Crescimento da economia pode levar a desastre planetário


Economia além do PIB: por que medir crescimento já não basta

Durante décadas, o Produto Interno Bruto reinou absoluto como o grande termômetro do progresso. Governos comemoram quando ele sobe, mercados vibram, manchetes celebram. Mas, segundo o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, essa métrica pode estar nos conduzindo silenciosamente ao abismo ambiental e social. Para ele, a economia global precisa passar por uma transformação profunda e urgente, abandonando a obsessão pelo PIB como medida suprema de sucesso.

Foto: Eduardo Muñoz/Reuters

Em entrevista ao jornal The Guardian, Guterres foi direto: o sistema contábil atual recompensa poluição, desperdício e destruição ambiental. “Quando destruímos uma floresta, estamos criando PIB. Quando pescamos além do limite, estamos criando PIB.” A frase resume um paradoxo inquietante: atividades que corroem as bases naturais da vida aparecem nas contas nacionais como sinais de prosperidade.

A lógica do crescimento infinito

O problema não está apenas no número em si, mas na mentalidade que ele sustenta. Desde o pós-guerra, o crescimento econômico, medido pelo PIB, tornou-se o objetivo central das políticas públicas. Países competem para crescer mais que seus vizinhos, como se o desenvolvimento fosse uma corrida permanente.

No entanto, essa lógica ignora um dado elementar: vivemos em um planeta de recursos finitos. Crescimento indiscriminado, descolado de limites ecológicos, alimenta a crise climática, acelera a perda de biodiversidade e amplia desigualdades. O PIB registra o valor monetário das transações, mas permanece cego à degradação ambiental, à exclusão social e às violações de direitos humanos.

Guterres argumenta que é hora de medir o que realmente importa às pessoas e às comunidades. O mundo, diz ele, não é uma gigantesca corporação movida apenas por balanços trimestrais. Decisões financeiras não podem se basear apenas em um retrato de lucros e perdas.

Para enfrentar esse desafio, a ONU reuniu em Genebra, em janeiro, um grupo de economistas de peso na conferência Beyond GDP. Entre eles estavam o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, o economista indiano Kaushik Basu e a especialista em desigualdade Nora Lustig. A iniciativa, liderada pela Organização das Nações Unidas, busca criar um novo painel de indicadores capaz de integrar bem-estar humano, sustentabilidade e equidade às métricas econômicas.

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Choques globais e crise tripla planetária

O debate não surge no vazio. Nos últimos vinte anos, o mundo enfrentou uma sequência de abalos profundos: a crise financeira de 2008, a pandemia de Covid-19, conflitos geopolíticos e desastres climáticos cada vez mais frequentes. Esses choques revelaram fragilidades estruturais de um modelo que prioriza eficiência e crescimento, mas negligencia resiliência e justiça social.

Relatório recente do grupo convocado pela ONU argumenta que esses eventos foram agravados por uma crise planetária tripla: mudança climática, perda de biodiversidade e poluição. Além disso, transformações tecnológicas rápidas estão reconfigurando mercados de trabalho, intensificando desigualdades e ampliando a concentração de renda.

Kaushik Basu observa que nações ficaram presas ao jogo de superar umas às outras em termos de PIB, enquanto o bem-estar dos cidadãos comuns e a sustentabilidade foram deixados em segundo plano. Se toda a renda adicional se concentra em poucos indivíduos, mas o PIB cresce, espera-se que todos celebrem. Essa lógica, segundo ele, alimenta hiper-nacionalismo, polarização e desigualdade.

Nora Lustig reforça que o PIB jamais foi concebido para medir progresso humano. Ainda assim, permanece como principal referência de sucesso. Crescimento pode coexistir com pobreza, exclusão e violência — realidades que raramente aparecem nas estatísticas tradicionais.

Novas propostas para uma economia compatível com o planeta

O movimento para repensar a economia não se limita à ONU. No meio acadêmico e em círculos de políticas públicas, ganham força propostas que buscam alinhar prosperidade a sustentabilidade. Há defensores do crescimento verde, que apostam em inovação tecnológica e transição energética para desacoplar expansão econômica de emissões. Outros defendem modelos como economia do bem-estar, economia do donut e economia em estado estacionário.

Há também vozes mais radicais, como a do economista político Jason Hickel, que sustenta a necessidade de decrescimento planejado em setores ambientalmente destrutivos, especialmente em países ricos. Segundo ele, é preciso reduzir atividades supérfluas e poluentes, ao mesmo tempo em que se fortalece áreas socialmente essenciais, como cuidados, transporte público e energia renovável.

Pesquisa recente com quase 800 pesquisadores de políticas climáticas apontou que 73% apoiam posições pós-crescimento. O debate, portanto, deixou de ser marginal. Ainda assim, Hickel alerta que ir além do PIB é apenas o primeiro passo. Para ele, é necessário democratizar o controle sobre a produção, redefinindo o que se produz e para quem se produz. A centralidade do PIB, argumenta, reflete uma estrutura econômica orientada pelo capital e não pelo bem-estar coletivo.

Reprodução - EBC
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Reformar sem destruir: complementar, não substituir

Apesar das críticas contundentes, a proposta da ONU não busca abolir o PIB, mas complementá-lo. O objetivo é fornecer ferramentas que permitam avaliar se o desenvolvimento está realmente melhorando a qualidade de vida, promovendo equidade e protegendo o futuro das próximas gerações.

A urgência é reforçada por estudos que indicam que modelos econômicos atuais subestimam o impacto de choques climáticos extremos e pontos de não retorno ambientais. Ignorar esses riscos pode provocar colapsos financeiros globais.

Ao propor uma reforma das métricas, Guterres sugere uma mudança cultural profunda. Significa reconhecer que florestas em pé, oceanos saudáveis e comunidades resilientes têm valor intrínseco e econômico. Significa admitir que crescimento que destrói suas próprias bases não é progresso, mas ilusão contábil.

A economia do século XXI enfrenta um dilema histórico. Continuar celebrando números que escondem custos invisíveis ou construir um sistema capaz de refletir a complexidade da vida humana e dos ecossistemas. O debate sobre o PIB não é técnico; é ético e político. Ele questiona que tipo de sociedade se deseja construir.

Se o século XX foi marcado pela expansão industrial e pela consolidação do PIB como símbolo de sucesso, o século XXI pode ser lembrado como o momento em que a humanidade decidiu redefinir o significado de prosperidade. A escolha não é entre crescimento ou estagnação, mas entre um modelo que corrói o planeta e outro que reconhece seus limites e possibilidades.