Integridade define futuro do mercado de carbono


A expansão do mercado de carbono na Amazônia colocou a palavra integridade no centro do debate público. Não se trata apenas de proteger árvores ou negociar créditos ambientais em bolsas internacionais. O que está em jogo é a credibilidade de um modelo econômico que promete reduzir emissões, conservar florestas e gerar renda. Sem integridade jurídica, fundiária, social e institucional, o mercado de carbono corre o risco de se tornar um terreno fértil para fraudes, grilagem e violações de direitos humanos.

Garantir integridade na Amazônia significa estruturar um conjunto articulado de salvaguardas que atravessam desde metodologias científicas de mensuração até a escuta efetiva de comunidades tradicionais. É uma agenda que combina técnica, ética e política.

Integridade técnica e combate a fraudes no mercado de carbono

O mercado de créditos de carbono opera sobre um ativo intangível: a tonelada de carbono que deixou de ser emitida ou que foi removida da atmosfera. Essa abstração exige precisão técnica e controles rigorosos. Sem isso, abre-se espaço para manipulação de dados, dupla contagem de créditos e simulações de redução de emissões que nunca ocorreram.

Um dos pilares da integridade é a adoção de metodologias científicas robustas capazes de comprovar adicionalidade, ou seja, demonstrar que a redução de emissões só aconteceu graças ao projeto implementado. Também é indispensável impedir a dupla contagem, situação em que o mesmo crédito é vendido mais de uma vez ou contabilizado por diferentes atores.

No plano regulatório, a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões precisa incorporar mecanismos antifraude desde sua concepção. Travas tecnológicas, auditorias periódicas e cruzamento de bases de dados são instrumentos essenciais para evitar registros falsos e manipulação de inventários.

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A repressão a ilícitos também integra a agenda de integridade. Operações policiais já revelaram esquemas envolvendo lavagem de madeira, gado e ativos financeiros associados a áreas desmatadas ilegalmente. Investigações sobre organizações criminosas que utilizam estruturas empresariais para legitimar ocupações irregulares demonstram que o mercado de carbono pode ser instrumentalizado como fachada para práticas ilícitas.

O fortalecimento institucional passa, ainda, pela capacitação de servidores e gestores públicos com experiência específica em combate à corrupção e lavagem de dinheiro. Projetos de REDD+ e iniciativas jurisdicionais exigem equipes preparadas para analisar contratos complexos e fluxos financeiros sofisticados.

Grilagem de terras e risco estrutural aos projetos de carbono

Se o crédito de carbono depende da floresta em pé, o controle da terra se torna o ponto mais sensível de todo o sistema. A grilagem representa um dos maiores riscos à integridade do mercado.

Projetos desenvolvidos em áreas com registros sobrepostos, títulos contestados ou disputas judiciais carregam insegurança jurídica permanente. Caso essas áreas sejam posteriormente reconhecidas como terras públicas ou territórios tradicionais, os contratos firmados podem ser anulados e os créditos cancelados, gerando prejuízos econômicos e danos reputacionais.

Há também o fenômeno conhecido como grilagem do carbono florestal. O Cadastro Ambiental Rural, por ser autodeclaratório, tem sido utilizado por indivíduos para reivindicar indevidamente posse sobre florestas públicas ou assentamentos. Com base nesses registros frágeis, tentam estruturar projetos de carbono e captar recursos no mercado voluntário.

Casos investigados pela Polícia Federal, como a Operação Greenwashing, evidenciam como áreas públicas da União foram apropriadas de forma irregular para a comercialização de créditos. Esse tipo de prática compromete não apenas contratos específicos, mas a confiança internacional no mercado brasileiro.

A integridade fundiária exige auditorias completas, análise detalhada de matrículas cartoriais, verificação de sobreposição com territórios tradicionais e cancelamento de registros irregulares no CAR. Sem regularização fundiária, qualquer promessa climática repousa sobre terreno instável.

Além do impacto econômico, a grilagem associada a projetos de carbono pode resultar em expulsão de comunidades, restrições ao uso tradicional da terra e conflitos sociais. O risco reputacional se amplia quando investidores internacionais percebem a possibilidade de contaminação sistêmica do mercado.

Consulta Livre, Prévia e Informada como eixo central de integridade

A dimensão social da integridade encontra seu núcleo na Consulta Livre, Prévia e Informada. Prevista na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho, a CLPI reconhece o direito de povos indígenas e comunidades tradicionais de participar ativamente das decisões que afetem seus territórios.

A CLPI não é uma reunião protocolar nem uma formalidade burocrática. Trata-se de um processo contínuo, que deve ocorrer antes da implementação de qualquer medida legislativa, administrativa ou projeto econômico. Seu objetivo é assegurar que a decisão seja tomada com base em informação clara, adequada e culturalmente compreensível.

O consentimento pode ser concedido ou negado. As comunidades têm o direito de recusar propostas ou retirar consentimento em qualquer etapa. Esse poder reforça a autodeterminação e impede que decisões isoladas de lideranças cooptadas substituam a deliberação coletiva.

Para que a consulta seja legítima, é necessário garantir acesso à informação em linguagem acessível, inclusive com tradução para idiomas próprios quando necessário. Também é fundamental assegurar assessoria jurídica e técnica independente, custeada pelos desenvolvedores do projeto, para equilibrar a relação assimétrica entre empresas e comunidades.

A ausência de CLPI adequada pode resultar na anulação de contratos e atos administrativos. Mais do que um requisito formal, a consulta é elemento constitutivo da validade jurídica e moral dos projetos.

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Protocolos comunitários e fortalecimento institucional

Os protocolos comunitários de consulta surgem como instrumentos de autorregulação elaborados pelos próprios povos e comunidades tradicionais. Neles, definem-se regras sobre como desejam ser consultados, quais instâncias deliberativas devem ser respeitadas, prazos mínimos para análise de propostas e idiomas a serem utilizados.

Esses documentos reforçam a autonomia e funcionam como guias para empresas, investidores e agentes públicos. Ao explicitar ritos próprios, evitam improvisações e consultas apressadas que desconsiderem a dinâmica interna das comunidades.

Em muitos casos, os protocolos dialogam com Planos de Gestão Territorial e Ambiental, articulando conservação ambiental, uso tradicional da terra e estratégias de desenvolvimento local. Quando inexistentes, podem ser construídos com apoio técnico, fortalecendo a governança interna para futuras negociações.

A integridade institucional também depende de mecanismos permanentes de monitoramento. Sistemas que combinam imagens de satélite com monitoramento comunitário ampliam a capacidade de detectar desmatamento, invasões e descumprimento de contratos.

Canais de denúncia, ouvidorias independentes e auditorias externas completam a arquitetura de controle. A proteção de denunciantes contra retaliações é condição indispensável para que irregularidades venham à tona.

No contexto amazônico, integridade não é conceito abstrato. É a linha que separa um mercado de carbono capaz de contribuir para a transição climática de um arranjo vulnerável a fraudes e violações. Ao articular rigor técnico, regularização fundiária, respeito aos direitos coletivos e transparência institucional, constrói-se a base para que a floresta em pé seja não apenas promessa ambiental, mas projeto legítimo de futuro.