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Eólicas offshore: Brasil debate custos e impactos antes de expandir para o oceano

Eólicas offshore: Brasil debate custos e impactos antes de expandir para o oceano
Ilustração: IA

Nota técnica questiona necessidade real da tecnologia em país que já tem 90% da matriz elétrica renovável e desperdiçou R$ 6,5 bi em 2025 por excesso de geração.

O Instituto Linha D’Água divulgou a nota técnica “Eólicas Offshore: Para quê? Para quem?”, documento elaborado pelas professoras Clarice Ferraz (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Flávia Mendes de Almeida Collaço (Universidade de São Paulo) que questiona a necessidade estrutural da expansão da geração eólica offshore no Brasil. Segundo o estudo, em 2024, cerca de 90% da matriz elétrica brasileira veio de fontes renováveis, enquanto aproximadamente 50% da Oferta Interna de Energia também teve origem renovável, o que diferencia o país de nações com matrizes fósseis intensivas.

A publicação, divulgada em abril de 2026, parte de duas perguntas centrais: a geração eólica offshore é realmente necessária para atender à demanda energética atual e futura do país? E em que medida essa expansão pode produzir novos custos, conflitos e impactos socioambientais, especialmente em territórios costeiros e marinhos ocupados por comunidades pesqueiras, quilombolas, extrativistas e outros povos e comunidades tradicionais?

Sistema elétrico já enfrenta excesso de geração renovável

A nota técnica aponta que o Brasil já enfrenta dificuldades para integrar a geração renovável variável existente. Em 2025, o país desperdiçou 20,6% de toda a energia solar e eólica disponível, com prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões. O desperdício é resultado do curtailment, termo usado para designar cortes ou restrições de geração elétrica quando a produção supera a capacidade de consumo, escoamento ou operação segura do sistema.

Entre 2001 e 2024, o consumo de eletricidade cresceu 2,1 vezes, enquanto a capacidade instalada aumentou 3,1 vezes. Em 2025, o total de fontes renováveis variáveis no Sistema Interligado Nacional (SIN) atingiu 87,7 GW, equivalente a cerca de 85% da demanda máxima. O sistema operou próximo ao limite inferior de segurança em 16 dias por sobreoferta de geração renovável variável. Em 2024, esse tipo de episódio havia ocorrido apenas uma vez.

“Por que expandir a geração para o oceano, com uma tecnologia mais cara e complexa, se o país já enfrenta dificuldades para absorver a geração renovável variável existente em terra?”, questiona o documento. Segundo o Instituto Linha D’Água, não há, nos estudos oficiais de planejamento energético, evidência de que a geração eólica offshore tenha papel estrutural para garantir o suprimento elétrico nacional nas próximas décadas.

Custos elevados e impacto tarifário preocupam

A geração eólica offshore está entre as tecnologias mais intensivas em capital da matriz elétrica. Segundo a nota técnica, os custos estimados de instalação variam entre R$ 10 mil e R$ 18,6 mil por kW instalado, valores entre 2,4 e 3,5 vezes superiores aos da geração eólica em terra e da solar fotovoltaica.

A implantação de parques eólicos no mar exige fundações marítimas, embarcações especializadas, adequação portuária, cabos submarinos, subestações offshore, sistemas dedicados de transmissão, manutenção em ambiente marítimo e reforços adicionais na rede elétrica. Quanto maior a distância entre os parques e a costa, maiores tendem a ser os custos de conexão, operação e manutenção.

Esses investimentos tendem a ser incorporados ao custo de expansão e operação do sistema elétrico e, em última instância, podem pressionar as tarifas pagas pelos consumidores. Até março de 2026, o Brasil registrava 82,8 milhões de pessoas inadimplentes, cerca de 50,5% da população adulta. Contas básicas de energia elétrica, água e gás representavam aproximadamente 21% do total das dívidas em atraso.

Entenda o caso

O Brasil tem um cenário energético distinto da maioria dos países desenvolvidos. Enquanto nações como Alemanha, Reino Unido e China investem em eólicas offshore para reduzir dependência de combustíveis fósseis, o país já tem uma matriz elétrica 90% renovável, dominada por hidrelétricas, e enfrenta desafios operacionais para absorver a geração solar e eólica existente. A discussão sobre offshore surge em meio a um contexto de planejamento energético de longo prazo e pressão de investidores internacionais.

Contradição: cortes de renováveis e contratação de termelétricas fósseis

A nota técnica chama atenção para uma contradição no planejamento energético brasileiro: ao mesmo tempo em que o Operador Nacional do Sistema (ONS) impõe cortes crescentes de geração renovável por sobreoferta, o planejamento elétrico contrata termelétricas fósseis de longo prazo para garantir flexibilidade, potência e estabilidade. Em março de 2026, o Leilão de Reserva de Capacidade resultou em contratação recorde de energia termelétrica.

Como a offshore também é uma fonte variável (gera quando há vento, não necessariamente quando a demanda exige), ela não resolveria essa contradição. Ao contrário, poderia adicionar mais complexidade operacional, custos sistêmicos e necessidade de reserva.

Oceano é território, não espaço vazio

O documento questiona a visão que trata o oceano como uma superfície disponível à instalação de infraestrutura. Para comunidades pesqueiras, quilombolas, extrativistas e costeiras, o mar não é vazio: é território de trabalho, cultura, alimentação, memória, mobilidade, reprodução social e vida comunitária.

A literatura analisada aponta potenciais impactos sobre ecossistemas marinhos e costeiros, incluindo alterações em habitats bentônicos (fundo marinho), ruídos subaquáticos, interferências sobre fauna marinha, rotas migratórias de espécies, mudanças na dinâmica pesqueira e conflitos pelo uso do espaço marítimo.

Comunidades pesqueiras e costeiras podem enfrentar restrições de acesso ao mar, alterações em modos de vida tradicionais, conflitos territoriais e impactos sobre atividades econômicas como pesca artesanal e turismo. No campo econômico, o documento alerta para riscos de reorganização das atividades pesqueiras, concentração dos benefícios em grandes agentes empresariais e financeiros, e apropriação privada de recursos energéticos e espaços marítimos que constituem bens públicos da União.

Impactos de gênero invisibilizados

A nota técnica destaca que a transição energética não afeta todas as pessoas da mesma forma. Mulheres e meninas estão entre os grupos mais impactados por grandes empreendimentos de energia renovável, especialmente durante a fase de obras, quando há fluxo intenso de trabalhadores temporários de fora da região. Esses impactos costumam ser invisibilizados em estudos ambientais e processos de licenciamento, que raramente incorporam uma perspectiva de gênero.

Regra das 12 milhas é provisória

O documento analisa a Resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de 1º de abril de 2026, que estabeleceu a faixa de 12 milhas náuticas a partir da costa como referência inicial para localização dos empreendimentos eólicos offshore. A medida é vista como positiva do ponto de vista da proteção de territórios costeiros e marinhos, mas o documento alerta que ela ainda é provisória e passível de revisão mediante estudos técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Também faltam avaliações públicas sobre quais unidades de conservação marinhas, territórios pesqueiros e comunidades costeiras estão protegidos ou não pela faixa estabelecida. Para o Instituto Linha D’Água, o debate sobre eólicas offshore precisa sair da lógica da pressa e entrar no campo das perguntas fundamentais: a quem serve essa expansão? Quem paga seus custos? Quem se apropria dos benefícios? Quais territórios serão afetados? Que direitos serão garantidos? Que alternativas existem?

Alternativas existem e precisam ser priorizadas

O documento não propõe bloquear o debate sobre eólicas offshore, mas defende que qualquer decisão seja orientada pelas reais necessidades do sistema elétrico brasileiro, pelos custos sistêmicos, pelos impactos territoriais e socioambientais e por sua efetiva contribuição aos objetivos centrais da política energética nacional: segurança do abastecimento, modicidade tarifária e universalização do acesso.

Entre os caminhos apontados estão o fortalecimento da infraestrutura já existente, a modernização e repotenciação de usinas hidrelétricas, a ampliação da capacidade de armazenamento, os investimentos em redes de transmissão e distribuição, os sistemas de resposta da demanda, o aumento da eficiência energética e o desenvolvimento de soluções voltadas à gestão da variabilidade das fontes renováveis já instaladas.

Perguntas frequentes

O Brasil precisa de energia eólica offshore para garantir o abastecimento?

Segundo a nota técnica, não há evidência nos estudos oficiais de que a eólica offshore seja estrutural para o suprimento elétrico nacional nas próximas décadas. O Brasil já tem oferta potencial de fontes para geração de eletricidade muito superior à demanda projetada para 2050 e 2055.

Quanto custaria a energia eólica offshore no Brasil?

Os custos estimados de instalação variam entre R$ 10 mil e R$ 18,6 mil por kW instalado, entre 2,4 e 3,5 vezes superiores aos da geração eólica em terra e da solar fotovoltaica. Esses custos podem pressionar as tarifas pagas pelos consumidores.

Quem seria afetado pela instalação de parques eólicos no mar?

Comunidades pesqueiras, quilombolas, extrativistas e costeiras podem enfrentar restrições de acesso ao mar, alterações em modos de vida tradicionais, conflitos territoriais e impactos sobre atividades econômicas como pesca artesanal e turismo. Mulheres e meninas estão entre os grupos mais impactados.

A nota técnica completa está disponível no site do Instituto Linha D’Água. A discussão sobre o futuro da geração eólica offshore no Brasil deverá seguir nas instâncias de planejamento energético ao longo de 2026, com participação de órgãos reguladores, empresas do setor, movimentos sociais e comunidades costeiras.

Com informações do Instituto Linha D’Água.

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