Justiça e agências de risco questionam validade de créditos de carbono na Amazônia

O labirinto ético das compensações florestais na Amazônia

O mercado voluntário de ativos ambientais enfrenta um momento de profunda introspecção e escrutínio público. Recentemente, veio à tona que corporações do porte da Mastercard, BlackRock e Philip Morris International utilizaram créditos de carbono oriundos de um projeto localizado em uma região remota do Pará para abater suas emissões de gases de efeito estufa. O ponto central da controvérsia reside no fato de que o projeto Pacajai REDD+, uma das maiores iniciativas de conservação florestal do mundo, encontra-se suspenso pela Verra, a principal agência certificadora do setor. A interrupção, ocorrida em setembro de 2023, foi motivada por sérias dúvidas sobre a legitimidade da posse das terras onde as atividades de proteção são realizadas. Relatórios indicam que o projeto pode estar operando em áreas de florestas públicas estaduais sem as devidas concessões governamentais, o que coloca em xeque a validade jurídica e ambiental de cada tonelada de carbono supostamente evitada.

A fragilidade das auditorias e o risco reputacional

A utilização de ativos suspensos levanta questões críticas sobre a governança das cadeias de suprimento de sustentabilidade. Embora as empresas citadas não tenham sido acusadas de infringir normas legais — uma vez que os créditos foram adquiridos, em sua maioria, antes do bloqueio oficial — o ato de “aposentar” esses selos após a suspensão revela uma falha sistêmica. Instituições de análise de risco, como a BeZero Carbon e a Sylvera, já haviam alertado anteriormente que os benefícios ambientais prometidos pelo projeto Pacajai tinham baixa probabilidade de serem efetivados. Esse descompasso entre a realidade do campo e os relatórios de sustentabilidade publicados em Nova York ou Londres evidencia um distanciamento perigoso. Para os investidores, a lição é clara: a certificação por si só não substitui a diligência profunda, especialmente em regiões onde o histórico fundiário é complexo e marcado por sobreposições de títulos de terra.

Divulgação - Ag. Pará
Divulgação – Ag. Pará

O impacto nas comunidades locais e a judicialização no Pará

Para além das métricas de carbono e dos balanços financeiros, o caso Pacajai possui uma face social negligenciada que agora chega aos tribunais. A Defensoria Pública do Estado do Pará move ações judiciais contra os desenvolvedores do projeto, incluindo a Amazon Forest People Ltd., buscando indenizações milionárias para as populações locais. A acusação central é de que os contratos de carbono restringem o uso tradicional da terra por gerações de ribeirinhos e comunidades tradicionais, muitas vezes sem uma consulta prévia, livre e informada, conforme exigem os tratados internacionais. Pesquisadores de instituições como o King’s College London apontam que esses projetos frequentemente operam em uma “zona cinzenta” jurídica, onde o lucro gerado pela venda dos créditos raramente chega às mãos daqueles que efetivamente protegem a floresta, aprofundando desigualdades em vez de mitigá-las.

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O futuro da integridade no mercado de carbono global

O desdobramento desta investigação coloca pressão sobre entidades reguladoras e certificadoras para que reformulem suas políticas de transparência. Acadêmicos da Universidade de Oxford defendem que ativos de projetos suspensos deveriam ser imediatamente congelados para qualquer tipo de uso comercial, evitando que as empresas declarem “vitórias climáticas” baseadas em dados incertos. Atualmente, a disparidade de preços no mercado reflete essa crise de confiança: enquanto créditos de alta integridade, focados em remoção tecnológica de carbono, podem custar centenas de dólares, os selos do projeto Pacajai foram negociados por valores irrisórios, inferiores a dois dólares por tonelada. O sucesso da economia verde na Amazônia dependerá, portanto, da capacidade do setor em separar iniciativas genuínas de preservação daquelas que apenas replicam lógicas extrativistas sob uma nova roupagem ambiental. O caso paraense serve como um divisor de águas, exigindo que a proteção da biodiversidade caminhe lado a lado com a segurança jurídica e a justiça social.