Integração lavoura-pecuária avança na produção de carne de baixo carbono

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Integração lavoura-pecuária redesenha a pecuária de baixo carbono no Cerrado

Em um momento em que a agropecuária brasileira é chamada a responder simultaneamente por produtividade, competitividade e mitigação das mudanças climáticas, sistemas integrados começam a mostrar, com dados concretos, que é possível avançar em todas essas frentes ao mesmo tempo. Um estudo conduzido por pesquisadores da Embrapa Cerrados, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), demonstra que o consórcio de gramíneas com leguminosas em sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) eleva de forma significativa o ganho de peso de bovinos e reduz substancialmente a intensidade das emissões de metano entérico.

Foto: Caroline Garaluz

Os resultados reforçam o papel estratégico da intensificação sustentável na pecuária brasileira, especialmente em sistemas a pasto, que respondem por mais de 90% da produção nacional de carne bovina. Em vez de expandir áreas, o caminho apontado pela ciência passa por melhorar a qualidade da forragem, o manejo do solo e a eficiência biológica dos animais, criando sistemas mais resilientes, produtivos e alinhados à agenda climática.

Ganho de peso maior e metano menor: o que mostram os números

A pesquisa avaliou o desempenho de bovinos da raça Nelore BRGN em três sistemas de produção distintos. O primeiro foi uma pastagem contínua solteira de capim BRS Piatã, utilizada como referência. O segundo combinou o mesmo capim com a leguminosa feijão-guandu IAPAR 43, também em pastagem contínua. O terceiro sistema integrou lavoura e pecuária, com capim BRS Zuri em rotação com culturas agrícolas.

Os dados revelam diferenças expressivas. Enquanto os animais da pastagem solteira apresentaram ganho médio diário de 0,44 quilo, o consórcio com leguminosa elevou esse valor para 0,69 quilo por animal. No sistema ILP com rotação lavoura-pecuária, o ganho chegou a 0,76 quilo por dia. Em termos percentuais, isso representa aumentos de 56% e 72% em relação ao sistema convencional.

O desempenho ambiental acompanhou essa melhora produtiva. A intensidade de emissão de metano, medida pela relação entre a quantidade de CH₄ emitida e o ganho de peso vivo por hectare, foi drasticamente menor nos sistemas integrados. A pastagem solteira atingiu 450 gramas de CH₄ por quilo de ganho de peso vivo por hectare. Já o consórcio com leguminosa reduziu esse índice para 269 gramas, enquanto o sistema com BRS Zuri em rotação alcançou 224 gramas, uma queda de até 60%.

Esses números mostram que animais mais bem nutridos, em sistemas mais eficientes, produzem mais carne com menor custo climático, um dado central para o debate sobre a descarbonização da pecuária.

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Foto: Thais Rodrigues de Sousa

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Solo como aliado climático: mais carbono abaixo da superfície

Além do desempenho animal e das emissões entéricas, o estudo analisou o estoque de carbono no solo até a profundidade de 30 centímetros. Os resultados indicam que os sistemas integrados também são mais eficientes em reter carbono, transformando o solo em um importante aliado no balanço climático da produção.

O consórcio entre BRS Piatã e feijão-guandu apresentou o maior estoque de carbono, com 83,17 toneladas de carbono por hectare, contra 62,20 toneladas na pastagem solteira. Isso representa um incremento superior a 20 toneladas de carbono por hectare, resultado diretamente associado à presença da leguminosa, que melhora a ciclagem de nutrientes, aumenta a matéria orgânica e favorece a atividade biológica do solo.

O sistema de integração lavoura-pecuária também apresentou resultados positivos, confirmando que a diversificação de culturas e o uso de forrageiras mais produtivas ampliam a capacidade do solo de funcionar como sumidouro de carbono. Estudos anteriores realizados na mesma área experimental já haviam mostrado que esses sistemas reduzem também as emissões de óxido nitroso, outro gás de efeito estufa, em até 59%.

Os dados foram coletados no experimento de ILP mais antigo do Brasil, implantado em 1991 na Embrapa Cerrados, o que confere robustez científica aos resultados observados em 2024.

Ciência, clima e futuro da pecuária brasileira

O trabalho é parte da tese de doutorado da pesquisadora Thais Rodrigues de Sousa, desenvolvida com a colaboração de cientistas da Embrapa Cerrados e sob orientação da professora Lucrécia Ramos, da UnB. Os resultados ganharam destaque internacional durante o 3rd CCARBON/USP Symposium, organizado pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (USP), e receberam menção honrosa entre os trabalhos apresentados.

A pesquisa dialoga diretamente com os debates globais sobre clima e agropecuária, intensificados durante a COP30, realizada em Belém. O metano entérico, cujo potencial de aquecimento global é 27 vezes maior que o do dióxido de carbono em um horizonte de 100 anos, está no centro dessas discussões. Sua emissão é fortemente influenciada pela qualidade e pelo consumo da forragem, o que coloca os sistemas integrados como uma das principais estratégias de mitigação disponíveis.

Segundo a pesquisadora Arminda de Carvalho, da Embrapa Cerrados, o desafio não é apenas reduzir emissões, mas fazê-lo sem comprometer o desempenho animal. Nesse sentido, a integração de gramíneas de alto potencial produtivo com leguminosas e lavouras se mostra uma alternativa viável para produzir carne de baixo carbono em larga escala.

As recomendações técnicas para o uso de leguminosas em consórcio com pastagens estão sendo atualizadas pela Embrapa, incluindo orientações específicas para o uso do guandu-anão em sistemas de plantio direto. Para os pesquisadores, o futuro da pecuária passa por forrageiras de duplo propósito, capazes de atuar tanto como pastagem quanto como plantas de serviço, fortalecendo a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Ao demonstrar que é possível produzir mais carne, com menor emissão de gases de efeito estufa e maior acúmulo de carbono no solo, o estudo aponta um caminho concreto para que a pecuária brasileira avance rumo a um modelo mais resiliente, eficiente e alinhado às exigências ambientais do século XXI.