Territórios sob ataque: quando a crise climática expõe velhas violências
As mudanças climáticas não atingem todos da mesma forma. No Brasil, elas aprofundam desigualdades históricas e ampliam violações que comunidades quilombolas denunciam há décadas. Uma pesquisa inédita revela que quase 60% dos territórios quilombolas sofrem atualmente com invasões e garimpo ilegal, práticas que ameaçam não apenas a integridade ambiental, mas também a sobrevivência cultural, econômica e física dessas populações.

O levantamento foi conduzido pelo Instituto Sumaúma, organização da sociedade civil sem fins lucrativos, e lançado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, realizada em Belém. O estudo traça um retrato contundente da sobreposição entre emergência climática, racismo estrutural e negação de direitos, mostrando como os impactos ambientais recaem de forma desproporcional sobre comunidades negras tradicionais.
Segundo os dados, mais da metade dos territórios quilombolas já enfrenta secas extremas, enquanto 43,4% relatam perdas significativas nas lavouras, comprometendo a segurança alimentar. A degradação ambiental avança lado a lado com atividades ilegais, impulsionadas pela ausência do Estado e pela fragilidade dos mecanismos de proteção territorial.
Racismo ambiental e exclusão do financiamento climático
O estudo parte de uma constatação central: o racismo ambiental define quem é protegido e quem é exposto ao risco. Para Taís Oliveira, diretora do Instituto Sumaúma, os números apenas confirmam aquilo que lideranças quilombolas alertam há anos. Territórios negros são mais facilmente invadidos, enquanto políticas públicas e investimentos climáticos raramente chegam a quem mais precisa.
Essa exclusão se reflete de forma clara no acesso a recursos financeiros. Mais de 64% das lideranças quilombolas relatam enfrentar barreiras para captar recursos, resultado direto de práticas discriminatórias e de um ecossistema de filantropia que pouco dialoga com projetos liderados por comunidades negras. O financiamento climático, segundo o estudo, ainda opera sob uma lógica distante das realidades locais e pouco sensível às desigualdades raciais.
A pesquisa defende que não há justiça climática possível sem uma abordagem antirracista. Quilombos não aparecem apenas como vítimas do colapso ambiental, mas como guardiões de conhecimentos ancestrais capazes de contribuir para a preservação dos biomas brasileiros. Sistemas tradicionais de manejo, uso sustentável da terra e relações equilibradas com a natureza fazem parte do cotidiano dessas comunidades muito antes de o termo “sustentabilidade” ganhar projeção global.

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Comunicação, juventude e protagonismo feminino nos quilombos
Outro eixo importante do estudo é o papel da comunicação como ferramenta de resistência e mobilização. Os dados mostram que o protagonismo entre comunicadores quilombolas é majoritariamente feminino e jovem. Cerca de 58,5% são mulheres e quase 70% têm entre 18 e 39 anos. Mais da metade possui ensino superior completo ou em curso, desmontando estereótipos ainda persistentes sobre isolamento e falta de acesso à educação.
Apesar da alta escolaridade, a precariedade econômica permanece. Cerca de 88% vivem com renda de até cinco salários mínimos, o que evidencia a distância entre formação acadêmica e oportunidades concretas. Essa contradição é agravada pela baixa infraestrutura digital: quase metade das comunidades enfrenta problemas de acesso à internet e sinal de telefonia móvel.
Ainda assim, a tecnologia se tornou aliada. O celular é usado diariamente por 96% dos entrevistados, e 87% recorrem às redes sociais para denunciar violações, articular campanhas e fortalecer identidades coletivas. A comunicação, nesse contexto, deixa de ser apenas informativa e passa a ser estratégica, conectando territórios, ampliando vozes e disputando narrativas no espaço público.
Ancestralidade, justiça climática e o futuro dos biomas
O estudo também destaca que as prioridades apontadas pelas comunidades quilombolas vão muito além da pauta ambiental isolada. Racismo, acesso a políticas públicas e educação aparecem como temas centrais, revelando que a luta climática está profundamente ligada à garantia de direitos básicos.
Para Juliane Sousa, jornalista, pesquisadora e quilombola que atuou como consultora convidada do estudo, ainda persiste uma visão distorcida sobre essas comunidades. Quilombolas não vivem à margem do mundo contemporâneo, mas mantêm uma relação singular com a natureza, baseada no cuidado coletivo e na valorização da vida em todas as suas formas.
Essa relação, construída a partir da ancestralidade, oferece respostas concretas à crise climática. Proteger territórios quilombolas significa preservar florestas, rios e saberes que contribuem diretamente para o equilíbrio ambiental. O estudo conclui que políticas públicas eficazes e financiamento climático antirracista são fundamentais para garantir a continuidade desses modos de vida e fortalecer o papel das comunidades quilombolas na proteção dos biomas brasileiros.
A divulgação da pesquisa durante a COP30 reforça que justiça climática não se faz apenas com metas de redução de emissões, mas com o enfrentamento das desigualdades históricas que determinam quem sofre primeiro e quem recebe proteção por último. Como destaca a cobertura da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o debate climático no Brasil passa, necessariamente, pelo reconhecimento dos quilombos como sujeitos centrais na construção de um futuro ambientalmente justo.











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