamente cerca de 15 mil residências e 60 mil pessoas, segundo estimativas.
Maurício Macedo, um dos roteiristas do documentário, destaca que o filme, gravado no segundo semestre de 2023, revela o profundo abalo psicológico sofrido pelos moradores. “Pessoas que tinham mais de 30 anos de história no local receberam a mesma indenização de quem morava havia bem menos tempo. A situação de cada família não foi individualizada”, explica. Ele ressalta que o isolamento social e econômico agravou problemas de saúde mental, como depressão e até casos de suicídio.
Isolamento e indenizações questionáveis
Ricardo Melro, defensor público de Alagoas, critica o subdimensionamento da área de risco. Ele alerta que imóveis na borda do mapa de risco também apresentam problemas estruturais graves e seus moradores enfrentam um “extremo isolamento social”. “A comunidade está adoecendo com problemas de saúde mental gravíssimos”, afirma. Melro explica que, apesar de um acordo com a Braskem para reurbanizar áreas como o Flexal de Cima e o Flexal de Baixo, cerca de 80% dos moradores pedem socorro para sair da região.
O programa de compensação financeira também é alvo de críticas. Segundo Melro, o pagamento de indenizações foi condicionado à aceitação de um valor tabelado de R$ 40 mil por danos morais, sem considerar as particularidades de cada família. “Foi lamentável”, avalia.
Resposta da Braskem
Em nota, a Braskem afirmou que está implementando medidas socioeconômicas para os bairros dos Flexais. Das 23 iniciativas definidas em acordo com as autoridades, 14 já foram concluídas, incluindo serviços de limpeza urbana, controle de pragas e transporte escolar gratuito. Outras, como a construção de uma creche e uma unidade básica de saúde, estão em fase final.
A empresa também destacou que 99% das famílias já receberam indenizações por ilhamento social e que repassou R$ 64 milhões ao município em novembro de 2022 para medidas adicionais. Sobre o impacto na saúde mental, a Braskem informou que oferece apoio psicológico gratuito às famílias afetadas.
Memórias e esperanças
Enquanto aguarda por soluções, Valdemir dos Santos caminha pelas ruas silenciosas do bairro, buscando clientes e revivendo memórias. Ele sente falta da vizinhança, da praça, da igreja e da vida que construiu ao longo de 23 anos no local. “Eu tenho muita saudade da vizinhança que a gente tinha aqui. Tudo, a praça, a igreja, tudo era importante”, diz.
O documentário “Ainda há moradores aqui” surge como uma esperança para que histórias como a de Valdemir não caiam no esquecimento. Ao dar voz às vítimas, a obra busca não apenas preservar a memória do desastre, mas também pressionar por justiça e reparação para aqueles que ainda resistem em meio às ruínas de suas vidas.
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