Governo amplia capacitação para empregos verdes

Foto: Shutterstock
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Economia verde ganha escala no mercado de trabalho brasileiro

A economia verde deixou de ser conceito restrito a conferências internacionais e relatórios técnicos. No Brasil, ela já molda trajetórias profissionais, movimenta políticas públicas e redesenha expectativas de futuro para milhões de jovens. Atualmente, o país soma cerca de 6,8 milhões de empregos ligados a atividades sustentáveis, o equivalente a quase 9 por cento dos vínculos formais de trabalho. Desse total, aproximadamente 2 milhões são ocupados por pessoas entre 14 e 29 anos.

Os setores que mais absorvem trabalhadores são agroecologia, cadeias produtivas florestais, gestão de resíduos, reciclagem, saneamento e geração de energias renováveis. Trata-se de uma transformação estrutural, impulsionada tanto pela urgência climática quanto por novos investimentos públicos e privados.

Relatórios do UNICEF indicam que, apesar do crescimento, persistem desigualdades regionais e de gênero. Grandes centros urbanos concentram 53 por cento das oportunidades sustentáveis, enquanto regiões periféricas enfrentam limitações de infraestrutura, conectividade e acesso à formação técnica. Ainda assim, o movimento é claro: a economia verde se consolida como vetor estratégico de desenvolvimento e inclusão produtiva.

Formação profissional e políticas públicas para transição ecológica

Para sustentar essa expansão, o governo federal articula iniciativas de qualificação em larga escala. O Ministério da Educação e o Ministério do Trabalho e Emprego atuam em parceria com a agência alemã GIZ no projeto Profissionais do Futuro. A proposta é atualizar currículos, capacitar docentes e ampliar vagas gratuitas em áreas como bioeconomia, economia circular e energias renováveis.

Entre as ações em curso está o Pronatec EnergIFE, que prevê milhares de vagas até 2026 para cursos voltados à energia solar, energia eólica, eficiência energética e infraestrutura para veículos elétricos. Parte das vagas é reservada para mulheres e populações do campo, além de comunidades tradicionais e residentes do Norte e Nordeste, numa tentativa de reduzir disparidades históricas.

O SENAI e os Institutos Federais desempenham papel central na oferta de cursos técnicos e tecnológicos. O SENAI incorporou competências verdes em seus itinerários formativos, com ênfase em transição energética, economia circular, bioeconomia e transformação digital. No setor automotivo, a instituição prevê investimentos bilionários até o fim da década para qualificação e pesquisa voltadas à descarbonização.

O Sistema Nacional de Empregos, conhecido como Sine, também passa por integração com redes de ensino, buscando aproximar egressos de vagas disponíveis. Já o Programa Manuel Querino amplia a oferta de cursos para jovens em situação de vulnerabilidade social, conectando economia verde e inclusão produtiva.

Essa engrenagem institucional busca garantir que a transição ecológica não seja apenas tecnológica, mas também socialmente justa. O objetivo é formar profissionais aptos a responder às demandas de um mercado em transformação, ao mesmo tempo em que se ampliam oportunidades para grupos historicamente excluídos.

Divulgação - Senai
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Profissões em alta e salários atrativos

O dinamismo da economia verde se reflete na valorização de determinadas carreiras. O gestor de sustentabilidade tornou-se figura estratégica dentro de empresas que precisam alinhar operações a metas ambientais e padrões ESG. Em posições de liderança, especialmente em estados como São Paulo, a remuneração pode variar entre 18 mil e 25 mil reais mensais.

O engenheiro de energias renováveis também ganha protagonismo, atuando no projeto e otimização de sistemas solares e eólicos. A média salarial gira entre 7.500 e 10 mil reais por mês. Já o especialista em eficiência energética realiza auditorias e implementa tecnologias para reduzir consumo e custos, com remuneração média entre 5 mil e 7 mil reais.

Cientistas ambientais, responsáveis por analisar impactos humanos e propor soluções de mitigação, recebem entre 4 mil e 6.500 reais mensais. Técnicos em sistemas de energia solar, focados na instalação e manutenção de painéis fotovoltaicos, têm ganhos médios que variam de 2.500 a 4 mil reais.

Novas frentes também se abrem com a expansão de veículos elétricos e digitalização industrial. Instaladores de infraestrutura de carregamento, profissionais de automação para eficiência energética e especialistas em economia circular encontram mercado crescente.

Para se destacar, não basta formação básica. O mercado exige sólida base em engenharia ambiental, gestão de sustentabilidade ou ciências ambientais, além de certificações em competências transversais conhecidas como green skills. Essas habilidades combinam conhecimento técnico, visão sistêmica e capacidade de inovação.

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Desafios persistentes para juventude brasileira

Apesar do avanço, o acesso à economia verde ainda não é homogêneo. Jovens relatam dificuldades para encontrar cursos especializados, especialmente fora dos grandes centros. A oferta de formação permanece concentrada em capitais e regiões metropolitanas, o que limita oportunidades para quem vive no interior.

A desigualdade de gênero também é evidente. Homens ocupam cerca de 60,5 por cento das vagas verdes, enquanto mulheres representam 39,5 por cento. Entre jovens de 14 a 29 anos, a diferença diminui, mas não desaparece. Barreiras culturais, preconceito e discriminação por raça e etnia continuam a influenciar trajetórias profissionais.

Outro entrave relevante é a falta de experiência prática e orientação de carreira. Muitos jovens não conseguem acessar programas de mentoria ou estágios específicos para áreas sustentáveis. A informalidade do mercado de trabalho brasileiro também dificulta a validação de saberes adquiridos fora da educação formal, inclusive conhecimentos tradicionais de comunidades indígenas e rurais.

Infraestrutura precária agrava o cenário. Falta de conectividade à internet compromete o acesso a cursos online, enquanto transporte insuficiente dificulta deslocamentos para entrevistas e aulas presenciais. Jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica enfrentam obstáculos adicionais, como necessidade de renda imediata que impede dedicação integral à qualificação.

Superar essas barreiras exige coordenação entre políticas públicas, setor privado e instituições de ensino. Modernizar currículos, ampliar conectividade, fortalecer programas de mentoria e garantir financiamento acessível são medidas essenciais para consolidar a economia verde como caminho de inclusão.

O Brasil reúne vantagens estratégicas, como matriz energética relativamente limpa e biodiversidade singular, que favorecem a expansão de atividades sustentáveis. Transformar potencial em oportunidade concreta para milhões de jovens depende de continuidade de investimentos, atualização regulatória e compromisso com justiça social.

A economia verde não representa apenas novo nicho de mercado. Ela sinaliza uma redefinição do trabalho no século XXI, na qual crescimento econômico e responsabilidade ambiental deixam de ser opostos e passam a caminhar lado a lado.