Brasil tem 30 milhões de animais nas ruas e busca soluções para crise de abandono.


A Dimensão do Abandono e as Faces da Crueldade

O Brasil enfrenta uma crise humanitária e sanitária que transcende casos isolados de grande repercussão midiática. O país vive uma verdadeira epidemia de abandono animal, com números que alarmam especialistas e organizações internacionais. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 30 milhões de animais em situação de rua no território nacional. Deste contingente, 20 milhões são cães e 10 milhões são gatos, uma população errante exposta à fome, doenças e à violência urbana. Em grandes metrópoles, estima-se que 10% da população canina esteja abandonada, proporção que pode chegar a chocantes 25% em relação à população humana em municípios menores.

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As causas desse fenômeno são múltiplas e enraizadas na cultura e na economia. Estudos apontam que quase metade dos abandonos decorre de problemas comportamentais dos animais, frequentemente fruto da falta de adestramento ou paciência dos tutores. Mudanças no estilo de vida, moradias cada vez menores e, crucialmente, o desconhecimento sobre os custos reais da posse responsável — que podem ultrapassar R$ 2.500 em tratamentos veterinários complexos — alimentam o ciclo do descarte. A pandemia de Covid-19 agravou o cenário, deixando nas ruas animais cujos tutores faleceram.

Além do abandono, que configura uma forma de violência omissiva, a crueldade direta é uma realidade brutal. A lei brasileira tipifica como crime não apenas agressões físicas, como espancamento e mutilação, mas também a negligência crônica: a privação de água e alimento, o confinamento em correntes curtas que impedem o movimento, e a negação de assistência veterinária. Em centros urbanos, a exploração de cavalos debilitados para tração de carroças também engrossa as estatísticas de maus-tratos.

Abandono de animais é crime - Reprodução
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Legislação, Impunidade e a “Teoria do Elo”

O ordenamento jurídico brasileiro evoluiu significativamente ao reconhecer os animais como seres sencientes, sujeitos de direito e passíveis de dor e sofrimento. A Constituição Federal e a Lei de Crimes Ambientais formam a base dessa proteção, recentemente fortalecida pela Lei Sansão (14.064/2020). Esta norma endureceu especificamente as penas para maus-tratos contra cães e gatos, estabelecendo reclusão de dois a cinco anos. No entanto, a existência de leis robustas contrasta com a realidade da impunidade. A fiscalização é frequentemente falha e as denúncias muitas vezes não resultam em punição efetiva.

A urgência em combater os maus-tratos é reforçada pela conexão direta entre o bem-estar animal e a segurança pública, conhecida como “Teoria do Elo”. Estudos indicam que mais de 70% dos agressores de animais também cometem crimes contra pessoas, como violência doméstica e abuso infantil. Portanto, investigar e punir a violência contra animais funciona como uma ferramenta preventiva contra a violência humana. Adicionalmente, a questão é um grave problema de saúde pública (Saúde Única), uma vez que animais abandonados sem controle sanitário tornam-se vetores de zoonoses perigosas, como a raiva e a leishmaniose.

Foto: Gustavo Moreno
Foto: Gustavo Moreno

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A Omissão do Estado e a Luta das ONGs

Apesar dos avanços legislativos, o Estado brasileiro frequentemente falha na ponta final do processo: o acolhimento. A carência de abrigos públicos adequados e de políticas de controle populacional eficazes transfere a responsabilidade para a sociedade civil. ONGs e protetores independentes assumem, na prática, uma função que deveria ser governamental, operando quase sempre no limite de suas capacidades físicas, emocionais e financeiras.

Esses grupos dependem exclusivamente de doações e trabalho voluntário para manter abrigos superlotados. Enfrentam rotinas exaustivas de limpeza e cuidados, e arcam com custos veterinários altíssimos para tratar animais resgatados em situações deploráveis, como casos graves de cinomose ou miíase. A sobrecarga é imensa, e a sensação de “enxugar gelo” é constante diante de um fluxo ininterrupto de novos abandonos e da falta de apoio estrutural do poder público.

Novos Caminhos e o Exemplo Internacional

Recentemente, o governo federal sinalizou uma mudança de postura com o lançamento de iniciativas inéditas. O programa ProPatinhas promete focar no manejo populacional através da castração gratuita em massa, enquanto o SinPatinhas institui o RG Animal, um sistema de identificação digital nacional para facilitar o controle e a fiscalização de cães e gatos. Embora ainda em fase de implementação, essas políticas representam um passo fundamental para organizar uma resposta estatal coordenada.

Para vislumbrar um futuro onde o abandono seja erradicado, o Brasil pode mirar no exemplo da Holanda, o primeiro país do mundo a zerar sua população de cães de rua. O sucesso holandês não ocorreu da noite para o dia, mas foi resultado de uma estratégia multifacetada e contínua: aplicação rigorosa de leis com punições severas, programas massivos e gratuitos de castração (especialmente para animais de rua e famílias de baixa renda), alta tributação sobre a compra de animais de raça para desestimular o comércio, e fortes campanhas educativas pró-adoção e posse responsável. A experiência internacional demonstra que a solução exige um compromisso de longo prazo, unindo legislação, investimento público e, acima de tudo, uma profunda mudança cultural.

Serviço: 

Denunciar maus-tratos a animais é um dever de todos e pode ser feito de forma anônima via Disque Denúncia (181), Polícia Militar (190) para flagrantes, ou Delegacias de Polícia (civil ou ambiental). Reúna provas como fotos, vídeos, endereço exato e relatos para o Boletim de Ocorrência (BO).